Opinião
Diário de um leitor
12 de Setembro de 2009 | por Revista Wave

Duas opiniões contraditórias, paradoxais, mas ainda assim complementares; meu mundo após a supremacia estética de Proust

por Daniel Faria

25.08.09 - Pouco escrevo porque muito leio. E não há muito a escrever, aliás: quando notei que a empatia tal que avidamente vivia a procurar nas artes era a própria criadora da empatia, e não a sua correspondente, como eu, menosprezando o poder da sabedoria literária, supunha, passo minhas horas solitárias - antes tão longas, hoje tão curtas – a ler as dezenas de novos livros presentes em meu quarto.

Insisto na questão da empatia como guia primeiro de nossas motivações artísticas. Harold Bloom, no polêmico Como E Por Que Ler, pede que leiamos plenamente, não para acreditar, não para concordar, tampouco para refutar, mas para buscar empatia com a natureza que escreve e lê. No entanto, Bloom, o maior crítico literário vivo, célebre defensor da importância estética dos cânones ocidentais em oposição àqueles que veneram uma obra por motivos extra-artísticos (ideologias sociais, raciais, religiosas etc.), também acredita que o autoaperfeiçoamento é o projeto perfeito do leitor ideal e que, com tal reflexão e avaliação pessoal que a leitura de Shakespeare, Tolstoi e Proust é capaz de promover em nós, a empatia passa de um espectro indefinível para uma energia viva e plena.

Bloom diz ainda que a única transcendência secular em que nos é possível alcançar o sublime, exceto a transcendência ainda mais precária que é o amor e a paixão, acontece no sofrido prazer da leitura. É a devoção ao amor que me faz desprezar o mundo externo. É a devoção literária que me faz usar muito do meu salário em livros. Nessa semana, adquiri quatro livros de Saul Bellow, os dois primeiros volumes reeditados de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, três livros de Philip Roth e mais Goethe, Sófocles, Shakespeare e Charles Dickens. Na próxima semana, serão outros mais.

Como conciliar minha técnica prematura de escrita, porém ansiosa pelas possibilidades infinitas da literatura, com a fugacidade virtual em tempos que as pessoas leem em 140 caracteres, não saberia responder. Que as pessoas mexeriquem e exponham reclamações sobre o tédio, o clima, Sarney, A Fazenda, sexo das celebridades e Belchior, não é algo que tenha voz eu para censurar. Que as pessoas apenas leiam em 140 caracteres, porém, é prática que me desgosta profundamente. Leiam mais, meus queridos. Há um mundo maior e mais belo além dos blogs e do Twitter.

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03.09.09 - Nada tenho a escrever. Nada a acrescentar. E nem a resmungar. Momentaneamente, perdi a necessidade de expressar qualquer “filosofação”, como brincaria Paulo Francis. O mesmo Francis escreveu certa vez que ficou anos sem ler romance algum após terminar a leitura de Em Busca Do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Parecia-lhe tudo supérfluo e chato. Eu, que li apenas os dois primeiros volumes, No Caminho de Swann e À Sombra das Raparigas em Flor, vejo desgosto em todo o resto. Com algum esforço, obtenho certo prazer em alguns contos de Guimarães Rosa, que possui uma estética avessa a de Proust mas de um experimentalismo onírico, assim como Joyce, que muito aprecio. No entanto, tenho abandonado a maioria dos outros livros logo nas primeiras páginas.

Que é sensação temporária, não me resta dúvidas. Perdi, porém, o deslumbre e o prazer que a arte estava a me oferecer. Ao que me parece, Proust exauriu todas as possibilidades da associação entre a arte e a beleza; no fim, meu ideal de perfeição foi alcançado e é como se não houvesse necessidade de continuar a buscar o “sofrido prazer” da leitura, que é a função primordial da literatura, como acredita Harold Bloom. Logo, encontro imensa alegria nos meus encontros com a pequena L., nas partidas do meu aniversariante Corinthians e nos infinitos gracejos dos meus pais, irmãos e cunhadas, mas confesso que Proust bloqueou rigorosamente minha mente. Sinto-me tenso quando escrevo, e é deveras sintomático o fato de que, no exato instante em que estava aqui, a escrever as palavras que o leitor repassa os olhos, tenha ocorrido uma brusca queda de energia em minha casa. Tudo às escuras, pensei: “estou apagado”.

Tentarei, com a maior freqüência possível, voltar a escrever na Revista Wave, concluir as dezenas de contos iniciados, ler novos autores e abandonar meu recente preconceito severo com o twitter, jornalistas e políticos (já que curso Comunicação Social, trabalho com política e estou lá, following o mestre @manomenezes e o goleiro-ídolo @Ronaldo601) e toda a gente que rosna os termos “cultura” e “informação” de boca cheia sem a mínima noção e responsabilidade com o que dizem. Mas repito: estou apagado, estou apagado. Traga-me de volta ao mundo comum, Proust.

(Comentei sobre o bloqueio criativo com a querida Sarah, autora do conto Hannah & Isaac, que é capa da atual edição da Revista Wave. Reclamei, tão ingrato quanto Nabal diante do Rei Davi, que a felicidade atrapalhava minha criatividade. No dia seguinte - perdoe-me, Sarah, por expor tal fato; acabo usando-me de assuntos particulares para camuflar a notória falta de assunto -, ela enviou-me a seguinte frase:

Hemingway, para muitos o maior escritor americano de todos os tempos, suicidou-se em 1961, com um tiro de fuzil na cabeça, após toda uma vida turbulenta e depressiva. Obrigado, Sarah.)

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Daniel Faria, 21 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Philip Roth, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz. E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com

 

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