Literatura
Sou americano, de Chicago
7 de Novembro de 2009 | por Revista Wave
As Aventuras de Augie March, terceiro livro do “maior escritor americano de todos os tempos”, é lançado no Brasil
por Daniel Faria
Em maio deste ano, soube que a Companhia das Letras pretendia lançar títulos inéditos do escritor americano Saul Bellow e, também, relançar algumas outras obras que há muito estão fora de catálogo, mas são encontradas, em edições esdrúxulas repletas de notáveis erros de tradução, com certa facilidade em sebos. O primeiro lançamento da editora é As Aventuras de Augie March, o terceiro livro de Saul, de 1953, publicado anteriormente no país pela Bloch Editoras na década de 60. Bem, antes tarde do que nunca.
Apesar de não ser seu melhor livro, papel que há muitos cabe a Herzog (1964) ou a O Legado de Humboldt (1976, particularmente, meu preferido), As Aventuras de Augie March, assim como O Planeta do Sr. Sammler (1969) é obra representativa daquela que é das principais angústias dos escritores surgidos após a Segunda Guerra Mundial: a picaresca deformação da reflexão individual frente ao imprevisto da vida urbana. Mas se Artur Sammler é, desde o início do romance, cético e quase inativo na entropia novaiorquina, Augie March é puro entusiasmo narcisista, crescente, um herói romântico em um mundo que parece infinito.
É fundamental construir tal ponte entre as principais obras de Saul Bellow para que possamos compreender o escritor; visto como o principal romancista do século passado por notórios admiradores como Philip Roth (que considera Saul, ao lado de Faulkner, a espinha dorsal da literatura americana), Ian McEwan (para quem Herzog é o melhor livro publicado no pós-Guerra), Amos Oz, John Updike, Salman Rushdie e Woody Allen, que alcançou enormes vendagens de livros nas décadas de 60 e 70, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1976 pelo conjunto da obra, Saul, ironicamente, nunca teve o tratamento merecido no Brasil.
Não à toa, continuamos a vangloriar teses antropológicas (competentes em Milton Hatoum, banais em Chico Buarque) travestidas de literatura, mas dificilmente vemos o surgimento de um novo escritor que ao menos procure trabalhar a profundidade do ego, que ao menos se esforce em traçar panoramas da densidade da angústia da vida moderna. O principal entrave da literatura brasileira contemporânea, e talvez em toda a arte nacional, é a falta de imersão interna.
“Não existe precisão nem apuro na supressão; se você corta uma coisa, acaba amputando o que está ao lado”
Saul Bellow, filho de judeus russos chegados à America no início da Primeira Guerra Mundial, nascido em Lachine, perto de Quebec, no Canadá, é um artesão das meditações referentes às condições da existência humana. Em seus dois primeiros livros, Dangling Man (1944) e A Vítima (1947), tal concepção da existência é descrita na pele de homens vacilantes e inseguros, incomodados com o sentimento de culpa inerente ao judeu daqueles tempos; a influência de Kafka é clara.
As Aventuras de Augie March, ao contrário, é um livro derramado, até mesmo bem humorado, “que se passa onde quer que a plenitude da vida possa ser captada com enlevo”, como definiu Philip Roth em artigo publicado na New Yorker. A extraordinária saga individual do errante mas simpático personagem-título, que viveu a Grande Depressão em subúrbios operários na Chicago de Obama, é contada em imensas 700 páginas, uma eloqüente história americana, irônica e amarga às vezes, alegre e arrebatadora na maior parte do tempo.
“Me soltei e percebi que podia brandir minhas armas e expressar meus impulsos. ‘Augie March’ era uma obra bem extrovertida”, diria o autor, anos depois. Extrovertida o suficiente para não se permitir moralismos ou transcendências espirituais. Entre personagens e tipos inesquecíveis, entre temporadas nos Estados Unidos, no México, na Europa, entre irreverentes empregos – sindicalista, corretor de imóveis e, numa típica homenagem mordaz de Bellow, ladrão de livros -, Augie March é o protagonista errado no suposto país certo. E é exatamente nesse paradoxo que se encontra seu charme, sua atração, que concederia ao escritor a merecida fama de criador de intrigantes heróis.
Não é coincidência o fato de que seus principais livros estampem nomes próprios em seus títulos; o rei da chuva Hendersen, o filósofo Herzog, o sobrevivente de um campo de concentração nazista Sammler, além da inspiração do mestre Humboldt, todos os personagens simbolizam o fascínio de Bellow pela excentricidade da vida.
“Compreensão humana e sutil análise da cultura contemporânea”
O livro, escrito em Paris, onde viveu por dois anos (1948-1950) com uma bolsa da Fundação Guggenheim, projetou Saul nos Estados Unidos. O reconhecimento e a consagração internacional, porém, aconteceriam em 1964, com Herzog, a história de um professor e filósofo erudito que escreve cartas mas não vê motivos para enviá-las. Doze anos depois, a Real Academia de Ciências da Suécia, agraciaria o escritor com o Prêmio Nobel de Literatura “pela compreensão humana e a sutil análise cultural que contém a sua obra”.
Saul morreu em 2005, aos noventa anos, rico e famoso. Ainda que quase sempre referenciado como um escritor judeu, atento aos “shiksas” (literalmente, “coisas detestáveis”) da incorporação do imigrante que deixou a “velha pátria” para trás, Bellow é, a meu ver, um grande apreciador (no sentido de espectador, visualizador) da vibração e das particularidades da realidade americana. O deslocamento social é característica inerente ao judeu na literatura, mas a dificuldade da incorporação é universal; aí reside a magnitude da obra de Saul Bellow.
A esperança é que a reedição de As Aventuras de Augie March e os vindouros lançamentos da Companhia das Letras preencham o vazio literário que os leitores e escritores brasileiros - até então dependentes de exemplares precários e de tradução duvidosa (“good-looking” traduzido como “bem parecido”, é o exemplo mais claro que me vem a cabeça da edição da Abril Coleções de O Planeta do Sr. Sammler) - possuíam distantes das obras do último influente autor literário em língua inglesa. Para Martin Amis, “o maior escritor americano de todos os tempos”.
As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow
Autor: Saul Bellow – 704 pág.
Tradução: Sônia Moreira
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 67,00
Trecho inicial: Sou americano, nascido em Chicago - Chicago, aquela cidade sombria -, e faço coisas do jeito que aprendi sozinho a fazer, estilo livre. Então, vou fazer o registro ao meu modo: a primeira ideia que bater será também a primeira a entrar; às vezes uma batida inocente, outras nem tanto. Mas o caráter de um homem é seu destino, como diz Heráclito, e no fundo não há como disfarçar a natureza das batidas, nem fazendo um tratamento acústico na porta nem cobrindo o nó dos dedos com luva.
Todo mundo sabe que não existe precisão nem apuro na supressão; se você corta uma coisa, acaba amputando o que está ao lado.
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