Colunas
Entrevistando
16 de Junho de 2009 | por Carol Bataier
Entre bloqueios criativos, trabalhos de conclusão de curso, exigências acadêmicas e outros empecilhos, além do desleixo natural da autora e da distração do editor, a coluna da Carol Bataier completou o excepcional período de seis meses sem atualização. Para compensar, decidimos por publicar uma conversa levemente informal que tive com a Carol sobre literatura feminina, empatia artística e motivações de escrever. E também sobre Harry Potter e Crespúsculo.
Particularmente, gosto da tarefa de entrevistar amigos, como a Carol, que expõe naturalmente suas percepções de mundo em seus contos e crônicas e também expôs aqui algumas de suas percepções em relação ao mundo da literatura feminina. A primeira parte desta prazerosa conversa o leitor lê abaixo.
Daniel Faria
Daniel - Minha intenção é tentar descobrir alguma diferença de percepção entre homens e mulheres diante da literatura, ou das artes em geral. Você acha que há essa diferença? Eu acredito que exista, mas não poderia definir, pelo importante fato de eu não ser uma mulher (risos).
Carol - Eu não sei. É uma coisa que eu nunca reparei. Mas se você pensar na literatura, por exemplo, eu acho que os homens, quando escrevem, se apegam a detalhes materiais. As mulheres falam mais dos sentimentos, dos gestos. Repare um conto da Lygia Fagundes Telles e um do Drummond, por exemplo. Mas isso pra quem escreve, não é? Não sei se é sempre assim. É o que eu reparo. Mas eu sou mulher, então, talvez seja coisa da minha cabeça. (risos)
Daniel - Você diz que se existe essa percepção, ela não é intencional? É isso? Quando você vai ler algo, você não procura algo propositalmente?
Carol - Eu não. Até agora não. Agora que você falou, parei pra pensar…
Daniel - Eu sempre falo sobre a questão da empatia nas artes, de procurar livros, filmes, músicas, que simulem alguma representatividade da vida real. Em que você se baseia quando lê algum livro? Qual é a sua motivação?
Carol - Sim, sim. Tem coisas, assuntos, que me atraem. Eu gosto de livros que falam de relações. Não só da relação homem-mulher, relação amorosa, embora eu ache bem interessante também. Mas relações entre pessoas. Manuelzão e Miguilim, do Guimarães Rosa, é um livro que eu amo e leio sempre. Fala da relação de uma criança com a família, com o mundo. Gosto de coisas que tratam de pessoas. E não apenas livros. Entre fotos de paisagens e fotos de pessoas, eu passo muito mais tempo observando as pessoas. As expressões, os traços, os detalhes. Sabe? Eu acho tão bonito quem sabe fotografar pessoas.
Daniel - Você acredita que essa sua atração por obras que tratam das relações humanas seja uma característica feminina? Você poderia dizer quando e por que começou essa atração por esses assuntos?
Carol - Eu acho que pode até ser. As mulheres tendem a ser mais atenciosas. Tem toda aquela coisa de “no tempo das cavernas, os homens iam caçar e as mulheres cuidavam da casa, das crianças”. Eu li “Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor” (risos). As mulheres acabam prestando mais atenção. Não que homens não tenham essa capacidade, mas eles não desenvolvem. É social. Eu não sei quando eu desenvolvi esse gosto, mas me lembro que desde sempre eu sou assim. Acho que me dei conta disso quando li “As cerejas”, da Lygia. Só citei a Lygia até agora!
Daniel - Você nota isso entre as outras mulheres? Quanto essa percepção é sua e quanto você atribui ao fato de ser mulher?
Carol - Eu acho que toda mulher, ou quase toda, é atenciosa com coisinhas. As que não são, guardam. Cada uma direciona de uma forma, não? Pode ser também porque as mulheres que me cercam sejam assim, sensíveis, atenciosas. Talvez reforce essa minha percepção.
Daniel - Em você, especificamente, como essa percepção funciona? Quando você escreve, por exemplo, o que procura transmitir? Quem seria o público para quem você destinaria seus textos?
