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Hannah & Itche - Primeiros Capítulos
10 de Agosto de 2009 | por Revista Wave

A Revista Wave tem o prazer de apresentar os primeiros capítulos da história Hannah & Itche, da escritora Sarah Ribeiro Warjde

 Hannah
Surpresa!
Fogo na ponta da língua, uma xícara de café.
Ainda não chove. O carro corre devagar, é um passeio matinal. Mas não há folhas caindo ou carrinhos de bebê.

A agulha é gelada e superior. A enfermeira, violenta e vulgar.
Agora chove.
Agulhas e pílulas, um bom comportamento.
A médica é jovem, gosta de drogas.

Está chovendo mais forte. Canivetes no ar, canibais na cabeça.
Sim, está chovendo.
Mas eu vou continuar andando.

Itchele

O desejo me corrói, o outro é um idiota. O olhar cínico produz cicatrizes eróticas (o desprezo, o desprezo). Faz muito tempo, poderíamos voltar a Israel, porém é mais fácil lutar e corromper por um monte de poeira aqui mesmo, em longos discursos de orgulho. Eu minto o tempo inteiro, mas sou a única a saber: ele não é mais um intruso aqui, é, sim, um gentio fanático. Tudo bem, eu ainda quero a sua humilhação, deve cheirar bem. Aguardo a artilharia em qualquer posição. Gosto do nariz típico, fim bum, do p&b. Ele é um homem, com amor e sua rotina ociosa (virgens, mulheres desnutridas). O ridículo é exposto em suas prateleiras, ele ainda é o menino gordinho perdido em suas coleções de decalque. E, enfim, ele nem me conhece. Só sabe a respeito de meu âmago cor-de-rosa.

Icek-Hersz

Agora ele é um rapaz crescido, um idiota de Yeshivah. Tem uma namorada shiksa de corpo profano; ele peca por acreditar e peca por continuar. A Hannah reservou o melhor pedaço de seu desprezo. Quando ela foi internada no verão de 1986, Isaac mandou um cartão-postal de Nova Iorque, sem corpo de texto. Limitou-se a assinar seu nome em tinta vermelha. Que bela assinatura!

Seu maior segredo: cada vez que faz amor com a namorada, se enche de culpa e vergonha, ora pedindo perdão a Hannah. Por esta invasão e por estes sentimentos decidiu que sua doença e ela tinham um quê de veneno; era uma imoralidade inadmissível. E, assim, só a indiferença poderia ajudá-lo a esquecer o pouco que lembrava daquela mulher, o maior traço de seu passado.

A outra mulher

Annie, nascida em Connecticut, de família originalmente sulista, era filha de um militar de baixa patente e de uma cabeleireira de bairro. Os longos fios de cabelo de Annie, claríssimos de se cegar, estavam sempre escovados. Era a norte-americana clássica. Já seus olhos não eram normais. Carregava vazio e infantilidade. A boca confundia sentimentos e ela acabava com uma maçã mordida por outra pessoa. Não tinha mágoas. Sua fraqueza era tão franca e cara quanto o seu sorriso de diamante. Todavia, Annie era dona de um poder terrível: testava o outro, era a vítima, era a vilã.

Cresceu forte: foi-lhe ensinada sobre Édipo e Medeia, sadismos… e todo o perigo que o sexo representava. Os ensinamentos eram rígidos, enraizavam-se; mas tão logo seus mamilos apontaram para fora de seus camisetes de linho, iniciaram-se as brincadeiras de seduzir de quem parecia estar com medo de brincar com fogo. Passou a lavar o rosto repetidamente, para deixar a pele brilhando, conversava com homens desconhecidos na rua e até respondeu um anúncio erótico do jornal, mas acovardou-se e saiu sem nem pagar por seu refrigerante.

Annie ainda mantêm esses sonhos infantis de mudança: quer se mudar para Manhattan e casar-se com Isaac. Sonhos simples de um clichê: mora com a mãe num apartamento dos anos 1960. É apaixonada por seu analista. Sua aparência frágil e pura esconde conflitos sexuais e crises psicológicas.

Conheceu Isaac quando era datilógrafa em uma pequena editora onde ele estava tentando, em vão, publicar um conto. Trocaram números de telefone rapidamente e, após passarem uma tarde inteira bebendo sangria no parque, Annie começou, naquele silêncio contemplativo de bêbado, a fantasiar sobre o futuro e sobre como o nome dela iria soar junto ao sobrenome dele, caso se casassem:

“Annie Kornfeld…Annie Kornfeld…”

Era verão.

