Literatura
Irlandês apaixonado
12 de Setembro de 2009 | por Revista Wave
Um poético e singelo James Joyce apresenta-se em Música de Câmara, seu primeiro livro; Revista Wave recria três de seus poemas iniciais
por Cesare Rodrigues
Li poucas coisas de Wilde, Yeats e Beckett. De Joyce, li algo mais; foi o que mais procurei dos irlandeses, por sua fama como membro da moderníssima trindade (com Kafka e Proust) e por sua notória inventividade. Autor de não muitos, mas volumosos volumes, um deles Ulysses (1922), Joyce é unanimidade no cânone da literatura universal, um dos mais importantes e influentes textos do século passado. Em seu livro mais conhecido, o pensamento passeia livremente por sua cidade natal Dublin; o autor encontra nas possibilidades formais e estéticas sua recriação simultânea de linguagem e narrativa e relê a Odisseia de Ulisses (de Homero) em um único e agitado dia de Leopold Bloom.
Já antes de Ulysses Joyce experimentava, desenvolvendo o texto a partir de epifanias (que poderíamos definir como manifestações espontâneas da imaginação ou de Deus, no caso da realidade – o que Stephen Dedalus, em Ulysses, afirma ser todo o drama da História, um pesadelo do qual tenta despertar) como já é observável em Stephen Hero ou A Portrait of the Artist as a Young Man, O Retrato do Artista Quando Jovem (1916). Experimentos que ele posteriormente extrapolaria em seu texto mais pretensioso, seu Work in Progress, depois batizado Finnegans Wake, quando buscaria recriar o mundo pela linguagem, construindo um grande universo de significação, uma dança de palavras, um caos linguístico mergulhado no inconsciente livre pelo tempo e espaço feito pensamento que se perde na luz.
Mas os poemas de Música de Câmara (seu primeiro livro publicado, Chamber Music) pouco têm da inventividade que o transformou no imenso irradiador da literatura modernista. Nesses primeiros poemas, Joyce não é o recriador de Finneganns Wake, mas um cantor de melodias muitas vezes singelas. Quase sempre exaltando o mundo, o amor; são canções “de se fazer bater os corações”. Canções que, diferentemente da expansiva obra em prosa que explode das epifanias do autor, ficam presas a estruturas que se repetem, sendo todas de ritmos parecidos, fazendo de Joyce uma espécie de trovador provençal.
O ar pastoril, a presença ou ausência da amada, o beijo mais suave que o hálito do verão. Temas tão leves que parecem flutuar na melodia simples, de rimas muitas vezes repetidas e até certa e declarada ingenuidade, um pouco de infância e muito de um poeta que ama e canta ao amor que um dia esperava encontrar.
Publicado em 1907, quando Joyce contava 25 anos, Chamber Music - o título é atribuído ao ruído da urina caindo no urinol (“chamber”) - não foi entusiasticamente recebido pela crítica, embora tenha sido exaltado por gênios como Yeats e Pound; este último colocou Joyce em sua coletânea de imagistas. Chamber Music foi posteriormente rejeitado pelo próprio autor, embora seja inegável sua importância para a formação do espírito artístico e poético de um dos maiores mestres da literatura.
Tentarei aqui recriar, ao meu ainda desajeitado modo, três dos trinta e seis poemas de Joyce, baseado na edição brasileira (bilíngüe) de Chamber Music (Iluminuras), sob o título Música de Câmara, com tradução e introdução de Alípio Correia de Franca Neto.
XXXI
O, it was out by Donnycarney
When the bat flew from tree to tree
My love and I did walk together
And sweet were the words she said to me.
Along with us the summer wind
Went murmuring – O, happily! –
But softer than the breath of summer
Was the kiss she gave to me.
XXXI
Ó, e já passávamos de Donnycarney
Quando de árvore em árvore o morcego voou
E enquanto meu amor e eu caminhávamos juntinhos
Quão doces palavras ela me falou.
Acompanhava-nos a brisa veraneia,
Que – Ó, alegremente! – murmurava,
Mas mais suave que o hálito veraneio
Era o beijinho que ela me ofertava.
*
O poema XXXII é chuvoso, de lembranças de separação. Menos doce que o XXXI, crê no poder de sua voz quando entoa ao coração.
XXXII
Rain has fallen all the Day
O come among the laden trees.
The leaves lie thick upon the way
Of memories.
Staying a little by the way
Of memories shall we depart.
Come, my beloved, where I may
Speak to your heart.
XXXII
Caiu a chuva por todo o dia,
E cruzaste os arvoredos em tuas andanças.
Recoberta de folhas estava a via
Das lembranças.
Adiante em nossa via da lembrança,
Uma estiagem, nossa separação.
Ó, minha amada, venha onde eu possa
Cantar-te ao coração.
*
De que mais precisa o inquieto coração que descansar?
O poema XXXIV tenta resistir à proibição da voz do inverno e cair num sono aquietante para o coração.
XXXIV
Sleep now, O Sleep now,
O you unquiet heart!
A voice crying “Sleep now”
Is heard in my heart.
The voice of the winter
Is heard at the door.
O sleep, for the winter
Is crying “Sleep no more!”
My peace will give peace now
And quiet to your heart –
Sleep on in peace now,
O you unquiet heart!
XXIV
Ó Durmas, Durmas já,
Ó durmas, inquieto coração!
Ouço um choroso “Durmas já”
Do fundo do meu coração.
A voz do inverno
Ecoa à porta, nas brumas.
Ó durmas, ainda que o inverno
Cante choroso “Não durmas!”.
Que meu beijo pacifique
E aquiete teu coração –
E que possas dormir pacífico,
Ó, inquieto coração!
*
Mas não aquieta-te não, Ó inquieto coração.
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Dotado de espírito poético aviltado, Cesare Rodrigues gostaria de viver na ficção, fugindo sempre que pode para Rimbaud, Cortázar, Chaplin ou Godard. Quando não pode, cursa jornalismo onde aprende o que quase inconscientemente trai em textos como os que publica aqui ou ali. Atualmente, se perde em desvarios e tenta compreender que papo é esse de mímese . E-mail: cesarasrodrigues@gmail.com
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