Personagem
O Caso Dreyfus
22 de Fevereiro de 2010 | por Revista Wave
Antissemitismo e manipulações políticas: no fim do século XIX, um militar judeu seria injustamente condenado e dividiria a opinião pública na França
por Daniel Faria
“J’accuse…! – Lettre au Président de La Republique, par Émile Zola”. A manchete, estampada no jornal francês L’Aurore no dia 13 de janeiro de 1898, causaria furor em todo o país. A carta aberta do escritor Zola ao presidente Félix Faure acusava altos oficiais do exército de tramarem uma conspiração para condenar o militar judeu Alfred Dreyfus por espionagem para o serviço secreto alemão.
Talvez o mais famoso erro judiciário de todos os tempos e, ao lado dos processos de Sócrates e Jesus Cristo, o de maior repercussão histórica, o Caso Dreyfus é, após mais de um século, símbolo de manipulações políticas, fraudes burocráticas e práticas antissemitas. Condenado em 22 de dezembro de 1894 à “deportação perpétua” por divulgar segredos militares, Dreyfus foi encarcerado na Ilha do Diabo, tendo como companhia apenas seus carcereiros.
Quando Zola publicou seu artigo defendendo a inocência do militar judeu, quatro anos após o primeiro julgamento, a França encontrava-se dividida em dreyfusistas e antidreyfusistas. Para visualizarmos as várias nuances do maior escândalo político europeu do século XIX, é preciso compreender que não se tratava apenas de julgar Dreyfus como culpado e inocente: o clima controverso tinha origem em questões raciais e políticas.
“Judeu sujo”
Em 1886, o jornalista e escritor Edouard Drumont publica o livro La France Juive (A França Judia), repleto de ideias antissemitas e que sugeria a exclusão dos judeus da sociedade francesa. Considerado um dos teóricos do fascismo, Drumont apenas expusera o desejo de grande parcela dos cidadãos de seu país naquela época. Não à toa, se alguém informasse a um europeu no início do século XX que em trinta anos um regime nazista de determinado país exterminaria milhões de judeus, esse europeu apostaria que tal país seria a França.
O ambiente político da Terceira República, pré-Dreyfus, já poderia ser, portanto, demarcado em duas alas: à direita, a nobreza decadente, o clero e os militares conservadores - cujo desprezo aos judeus (comerciantes e bancários que enriqueciam facilmente) era notório -, desejosos pelo retorno da Monarquia, e à esquerda, os apoiadores da República, representados por professores, estudantes, intelectuais e artistas.
Assim, em 1894, quando a empregada de limpeza na Embaixada alemã em Paris, madame Bastian, descobre uma carta suspeita na cesta de lixo do escritório do tenente-coronel alemão Schwarzkoppen, os militares da alta cúpula do exército francês viram a oportunidade de usar um militar judeu como exemplo da “corrupção de sua raça”. Incriminaram o capitão Alfred Dreyfus, judeu de família rica, considerado arrogante entre seus pares, por divulgar segredos do exército francês. Após enfrentar julgamento do Conselho de Guerra, em Rennes, Dreyfus foi condenado e expulso de seu cargo aos gritos de “Judeu sujo” e “traidor”.
Indignação
Nos próximos cinco anos, as opiniões políticas e sociais, até então meros passatempos de salão (como bem relata Proust no terceiro volume de sua obra Em Busca do Tempo Perdido), iriam dividir a França de um modo não visto desde a revolução de 1798. As alegações de que Dreyfus era vítima de antissemitismo aumentam quando, em 1896, o Coronel Picqaurt intercepta um documento acusando o major Ferdinand Esterhazy de ser o verdadeiro autor da carta incriminatória. Picquart é silenciado pelos superiores, mas, em 1987, o irmão de Dreyfus, Mathieu, sugere a mesma possibilidade, o que faz aumentar a pressão popular pela reabertura do caso. Esterhazy é levado a julgamento em janeiro de 1898 ante uma corte marcial e é absolvido em questão de minutos.
Então o jornal L’Aurore publica o famoso artigo de Zola, que acusa os juízes militares de absolver o major por ordens do Ministério de Guerra. Explode o Caso Dreyfus e Zola é condenado por difamação e obrigado a fugir para Londres. No mesmo ano, descobre-se que muito da evidência contra Dreyfus havia sido forjada pelo coronel Henry, da inteligência do exército. Henry comete suicídio e Esterhazy foge para a Inglaterra.
O mundo indigna-se profundamente: nas ruas de Paris, enquanto alguns gritam “Vive Zola!, Vive Dreyfus!”, do outro lado da barricada ouvem-se gritos de “Vive l’Armee! Mort aux Juifs!”. Na Argélia, ocorrem pilhagens de lojas judaicas, estupros e assasinatos, E até Ruy Barbosa, no Brasil, escreve artigos acusatórios contra os militares franceses.
“Vive la France!”
Nessa altura, a revisão da sentença de Dreyfus torna-se imperativa. O caso é levado a uma corte de apelação, já com o socialista Waldeck-Rousseau como primeiro-ministro, que ordena uma nova corte marcial. A corte, incapaz de assumir o erro, condena Dreyfus novamente em agosto de 1899, sentenciado desta vez à dez anos de reclusão por “alta traição”.
Porém, dez dias depois, Dreyfus é anistiado e finalmente solto, apesar de ainda ser culpado judicialmente. Mas, em 1902, ocorre uma tragédia: Émile Zola é encontrado morto em seu apartamento, sufocado pela fumaça de um fogão defeituoso. Alegou-se, meses depois, que os antidreyfusistas teriam bloqueado intencionalmente a chaminé do fogão para matar o escritor, mas não houve provas concretas.
Zola, portanto, não veria Dreyfus ser finalmente inocentado no dia 12 de julho de 1906, em um tribunal reunido em Paris, pelos crimes de espionagem para a Alemanha e alta traição à França. Mesmo após toda luta do exército, da igreja e da imprensa antissemita contra a reabertura do caso, os defensores de Dreyfus demonstraram de forma conclusiva que as acusações eram parte de uma conspiração criada por oficiais do alto escalão para proteger a identidade do verdadeiro espião, Charles Esterhazy.
O Parlamento francês e o Senado votaram pela reintegração do capitão Dreyfus e do Coronel Picquart ao Exército. Dreyfus receberia a Legião de Honra e ouviria uma multidão de franceses a celebrá-lo gritando “Vive Dreyfus!”, ao que responderia: “Non, messieurs, non. Vive la France!”. O escândalo finalmente terminara. Alfred Dreyfus morreria de ataque cardíaco em 12 de julho de 1935, cinco anos antes do exército nazista – e perversamente antissemita – de Hitler invadir uma morosa e passiva Paris durante a Segunda Guerra Mundial.
_ leia também:
_ A história de César Benjamin, ex-militante e guerrilheiro e hoje um dos mais contundentes críticos da esquerda brasileira, por Daniel Faria
_ Fotojornalista sul-africano Kevin Carter suicidou-se após anos registrando a miséria humana, por Daniel Faria
_ O Bloco da Ema: Tony Azevedo empresta um pouco da nostalgia pernambucana para o Carnaval de Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo, por Renata Penzani