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Capítulo - Hannah sobe às escadas

Primavera de 1990, cidade de Nova Iorque. Hannah finalmente recebeu alta do hospital psiquiátrico. Nos quatro anos de confinamento, escreveu longas cartas (que nunca mandou) a Isaac, conspirou contra o governo Reagan, fez aquarelas e poemas ilustrando as excentricidades de seus companheiros de doença.

Sua enfermeira favorita, Martha, como o título de uma canção de Tim Buckley, foi morta em maio de 1989 por um esquizofrênico que respondia pelo esdrúxulo nome de Quincy Knowles. Sua morte foi explicada pelo que chamaram de “overdose forçada”: padeceu pelos mesmos remédios que distribuía todos os dias à ala de Hannah. Knowles costumava chamar Hannah de “sereia do mar”, encantado por sua beleza e educação aristocráticas. Após o assassinato, ele sumiu por dois anos. E, nesse meio tempo, fez todo o circuito californiano, furtando drogas de farmácia e outros pequenos produtos sem importância. Além de esquizofrênico, ele era um wino, um alcoólatra de vinho. E tinha interesse por todo tipo de droga que lhes fosse oferecido ou que pudesse roubar. Hoje, Quincy Knowles vegeta num quartinho claustrofóbico em Jersey, com a língua travada e a linguagem prejudicada, resultado de eletrochoque em demasia. Esta foi a sua punição: o total desligamento da sociedade, o isolamento, e a privação da fala, do pensamento, do ser.

No sanatório, Hannah teve uma boa educação: leu todos os monstros da Literatura russa, além de Hemingway e Fitzgerald, e até alguns escritores iídichistas. Ouvia Charlie Parker diariamente, na esperança de alterar o efeito dos remédios. Também teve aulas de piano e violoncelo. Agora sabia que tinha seu valor diante de seus fantasmas.

Seu primeiro dia em Nova Iorque foi efervescente: assustou-se com a quantidade de luzes, estímulos e prostíbulos. Nas ruas, as pessoas pareciam não ter rostos.

O mais importante era localizar seus pais: poderiam estar de férias nos Hamptons, ou no apartamento de Manhattan. Tinha dezoito anos, e nunca foi próxima de sua família, talvez pelo longo período de isolamento no hospital, ou por sua própria escolha de afastamento. Na lista telefônica de uma cabine amarela encontrou, antecedido do nobre brasão de sua família, o número de uma tia, chamada Stefa Auerbacher. Esta elegante senhora, porém já debilitada pela idade e pela Guerra, mandou um motorista buscar Hannah e convidou-a para um chá. Boas notícias: com a maioridade, Hannah tinha direito a 20% de sua herança. Alugou um apartamento em Coney Island, perto da praia, o que acabou não fazendo sentido algum, já que se tornou reclusa e nunca abria as janelas. Recusou todos os tipos de tratamentos e se afastou de seus psiquiatras. Sentia-se sóbria, lúcida. Pensava muito na vida: uma faculdade da Ivy League e uma vida nas artes, como professora ou galerista.

Num apartamento velho, infestado de insetos e com um impertinente cheiro de inseticida, que só incomodava aos humanos, Isaac estava falhando. Aos 22 anos, sentia-se velho para tudo: tinha apenas uma opção, imposta por sua consciência de menino de cheder: o rabinato. Sonhava com uma vida liberal, bebendo vodka durante o inverno na cama ao lado da namorada e escrevendo. Sua família, ligada por sangue e dinheiro à de Hannah, o havia deserdado quando ele anunciou seu noivado com sua namorada Annie, a única que tinha tido em toda a sua juventude. Annie, além de pobre e “liberada” (nas palavras do pai de Icek-Hersz), não era judia.

Isaac não tinha dinheiro algum (tampouco um emprego fixo), ás vezes mendigava pães velhos na padaria do bairro. Sua alimentação consistia em arroz e chá, este último distribuído pelo governo. Sua família decidiu esquecê-lo por causa daquela traição; a vida era difícil e apertada.

Querendo resolver o último aspecto pendente de seu passado, Hannah decidiu procurar Isaac. O encontrou, também, por intermédio de sua tia Stefa.

Quarta-feira, 23h40min, bairro do Brooklin. Hannah, vestindo veludo azul requintado e sapatos de salto alto negros, de vinil, como se usava na época (ela queria que eles aludissem a erotismo para seduzir Isaac), chegou ao apartamento dele. Surpreso, ele abriu a porta.

- Hannah! – disse, numa mescla de vergonha e incômodo. Não a queria ali.

- Boa noite, Icek-Hersz Kornfeld.

