Música
Roy Orbison de Sheffield
6 de Novembro de 2009 | por Revista Wave
Porta-voz da solidão, o trovador inglês Richard Hawley relata a morte do pai e a dependência química em tristes e belas canções
por Daniel Faria
O inglês Richard Hawley é uma figura desusada. Um cantor-compositor de quarenta e dois anos, que se veste como Roy Orbison e escreve belas e soturnas canções sobre a tristeza, a morte e a dependência química, não é exatamente o protótipo do artista-solo da década que se encerra. Hawley é porta-voz da solidão; não à toa, é praticamente desconhecido fora do Reino Unido. No Brasil, pouco – ou quase nunca – se ouve falar em seu nome.
É uma pena. Sua música não é difícil ou deprimente. É triste e até mesmo dramática em alguns momentos, mas é a sua obscuridade que intensifica a experiência de ouvi-lo: não encontro, em toda a música atual, outro artista que me conduza ao quase extinto exercício individual de interromper qualquer atividade para, pura e plenamente, ouvir suas canções.
Truelove’s Gutter, sexto álbum de estúdio de Richard, foi lançado no fim de setembro pela Mute Records, na Inglaterra, e não tem previsão de lançamento no Brasil. Lamento novamente. Não apenas é seu melhor disco – e estamos falando de um compositor extremamente regular, que gravou elogiados álbuns em todos os anos ímpares desta década –, mas também o mais intenso e experimental.
Tamanha melancolia sugere notáveis referências: a emoção contida de Nick Drake, a tragédia épica de Scott Walker, as desilusões amorosas de Leonard Cohen, o coração despedaçado de Morrissey e até mesmo o fundo do poço poético de Frank Sinatra em In The Wee Small Hours, o famoso álbum pós-rompimento do Blue Eyes com a exuberante Ava Gardner. As agruras do ser romântico, característica inerente a todos os citados, é também o mote da criação de Hawley.
“Somebody call 999, Richard Hawleys just been robbed”
Filho dos músicos Dave e Lyn Hawley, Richard é de Sheffield, cidade do condado de Yorkshire, Norte da Inglaterra, famosa pela arquitetura de gosto duvidoso e pelas diversas áreas de prostituição. Nas últimas duas décadas, também se tornou conhecida nas canções dos mais talentosos letristas da música popular britânica recente, Jarvis Cocker, ex-líder do Pulp, e Alex Turner, do Arctic Monkeys.
Durante mais de três anos, Richard excursionou com o Pulp, para muitos a banda-símbolo, ao lado do Blur, do espírito Cool Brittania associado ao britpop da década de 90. Convidado pelo baixista da banda.Steve Mackey, amigo dos tempos de colégio, participou de memoráveis apresentações nos mais importantes festivais do Reino Unido, como o Glastonbury, o Leeds/Reading e o V Festival e esteve presente nas gravações do último álbum dos ingleses, We Love Life, de 2001.
Um ano antes, Jarvis e Steve ouviram uma demo caseira com canções recém-compostas por Richard. Impressionados, sugeriram ao amigo a gravação de um EP. O disco epônimo, lançado em 2000, encorajou Hawley a seguir carreira solo e, em 2001, grava Late Night Friday, seu primeiro álbum completo propriamente dito.
O reconhecimento (parcial, é claro; em entrevista ao periódico britânico The Guardian, Richard assumiu que sua música “não é muito comercial” e que nunca venderá muitos discos) de crítica e público aconteceria em 2005, com o excelente Coles Corner concorrendo ao Mercury Prize de álbum do ano em 2006. Não levou; Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, disco de estreia do Arctic Monkeys, foi o grande vencedor da noite. Alex Turner, ao receber a estatueta, ironizou a conquista: “alguém chame a polícia, Richard Hawley acabou de ser roubado”.
