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É passado. É unha de mulher
6 de Novembro de 2009 | por Contos, Crônicas e Poesias

A Revista Wave apresenta a terceira parte da história Hannah & Itche, da escritora Sarah Ribeiro Warjde, de Natal. Para ler os primeiros capítulos, clique aqui e aqui.

Hanele

 Sinto falta do ninho de cabelos escuros
No ralo do banheiro
Do cheiro forte de ervas

Que do travesseiro se soltava
Quando ela levantava a cabeça, ao acordar

E ela logo está em frente ao espelho
Seu reflexo a seduz
Mas ela é fria

Depois do show de nudez no corredor
Joelhos sem cor, pontudos
Fecho os olhos e vejo o clarão

De suas costas nuas pela noite

Seus braços invadem toda a madrugada

E pela manhã
Já enxergo luz entre suas pernas
Penugem rala de quem mal saiu da escola

Sinto falta dos discursos
Entre cigarros gitanes nos grandes lábios, ainda macios
Apesar dos hábitos vagabundos.

Me perguntaram uma vez, como se eu fosse algum Pablo Neruda, se eu tinha algum arrependimento: cabelos, joelhos e braços de Hannah. Seu exilir noturno. Os objetos que caem para denunciar sua ausência. Hannah.

Isaac, 1992

Hannah abriu a porta de seu apartamento. A boca vermelha. Estava descalça:

Sempre penso em você calçada naqueles saltos altos de vinil. Lenta e perigosa.

Ela sorriu.

Era uma sala ampla e pouco mobiliada, a não ser por uma estante desgastada pelo peso dos livros, alguns familiares a minha época ao lado dela. Aquele luxuoso prédio tinha uma sala que ainda cheirava às nuance miseráveis de nosso quarto em Coney Island.

Hannah deixava tintas, pincéis, telas e lápis espalhados pelo apartamento. Seu lar também exilava criatividade e tempestades. Ela, porém, parecia vazia e submissa. Era como se os dois anos que passamos separados nos tivesse exaurido por completo. Posso me corrigir: ela parecia apenas uma garotinha assustada, a caminho do hospital psiquiátrico.

Nos sentamos no chão de sua varanda. O céu noturno estava denso, com nuvens sólidas de expectativa. Ela encostou sua cabeça em meu colo, como se fosse fazer sexo oral. E começou a falar de sua vida, da que estava conseguindo conceber. Do passado. Mas decidiu me poupar e não fez rara menção ao nosso caso de dois anos atrás, a nossas batalhas. Não falou de mim, absolutamente.

Ela me contou sobre os homens com que esteve. Advogados, poetas menores. Os angustiados e os vigaristas. Dizia-me que eles “eram interessantes, mas era isso que afastava uma mulher de seu trabalho”. Foi aí que seus olhos se tornaram felinos e eu senti um pouco do poder que ainda existia ali.

E Hannah ainda falava sobre os mesmo assuntos:

- Bukowski dizia que de tanto galinhar, um homem acaba perdendo sua identidade.

Eu silenciei. Ela queria saber de minhas mulheres.

Mas ela não me deixou soletrar o primeiro nome: finalmente levantou-se e começou a mostrar-se: já tinha sido uma garotinha sardenta ao meu lado, mas agora estava me mostrando suas coxas. Hannah: juventude.

Ela acordou em meus braços, em sua cama. O quarto tinha paredes cheias de janelas, sem cortinas, que deixavam nossos corpos nus expostos ao sol e à cidade. Ela parecia confusa.

- Não demorei tanto o quanto você demorou para voltar.

Logo ela começou, em silêncio, a examinar meu corpo com as mãos, ver o que tinha mudado, o que permanecia intacto, o que estava como quando ela me deixou.

Deslizou os dedos por minhas pernas, cheirou minha virilha: o cheiro dela ainda estava lá. Sim, sou seu. Pegou em meus pés, mordeu meu dedão. Chegou às costas, percorreu a pele com os dedos, contou sinais, me alisou com seus cabelos.

- O que é este arco profundo em suas costas? – ela perguntou, baixinho.

- É passado. É unha de mulher.

Ela se afastou de meu peito e disse:

- Eu nunca imaginei que Annie fosse esse tipo de mulher.

- Acredite: Annie nunca faria isso.

Senti Hannah amargar quando tocamos no passado. Mas o desejo ainda estava ali.

Pedimos café, fumamos. Geléias, croissants, biscoitos e brioches. Toda aquela comida me parecia piada ao comparar com a qualidade de vida que já tivemos juntos. Mas eu comia com uma mão, e a outra descansava na coxa esquerda de Hannah.

Você está precisando de amor, Hannah.

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_ leia também:

_ Leia os primeiros capítulos de Hannah & Isaac, da escritora Sarah Ribeiro Warjde

_ “Migalhas de um garoto feliz cujo resto era apenas um suéter verde-oliva”; uma história para ser levada a sério como a mais fina das ironias, por Renata Penzani

_ A solidão que atrai: ‘O instante dura poucos segundos, ela fecha o livro e trocamos rápidos olhares. Estou a observá-la descaradamente’, por Daniel Faria

1 comentário

  1. Pater diz:

    Tem mais?
    Adelante!

    beso

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