- Entre, entre – Agora Isaac se lembrou de algo que aconteceu há algumas horas atrás: abria a porta para Hannah tal como abriu as pernas de Annie. Sua cama desfeita era um grave sinalizador de sexo recente. Também estava com a barba por fazer, e precisava trocar a camisa que vestia por uma limpa. Mesmo com aqueles sentimentos embaraçosos, Isaac tentou iniciar uma briga que a mandaria embora dali, e assim, ele teria um pouco de paz. Nunca tinha tido simpatia pela doença de Hannah, e também nunca gostou dela, a não ser na infância, quando eram vizinhos. – Eu não sabia que tinham te soltado.

- Eu não estava presa, Isaac. – respondeu Hannah, com o rosto levemente triste.

Um breve clima constrangedor infestou o pequeno quarto.

- Então – Isaac queria que aquilo terminasse logo – O que me diz?

- Posso dizer que estou muito bem! Tenho um montão de dinheiro e logo entrarei numa excelente faculdade. E moro em Coney Island. – Hannah se sentiu atingida e, com um tom de superioridade, quis machucá-lo e causar inveja. – Não me casei, não tinha como, e nem planejo me casar.

- É? Hum… Estou noivo de uma bela moça de Connecticut, Annie. Ela é professora de jardim de infância.

- Professora de jardim de infância? Que interessante… – Hannah limitou-se a este comentário irônico e depois silenciou. Ficou desolada e seu rosto amarelou como se tivesse acabado de ficar doente. - Itche…Tínhamos tanto o que tentar! Minha internação nos separou, e desde então eu nunca mais pensei em outro alguém.

- Quer dizer que você ainda é virgem?

Hannah tirou o casaco, acendeu um cigarro e suspirou.

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Foto 1, cena de Clémentine Poidatz, do filme “La Frontière de l’aube” (2008)

Foto 2, por Heidi Slimane

Foto 3, autor desconhecido

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Sarah Ribeiro Warjde, 22, começou a escrever por não ter alguém que pudesse lhe contar estórias. Quando criança, fazia desenhos para as bonecas Barbie. “She’s paying her rent everyday in the tower of song“, como Leonard Cohen. Esperando pelo futuro.

E-mail: ribeiro.sarah@gmail.com

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_ leia também:

_ “Migalhas de um garoto feliz cujo resto era apenas um suéter verde-oliva”; uma história para ser levada a sério como a mais fina das ironias, por Renata Penzani

_ A solidão que atrai: ‘O instante dura poucos segundos, ela fecha o livro e trocamos rápidos olhares. Estou a observá-la descaradamente’, por Daniel Faria

_
Uma noite na rodoviária: como algumas horas de sono a mais que o desejado podem levar a uma introspecção imposta pelo tédio e pela busca do bom humor, por Gustavo Padovani

9 comentários

  1. Grácia Gondim diz:

    Sarah,

    Que bom saber e ler suas produçoes literárias. Assim se começa o sucesso… continue firme e escrevendo..
    Um beijo grande.

    Grácia

  2. Charlotte diz:

    bela história (:

  3. Graça Pinto coelho diz:

    Sarinha, que texto belo, denso, completo, telegráfico, maravilhoso!
    Estou super orgulhosa de você.
    Da segunda mãe,
    Graça.

  4. Liv diz:

    “Hannah, vestindo veludo azul requintado e sapatos de salto alto negros, de vinil”

    She wore blue velvet… ;P

    Que belo texto, parabéns!

    =*

  5. JOÃO diz:

    Não gostei, achei infantil para uma mente feminina de 22 anos, o texto denso contagia, mas, falta sabor, não se acha sabor em um alimento qualquer, então ele só serve para nutrir e não para saborear e também não estimula o desejo de comê-lo, nada de ficar obeso sem se dar conta, mas, parabéns pela sua áspera personalidade, cheia de arestas, é nítida no mesmo. Se este comentário ficar em sua mente para desestimulá-la então ele não serve, e o que não serve vai para o meio ambiente poluir, queimar também não dá, então o que fazer? faça mais textos. Obrigado, seus textos existem, eu li.

  6. will diz:

    A qualidade do texto reside no próprio fato da juventude de seus personagens logo não se pode chamar de infantil…

  7. Josias diz:

    Linda!

  8. Cecília Ann diz:

    “após passarem uma tarde inteira bebendo sangria no parque” related:

    “The Nina, The Pinta, The Santa Maria, I’ll do ya in the bottom, while yer drinking San Grea”

    http://www.youtube.com/watch?v=o8T095mFdW8

  9. Pater diz:

    Belo texto!

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