Resenhas
Aquele Rock Axé
27 de Junho de 2009 | por Revista Wave

“Cada vez mais é em São Paulo que está o lance”; Caetano Veloso apresenta o transamba de Zii e Zie em noite fria paulistana
por Felipe Teram
Foi no fim de uma semana fria que Caetano Veloso apresentou o show de Zii e Zie no Credicard Hall, em São Paulo. Parecia especial, pelo menos para a gente que aguardava o seu início no átrio da casa de shows. Seus concertos em São Paulo têm o histórico de serem peculiares e de nunca dispensarem a lembrança de onde o show se passa. Não que se renda ali algum tipo de bajulação excessivo. Tem grande adesão entre público e crítica a ideia de que, a exemplo da canção Sampa em que o autor predica ambíguos atributos a São Paulo, Caetano nunca usa palavras pasteis para falar sobre a coisa cinza da cidade. Nem em canções e tampouco em shows ao vivo.
A começar pelo cenário. Caetano abria o show com um samba para a canção “A voz do morto”. Ao fundo do palco surgia também uma asa delta que encenava a Banda Cê no universo de Zii e Zie. Uma banda de rock continua turista no universo das canções de samba e esse elemento parecia bastante alegórico de uma via perigosa e típica entre turistas para se experimentar o Rio – e o samba.
A abertura do show adiantava o que viria mais tarde: uma canção do repertório dos anos 60, repaginada no estilo – cunhado pelo próprio artista de – transamba. A versão ficou criativa, inclusive com a ajuda de uma referência ao kuduro – um ritmo angolano tribal que se parece com Ragga americano ou qualquer desconstrução de tribal trance com vocais de hip-hop anárquicos. Logo veio a música “Sem Cais”, que além de ter vocação pop, ganhou improvável força ao vivo – e o melhor baixo que Ricardo Dias Gomes tocou na noite. Houve também “Base de Guantánamo”, que soava deslocada e sem vitalidade no disco, mas que no show conseguiu transparecer a intensidade e soturnidade a que se propunha.
Outro bom momento do show foi a música “Maria Bethânia”. Essa canção foi gravada em 1971, no mesmo álbum de “London, London”, e nada de radical se modificou nela para ser apresentada no show, senão adaptá-la à sonoridade capacitada pela tríade baixo-bateria-guitarra. E a simplicidade fez a canção oportuna para a ocasião. Pois tocou-se “Irene”, “Não Identificado” e “Força Estranha”, todas singelas, ponderadas e discretas. Para renovar tais canções - e outras como “Eu sou Neguinha” e “Odeio” - , a banda não teve medo de utilizar uma guitarra mais emotiva ou uma bateria em contratempo: o importante era traduzir a linguagem desse repertório para melhor dialogar com os elementos contemporâneos.
Não alheio ao costume, a escolha do repertório antigo que deveria acompanhar a apresentação do Zii e Zie serviu a reiterar as virtudes e os vícios do álbum. Primou-se, assim, pelo impacto que uma banda de rock – tocando ao vivo – pode provocar e não em aglutinar as referências a si próprio que melhor se encaixam para a compreensão do álbum. Em outras palavras, mais exageradas, pode-se dizer que Caetano parece ter montado o show para a banda - e a banda não deixou passar a oportunidade.
Essa dedicação não evitou deslizes como “Lobão tem Razão”, que não conseguiu imprimir a força de sua versão gravada. De modo geral as peculiaridades da banda, que ironicamente leva o mesmo nome do álbum anterior, rendem o maior bocado de elegância e originalidade do show, por mais que se possa ver nos olhos dos espectadores a qual estrela os olhares brilham.
Quando Caetano sentou ao banquinho para tocar violão (pois é, não podia faltar essa…) fez questão de lembrar o blog www.obraemprogresso.com.br, e tocou uma música que lembrava o fim do processo criativo do álbum, citando na letra o nome de comentaristas do blog e o peso de suas colaborações. Isso mostra de alguma forma como Caetano se afina à atualidade na via de converter uma de suas principais idiossincrasias cancioneiras, uma herança honesta à bossa nova, em um espaço onde se comenta a faceta virtual de seu trabalho. É o jeito dele de comentar a velha contemporaneidade de sempre. E combinou com São Paulo, afinal.
Defendi em outro texto, da mesma Revista Wave, uma posição inter-bairrista para supor algumas das intenções de Caetano nesse projeto: as letras de exaltação ao Rio, temperadas ao sentimento de desconforto e aos temas melancólicos, melhor figurados pela própria capa do CD, parecem na verdade deixar no ar uma intuição das coisas de São Paulo. Essa interpretação torna-se mais lógica se lançarmos mão das entrevistas e declarações recentes em que o artista declarou que o ideal era estrear Zii e Zie na capital cinza (o termo “capital cinza”, como se pode vê-lo sem as aspas, é meu e não dele). Segundo Caetano “Cada vez mais é em São Paulo que está o lance”.
O show ao vivo interdita a minha mudança de posição. De onde um paulistano pode melhor ver o Rio senão de uma asa delta, donde a altura deixa as nuvens mais carregadas e nem por isso a paisagem menos bela? Essa perspectiva do observador que só pode contemplar a distância circundou toda a apresentação. Os paulistanos parecem abertos e emocionados a Caetano, mas mantêm a típica distância que prefere a impressão antes do sentimento.
Ainda que o afago seja escabreado, talvez ajudado pelo clima frio da noite, não deixou de ser significativo: os paulistanos, atualmente, quando falam de si, citam com freqüência esse Zeitgeist latino americano terceiro mundista que tem se projetado nas mídias, nas artes, em fim, nas áreas que a cidade toma cena. Caetano Veloso e São Paulo interpretam-se há um bom tempo. Artista e público seguiram os devidos papéis, como era de se esperar. Pois é, os paulistanos são arrogantes o suficiente para entenderem Caetano, sabe?
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Felipe Teram, 21, acha a palavra “compreensão” uma das abstrações mais presunçosas que a humanidade já inventou, mesmo assim continua usando da arrogância para publicar algumas coisas que escreve – já ciente de que se trata de um erro
E-mail: felipe.teram@gmail.com
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