Literatura
CrossDresserPutaSubSP
29 de Junho de 2009 | por Revista Wave

Na peça O homem da tarja preta, o psicanalista Contardo Calligaris apresenta as inquietações e complicações de macho moderno

por Felipe Teram

Urinar em pé, abrir potes de palmito e fazer parte da maçonaria são as únicas atividades que minha imaginação permite elencar como sendo exclusivamente pertencentes ao mundo masculino. Todo o resto já foi modificado pela revolução sexual que postulou que entre os sexos tudo é igual – menos dar à luz. Dito desse modo, parece até difícil ser homem. Talvez seja esse o principal espectro da peça O homem da tarja preta, escrita pelo psicanalista e colunista (e agora, jornalista) Contardo Calligaris, com direção de Bete Coelho e atuação de Ricardo Bittencourt.

O enredo central da peça é a atuação do homem em nossa sociedade a qual ameaça sair de cartaz com a perda do poder de funções, mas prorroga os símbolos que o circunda para que o espetáculo de sua existência continue. Contardo Calligaris faz o exercício da contradição ao apostar intrigantes as inquietações de ser homem ao invés da glorificação da ascensão feminina, num movimento de relações entre as descobertas do íntimo e os novos significados coletivos de ser homem.

As reflexões do psicanalista são conduzidas por um monólogo em que um pacato paulistano – casado e pai – comenta sua excêntrica tara sexual, lançando mão de comentários e explicações advindas de sessões com seu psicanalista. O que o excita, e o que a peça expõe com um exemplar do caso, é a sucessão de aventuras onde o personagem, vestido de mulher, entra em salas de bate papo com o nick “CrossDresserPutaSubSP”. Os “relacionamentos” que o personagem mantém com homens são estritamente virtuais e lá têm seu fim – nunca se completam na realidade, nunca há um encontro em instância física. Sua vida classe média, heterossexual e trabalhadora segue – com os devidos hiatos que as sessões de psicanálise escancaram e que o personagem compartilha com o público.

Cena sem neuroses
A direção de Bete Coelho conferiu à limpeza cênica o filtro para a observação do monólogo. O teatro Eva Herz, com seus poucos e imos 166 lugares, permitiram uma movimentação mais focada na expressão detalhista do ator Ricardo Bittencourt. Um bom exemplo dessa escolha aparece logo no começo do espetáculo. Entre a ação do personagem de trabalhar ao notebook e travestir-se, existe uma inação de acontecimentos que chegam a incomodar o público de tão longa e proposital. Esse vazio acaba destacando a feição do ator que emprega uma espécie de aflição-excitação ao momento que precede a transformação de homem de terno em cross dresser. O público contempla e incomoda-se. Essa escolha delineia o espaço íntimo e doméstico onde o enredo da peça se perpetua e o espaço-tempo com que aquele homem se traveste, no cotidiano, no dia-a-dia, no silêncio da noite.

A virtude da direção, endossada pela atuação do ator Ricardo Bittencourt, não está em delimitar ações esteticamente reveladoras, mas sim em deixar que o cotidiano que acompanha o rito do personagem seja deduzido pelo público através da proxêmica espontânea e flexível do ator. Ricardo Bittencourt, que já trabalhou em diversos espetáculos do Teatro Oficina, personificou as intenções da direção além de animar o texto de forma a tornar o personagem vivo fora das reflexões feitas no divã, fazendo do personagem um homem, de fato, comum – muito semelhante ao público que o assiste.

Divã: a quarta parede
Toda a peça se passa em um cômodo cerceado por estantes de livros em todas as paredes da locação. No centro do palco, uma mesa de escritório onde está apoiado o notebook por onde o personagem trabalha e eventualmente se transforma em outro personagem. As prateleiras parecem encenar um local do cotidiano, mas, de alguma forma, incitam a visão de uma sala de análise, muito parecida com aquelas estereotípicas, facilmente encontradas em filmes sobre o tema.

O cenário ambivalente conota-se muito com o teor do texto: às vezes as falas do personagem estão intercaladas com conceitos psicológicos muito específicos, quase acadêmicos (como “macho alfa”, “nome do pai” “complexo de Édipo”, entre outros). Nesses termos, é de se considerar essa escolha arriscada: por vezes é possível sugerir que o texto é uma aglutinação de anotações que às vezes saem fluidas e intensas, como requisita um texto para teatro, mas que fortuitamente se parecem mais com anotações escritas ao final de uma sessão de análise. Por um lado, essa proficiência lingüística e conceitual necessária para o entendimento do espectador pode afastar-lhe da flama de conhecer o íntimo desse homem, e tratando-se de um monólogo, isso pode deixar o resultado final um pouco estirado. Por outro lado, ao público abre-se a oportunidade de entrar em contato com o universo fundado por Freud e reformulado por Lacan.

Talvez o melhor proveito da peça se faça com o mesmo ânimo de uma sessão de análise: sem grandes expressões de entusiasmo, a uma certa distância e atento aos significados complexos que são ditos.

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Felipe Teram, 21, acha a palavra “compreensão” uma das abstrações mais presunçosas que a humanidade já inventou, mesmo assim continua usando da arrogância para publicar algumas coisas que escreve – já ciente de que se trata de um erro

E-mail: felipe.teram@gmail.com

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