Resenhas
Ode à curiosidade
30 de Setembro de 2009 | por Revista Wave

Imaginação: “Tudo depende de como você vê as coisas”, do americano Norton Juster, é um convite às diferentes possibilidades de percepção do mundo

por Renata Penzani

Em “The Phantom Toolboth” ou “Tudo depende de como você vê as coisas” de Norton Juster (ilustrações. Jules Feiffer, 1961, trad. Jorio Dauster, 1999), o pequeno Milo, acometido pela inquietação pueril, não via graça em nada e vivia em profundo tédio. Até que, por mágica ou solidariedade divina, ele recebe em seu quarto uma caixa azul, misteriosa e intocada, de remetente desconhecido. Nela, o caminho para as coisas que deveria conhecer para encontrar o sentido da vida, como a importância das palavras, dos números, dos sons, da percepção: das coisas que, afinal, passavam por ele todos os dias sem que ele notasse ou desse importância – ou um pouco das duas coisas. Num embrulho pouco provável e sem nenhuma lógica, Milo ganha uma cabine de pedágio.

O menino se encanta com a cabine e seus múltiplos significados, e parte nela para os momentos mais intrigantes de sua vida, em que é obrigado a refletir sobre valores que recebeu e engoliu sem pensar sobre. Numa viagem conduzida unicamente pelo surreal, conhece o lugar onde se escondem os sons, a mina de onde vêm os números e as prateleiras de onde saem as palavras, percebendo, num movimento sutil e gradativo, o porquê de cada coisa estar exatamente em seu lugar.

Tudo o que acontece na história converge para um mesmo ponto: tudo depende de como se vê as coisas. Do Ponto de Vista, talvez o lugarejo mais intrigante por onde Milo passa, é que surge a questão da subjetividade como catalisador das experiências humanas – até mesmo essa tentativa de resenha pode ser totalmente esvaziada de sentido se lida por alguém que não sentiu nenhuma identificação com o livro de Juster.

O contato com o personagem Alex Loisas, um menino que tem os pés a um metro do chão, induz ao leitor uma coleção de metáforas: a inocência das crianças que vivem com a cabeça flutuando, o amadurecimento como algo devagar e minucioso, a sabedoria representada pela imagens dos pés juntos ao chão. Nesse capítulo, está condensada boa parte da mensagem do livro, e é nele que Milo aprende, da maneira mais fantasiosa e sutil, que achar algo bonito, interessante ou inútil depende de uma série de representações pessoais que carregamos e aperfeiçoamos desde que nascemos.

Apesar de ser sido levado ao cinema em 1969 por Chuck Jones, Tudo depende de como você vê as coisas fica melhor no papel e na imaginação, pois só nessas circunstâncias a mente fica livre para imaginar e a história permanece infinita. Afinal, como diria Manoel de Barros, “imagens são palavras que nos faltaram”. O livro estende sobre as nossas mãos uma viagem que, para os mais incautos, pode parecer infantil; que aos mais atentos se assemelhará à terrível tarefa de entender o mundo sem a pretensão de esgotar seus significados, tarefa de entender que amadurecer dói. Mas pode ainda, agarrado à Filosofia de Alex Loisas, não significar absolutamente nada, afinal, “tudo depende de como você vê as coisas”.

Nessa história em que quase se pode tocar o abstrato com as mãos, nunca ficamos carentes de metáforas, jogos de palavras, fábulas e tudo o que possa povoar o nosso imaginário. Mas, a parte isso, o livro, sempre fiel ao seu título, dá liberdade para quem quer que prefira rotulá-lo como um mero pequeno clássico da Literatura Infantil. “Tudo depende de como você vê as coisas” é, talvez, o mais democrático dos livros: convém a todos, desde os que têm a cabeça nas nuvens até os que preferem manter os pés no chão, mas, principalmente, àqueles que sabem que tentar esgotar as possibilidades de percepção de alguma coisa qualquer, é uma pretensão estéril.

Trecho do livro

Você nunca deve ficar aborrecido por ter cometido um erro, explicou a Razão calmamente, desde que trate de aprender com ele. Com frequência as pessoas aprendem mais por terem cometido um erro com boas razões do que por estarem certas pelas razões erradas.Mas há tanta coisa para aprenderem, disse ele, pensativo, franzindo a testa. Sim, é verdade, admitiu a Rima, mas não é só aprender que é importante. O que importa é aprender o que fazer com o que você aprendeu e compreender por que deve aprender coisas. (Juster, 1999: 234)

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