Hawley costuma referir-se a Turner como “o dono de uma mente absoluta e fodidamente genial”. Os prosadores de Sheffield gravaram juntos em 2007. Richard canta em “Bad Woman”, b-side de “Teddy Picker”, faixa do segundo disco do Arctic Monkeys, Favourite Worst Nightmare. O trovador inglês também colaborou para que a banda Elbow recebesse o Mercury Prize de 2008 com o álbum The Seldon Seen Kid: ele cantou, tocou e ajudou a escrever a canção “The Fix“, um dos destaques do disco.
Após Coles Corner, Richard gravaria seu mais bem sucedido trabalho, Lady’s Bridge, que alcançou o sexto lugar na parada de discos do Reino Unido. Os títulos de seus três últimos álbuns (Coles Corner, Lady’s Bridge e Truelove’s Gutter) são referências a localidades de sua cidade natal. Assim como Turner e Cocker, Hawley é um observador nato, um artista que retrata sua vivência através da música. Mas, ao contrário dos outros dois, suas inclinações e reflexões individuais sobrepõem-se à analise de costumes sociais.
“Mais deprimente que Leonard Cohen”
Portanto, não é absurdo afirmar que Truelove’s Gutter é um profundo mergulho na emoção humana. Realmente profundo: duas das nove canções do disco (”Remorse Code” e “Don’t You Cry”) prolongam-se em intermináveis e brilhantes dez minutos de duração. Nenhum outro cancioneiro sabe usar o silêncio (”música é o silêncio que existe entre as notas”, já dizia o maestro Antônio Carlos Jobim) com tanta propriedade para criar ambientes fantasmagóricos, com ecos e reverberações que logo remetem aos clássico Pink Moon e, principalmente, Bryter Layter, ambos de Nick Drake.
Ainda que não haja certa pretensão ao delírio emotivo, presente principalmente em Coles Corner, duas faixas do atual trabalho de Richard me pareceram primorosamente densas. A linda e contida “For Your Love, Give Some Time“, primeiro single do disco, comove pela temática, o amor na terceira idade. Já a sensação de ouvir “Soldier On” pela primeira vez, e seu lirismo aterrador que compara o “amor fraturado” com o apocalipse, é sublime e não ousarei explicitar o indescritível.
Outros destaques são a já citada “Remorse Code”, hipnótica e épica, e a quase country “Ashes On The Fire”, de lindos versos autorreferentes (“minhas palavras são como flechas que voam tão alto, mas meu arco está quebrado em pedaços”). “Don’t You Cry” encerra a obra, com arranjos que lembram uma canção de ninar, mas que versam sobre relógios cujos ponteiros não se movem; é a morte retratada por um compositor em plena vida artística, responsável por algum dos melhores álbuns de seu tempo.
Há óbvias razões para a freqüência com que a morte é invocada em Truelove’s Gutter. Seu falecido pai teve câncer durante as gravações do álbum anterior e, para não se deprimir ainda mais, preferiu poupar-se de compor canções relativas a tal tragédia. No novo disco, porém, o tema da morte aparece sem histeria ou pomposidade, mas como uma reflexão natural de um homem de 42 anos.
“Naquele momento [gravações de Lady’s Bridge], eu não queria que meu pai me ouvisse tocando músicas depressivas. O mundo iria parecer algo ainda pior. Ouvir ‘The Birdie Song’ [referência a As The Dawn Breaks, faixa de abertura de Truelove’s Gutter] durante um tratamento de câncer seria ainda mais deprimente que ouvir Leonard Cohen”, disse, com certo cinismo, na entrevista ao The Guardian. Seu sofrimento é, agora, o deleite alheio. Um verdadeiro artesão da sutileza, da emoção, da alma.
Richard Hawley
Truelove’s Gutter (Mute Records)
1. “As The Dawn Breaks”
2. “Open Up Your Door”
3. “Ashes On The Fire”
4. “Remorse Code”
5. “Don’t Get Hang Up In Your Soul”
6. “Soldier On”
7. “For Your Love, Give Some Time”
8. “Don’t You Cry”
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