Cinema
(Re)invenções do passado
30 de Setembro de 2009 | por Revista Wave

Tarantino visita a guerra em Bastardos Inglórios, seu novo filme, estrelado por Brad Pitt, para explicitar sua relação irônica com o cinema

por Gustavo Padovani

As conexões entre o cinema e a história pontuaram diversos momentos da evolução das teorias cinematográficas, principalmente após o fim da Segunda Guerra Mundial, um acontecimento que mudou - de maneira quase palpável - os rumos estéticos, ideológicos e mercadológicos da sétima arte. Ao investir nesse momento histórico em Bastardos Inglórios (2009), Quentin Tarantino, ainda que debruçado em seus maneirismos, pincela um estreitamento irônico entre a história e o cinema, pois sua cinefilia é utilizada não para examinar a guerra em si, mas para explorar a forma com que ela relaciona-se intimamente com o próprio cinema.

Dando continuidade a um processo iniciado em Death Proof (2007), o diretor substitui a mera inserção de pastiches do passado, pelo deslocamento integral da sua câmera para a década de 60-70, criando um simulacro de tudo que emane do período: a montagem, a tipografia dos créditos, a trilha e as cores. Há sua fascinação tanto pelo blackexploitation, como nos filmes B italianos sobre a guerra - como a referência clara ao título Inglorious Bastards (1978), de Enzo Castellari. Essa alusão visual ligada ao passado poderia incidir meramente como um recurso estilístico, mas ela também está presente para reavivar um elemento gradualmente perdido nos filmes sobre a guerra em função do realismo das batalhas e/ou pela veracidade histórica de suas narrativas: a diversão.

Essa premissa autoriza Tarantino a realizar suas inserções ficcionais sobre os fatos históricos, explorando com primazia a construção de seus múltiplos personagens e diálogos inteligentes. O propagandista do nazismo Joseph Goebbles (Sylvester Groth), torna-se aqui um cineasta com o intuito de promover o filme Nations Pride em Paris. A dona do cinema que irá forçosamente exibir essa película na cidade, Emmanuele Mimeaux (Melanie Laurent), é uma francesa com visual e atitude extraídos diretamente dos anos 60, passando-se facilmente por uma freqüentadora do Quartier Latin e da Cinemateca Francesa. Sua percepção do poder transformador do cinema naquele momento - além de ressaltar o anacronismo da personagem - revela-se uma alegoria, cuja concretização realiza-se em seu plano de atear fogo em películas antigas para alterar o destino da guerra. Em Bastardos Inglórios, há diversos jogos metafóricos e metalinguísticos, todos convergindo para fazer o campo de batalha dessa guerra tornar-se, literalmente, o espaço físico do cinema.

Contraditoriamente ao acréscimo ficcional na história, as línguas são tratadas com rigor. Alemão, francês, italiano e inglês são falados sistematicamente, tornando-se artifícios cruciais para o desenvolvimento da trama. A fluência nos quatro idiomas do general Hans Landa (que rendeu uma Palma de Ouro para Christoph Waltz) personifica a importância dos dialetos no universo de Bastardos Inglórios, conferindo ao personagem uma singular mistura de poder e leveza. Tarantino esboça em Hans as proporções de um Deus Ex-Machina, concedendo a ele o domínio pleno nos atos de quase todos personagens envolvidos.

Apesar de haver a expectativa de uma violência excessiva, proveniente da associação “guerra” e “Tarantino”, o filme a trabalha de forma pontual e objetiva, fazendo-a servir como solução em quase todos os momentos em que os extensos diálogos abandonam a funcionalidade. Ainda assim, a violência assume um caráter provocativo, pois o sangue derramado e as mortes não servem para expor a crueldade e dramatizar um dos momentos mais chocantes do século passado, mas simplesmente para mostrar que a Guerra pode ser um terreno fértil para alguém atrás das câmeras se divertir.

 (Publicado originalmente na Revista Projeções)

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds)
EUA, 153 minutos, 2009
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Direção de Fotografia: Robert Richardson
Produção: Lawrence Bender
Edição: Sally Menke
Música: Quentin Tarantino
Elenco: Brad Pitt, Eli Roth,Chirstoph Waltz, Melanie Laurent, BJ Novak, Mike Myers, Michael Fassbender, Diane Kruger, Til Schweiger, Julie Dreyfus.

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