Editorial
Editorial nº 022
7 de Novembro de 2009 | por Revista Wave

Há determinados paradoxos que me perturbam sobremaneira e, não raras vezes, penso em desistir da ideia de editar uma revista cultural. Nas últimas semanas, enquanto definia os textos que estariam presentes na edição nº 22 do site, duas questões – a sinceridade e a autoficção - dominaram minhas reflexões pessoais e procurei estudá-las, em busca não de soluções, mas de suficiente entendimento e análise para expô-las ao querido leitor.

O resultado da primeira reflexão é o texto em destaque desta edição, o Ensaio sobre a Sinceridade Religiosa em Nossos Tempos. As observações expostas – que não são pregação, tentativas de conversão ou defesas das doutrinas batistas – propõem-se a demonstrar o embate entre a tradição religiosa cristã e a indefinível condição humana da sociedade contemporânea.

Acredito que o termo sinceridade seja a chave das angústias do homem moderno. Como conciliar as predileções pessoais (artísticas, políticas e religiosas) em uma paisagem que preza pela despersonalização de identidades ideológicas? O dilema não é apenas crer na sinceridade, mas vivê-la, demonstrá-la e permanecer em paz com a própria consciência.

O segundo questionamento apareceu-me como um natural complemento a concepção da sinceridade. A autoficção é um termo criado pelo crítico literário Serge Dubroski na França dos anos 70 para classificar as narrativas confessionais surgidas no seio da instável sociedade da informação e consiste na derrubada das fronteiras entre a natureza e a imitação da natureza.

Ainda que a ideia de autoficção diga respeito a literatura, é possível revisitá-la na prática social. Nós, que criamos e editamos nossos próprios perfis em comunidades virtuais, praticamos o autoengano; desenvolvemos uma persona idealizada (somos aquilo que queremos ser, não o que realmente somos) que é o exato contrário da sinceridade que, supostamente, deveríamos desejar.

Ora, não sou uma pessoa de fácil convivência. Ainda que meus princípios sejam questionáveis pelo próximo, planejo segui-los com a maior fidelidade possível. Deprimo-me quando noto que, pressionado por outras circunstanciais, descumpro tais princípios. Ainda que a pureza dos ideais pareça devaneios ingênuos, a meu ver, é extremamente admirável aquele que projeta sua sinceridade na paisagem social que vive: viver em paz com a consciência, ainda que em conflito com o mundo externo.

Pois bem, minha sinceridade é, paradoxalmente, repleta de dúvidas e incertezas, mas, naquilo que creio como verdadeiro, usarei a Revista Wave para registrar e documentar. E não há nada de maior certeza que a minha fé cristã. Sob este ponto de vista, a edição nº 22, que quase não existiu, devido ao tormento entre minha verdade e a autoficção, é a mais sincera de todas publicadas até o momento. Espero que o leitor esqueça os preconceitos religiosos e compreenda o espírito e as motivações deste editor que, em busca de maturidade e sabedoria, confronta-se a cada dia com enormes dúvidas, mas ainda acredita piamente em seus próprios preceitos.

Antes de concluir, permitam-me uma breve dedicatória ao pastor da Igreja Batista de Marília, Gilberto Stéfano, uma das minhas principais referências intelectuais e espirituais. Obrigado, pastor, pela apresentação da palavra de Deus de maneira fiel e valorosa. E que Deus abençoe a todos nós.

Aquele abraço.

Daniel Faria
Editor-chefe

Deixe um comentário