Resenhas
Crueldade, ironia e doçura
22 de Fevereiro de 2010 | por Revista Wave

O polêmico A Fita Branca, de Michael Haneke, o ensaísta Nelson Rodrigues e o novo álbum da perfeita Scarlett Johansson: confira as resenhas da edição nº 023

por  Daniel Faria

A FITA BRANCAMichael Haneke (Drama, 2h24)

 Premiado com a Palma de Ouro em Cannes ano passado, A Fita Branca, do austríaco Michael Haneke (diretor do excelente Caché e do polêmico Funny Games), concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010. Deve vencer, com todos os méritos. Atuações impressionantes dos atores mirins, técnica narrativa impecável e a fotografia em preto-e-branco de Christian Berger, o renomado parceiro de Haneke: cinematograficamente, o longa é perfeito, um dos melhores dos últimos anos.

 Em A Fita Branca, a paz rotineira de um discreto vilarejo alemão às vésperas da Primeira Guerra Mundial é perturbada por uma série de crimes misteriosos. A seguir, Haneke oferece ao espectador uma complexa anatomia moral e psicológica dos moradores da pequena vila. Celeiros são incendiados, crianças torturadas, um pai abusa da própria filha, enquanto um rigoroso pastor obriga seus filhos a usarem uma fita branca para que possam lembrar a todo o tempo sua condição de pecadores.

Talvez a grande polêmica do filme (que, apesar de toda a crueldade aparente, não é exatamente uma obra violenta) seja a tese implícita que Haneke nos sugere: a estrutura autoritária da sociedade patriarcal alemã gerou fortes sentimentos de indiferença, maldade e desprezo entre a geração de jovens do início do século XX, a mesma geração que anos mais tarde abraçaria a causa do nazismo. Ao aceitarmos que o Holocausto é um problema de origem unicamente germânica, podemos acabar por ignorar um acontecimento resultante do fracasso de toda a humanidade. É uma muleta perigosa.

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INTELIGÊNCIA COM DOR: NELSON RODRIGUES ENSAÍSTA - Luís Augusto Fischer (Arquipélago Editorial)

Nelson Rodrigues, o “reacionário”, era um homem de mil talentos. Cronista esportista dos mais poéticos, dramaturgo de maior sucesso na história do país, romancista de um livro só, contista prolífico, além de ser, é claro, dono de uma persona folclórica, Nelson era uma figura ímpar na sociedade carioca entre os anos 40 e 70, dono de frases-síntese que fazem a alegria de antologistas.

Porém, para o gaúcho Luís Augusto Fischer, professor de Literatura da UFRGS e autor de Inteligência com dor: Nelson Rodrigues ensaísta, o autor de Vestido de Noiva era algo mais. Fischer defende em todo o livro a ideia, sugerida pelo jornalista Aníbal Damasceno Ferreira, de que Nelson era o Montaigne brasileiro. Sua intenção é mostrar que suas crônicas – reunidas nos livros O Óbvio Ululante, A Cabra Vadia, O Reacionário, O Remador de Ben Hur e A Menina Sem Estrela – alcançam, por sua agudeza, densidade, coragem e maestria no trato com a linguagem, a estatura dos ensaios.

A teoria é controversa, obviamente. Pode-se afirmar que o francês Montaigne, erudito e dono de uma sabedoria universal e serena, não deveria jamais ser comparado ao repetitivo, polemista e provinciano Nelson, mas o livro de Fischer defende com tanta convicção e com bons argumentos (como a ênfase nas vibrações humorísticas das crônicas, talvez a maior qualidade de Nelson Rodrigues) que a empatia é inevitável.

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THE BREAK UP ALBUMPete Yorn & Scarlett Johansson (Warner)

Para imenso deleite do mundo, ela bastaria simplesmente existir. Que tenha feito a personagem mais apaixonadamente cool da década 00 (a Charlotte de Lost In Translation), que seja a musa de Woody Allen em seus melhores filmes recentes (com todo destaque para as atuações em Match Point e Vicky Cristina Barcelona) e que tenha estrelado os mais belos ensaios fotográficos que se tem notícia, apenas prova que não há limites para a mulher ideal. Scarlett Johansson é a Perfeição.

Em 2008, a Perfeição quis demonstrar que também possui dotes musicais e gravou um disco inteiro de composições de Tom Waits. Os críticos detestaram: muita pretensão para uma mera atriz, um verdadeiro equívoco. Ora, que bobagem. As canções soturnas, etílicas de Waits, perderam a rusticidade e receberam um tratamento espacial (graças a produção de Dave Sitek, do TV On The Radio), com climas sobrenaturais que adornaram sua voz tão sexy. Resultado: faixas como “Falling Down” e “Anywhere I Lay Head” ficaram ainda melhores cantadas por Scarlett.

Agora, a Warner lança no Brasil o disco The Break Up Album, gravado em 2009 pela Perfeição em parceria com o talentoso cantor americano Pete Yorn. Privilegiando as melodias ensolaradas de Yorn – como em “Relator”, “Search Your Heart”, “Blackie’s Dead” e “Shampoo” -, e instrumental simples, o produto final é muito mais agradável que o do disco anterior. Seria ideal que um DVD com imagens da Perfeição acompanhasse Break Up. Scarlett é uma cantora fantástica até com o volume desligado.

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 _ leia também:

 _ Imaginação: “Tudo depende de como você vê as coisas”, do americano Norton Juster, é um convite às diferentes possibilidades de percepção do mundo, por Renata Penzani

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1 comentário

  1. sara warjde diz:

    quadriz, peitos e lábios fartos = a perfeição. isto sim é uma visão rústica - porém pessoal - de uma mulher.

    como marilyn, e outras divas, scarlett segue fazendo papel de si mesma em todos os filmes - coitada, seria culpa dos diretores…

    sua voz grave e sem fõlego agora anasalada…eu ainda ouvi o disco inteiro…algo para se ouvir no verão e se esquecer pelo resto do ano.

    por que não falar que beck regravou o velvet underground and nico e fez um dueto bem bonitinho com a charlotte gainsbourg - vale lembrar que essa sim é atriz.

    but boys will be boys.

    beijos

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