Carol - Sempre que eu escrevo é pra falar das coisas que eu vejo. Eu acho que quem se identifica com meus textos são principalmente mulheres, mas eu escrevo mais por mim do que para os outros. Sabe quando você precisa falar? Os textos mais sentimentais, mais subjetivos, são uma forma de tirar aquilo de dentro de mim. Existem os textos mais alegres, mas divertidos, são coisas que eu quero contar, que acho que vai fazer bem pra quem ler.
Daniel - Era exatamente isso que eu iria perguntar. O escritor britânico Paul Johnson diz que a cultura pode ser uma espécie de barreira contra aquilo que nos magoa ou nos deprime. Você acredita nesse papel apaziguador da literatura na vida das pessoas?
Carol – Sim, sim. Quando escrevo, fico bem. E imagino que isso aconteça com muita gente. Quando leio uma coisa boa, também fico bem, fico feliz. É terapêutico! (risos)
Daniel - Você lembra alguma obra que tenha tido esse efeito terapêutico em você?
Carol - Tem um livro de contos do Ivan Ângelo, tem contos lidos que leio sempre, porque me deixam bem depois de ler. Tem um chamado “Vai”. Me faz bem. Tem muitas outras coisas. Eu tenho muito disso, de ler as mesmas coisas sempre, porque são coisas que me deixam bem. Tenho umas coisas guardadas que procuro ler sempre.
Daniel - Eu também faço muito isso. Como estudamos jornalismo, isso não parece prejudicial? Não há o perigo de usar a arte apenas pelo ‘efeito terapêutico’ e esquecer de todas as outras possibilidades de literatura?
Carol - Não acho, não. Eu sei separar as coisas. Tem coisas que nunca me atrairiam, não são do meu gosto, mas eu leio pra conhecer. Foi assim com Harry Potter e até acabei gostando. (risos)
Daniel - Eu li os quatro primeiros livros do Harry Potter. (risos)
Carol – Sério? Mas é certo que do Dan Brown eu ainda não li nada!
Daniel – Cortaremos isso na edição da entrevista? (risos)
Carol - Harry Potter é legal! Pode contar! Eu li apenas dois, mas vi todos os filmes. E até se tornou algo terapêutico também. Quando estou de saco cheio, ver Harry Potter é bom!
Daniel – Eu não gostei dos filmes.
Carol – Eu prefiro os livros, mas gostei dos filmes também.
Daniel - Não sei como seria reler Harry Potter hoje.
Carol – Eu li ano passado. Crepúsculo você leu?
Daniel – Não, não consigo mais. Tenho uma lista enorme de livros na frente.
Carol – Não leia, é bem ruinzinho. Eu comecei e parei. Harry Potter é criativo, a J. K. Rowling escreve bem.
Daniel - Quando te perguntei se o efeito terapêutico não atrapalhava sua vontade de conhecer outras coisas, tava falando de mim mesmo, eu acho. Tenho certas obsessões artísticas, e ultimamente pouco tenho saído do mesmo círculo. O “círculo judeu”, como gosto de chamar. Saul Bellow, Philip Roth, os filmes de Woody Allen…
Carol - Mas todo mundo faz isso. Tem gente que deixa de ler pra ir jogar vídeo game, futebol, beber. Estou feliz por ter conhecido bastante coisas ultimamente, algumas séries legais. Mas deveria ler mais.
Daniel – Sim, mas por exemplo, eu adoro cinema, tento ver um filme todo dia, mas não assisti a quase nenhum dos filmes que concorreram ao Oscar. Eu fico aficionado com certos autores e passo a desprezar o resto por certo tempo.
Carol - Eu não sou assim, mas queria conhecer muita coisa de alguém. Sou daquele jeito, conheço um pouquinho de tudo. Nada profundamente.
Daniel – Tem uma música do Kid Abelha sobre isso. (risos)
Carol – “Eu tenho pressa, tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim”. (risos)
Daniel – Para terminar: o Daniel Piza diz que temos que ler a exaustão certos autores antes de tentarmos escrever. Você tem algum autor, já que falamos de obsessão, cuja influência no seu modo de escrever é bem perceptível?
Carol - Já me falaram que a Lygia Fagundes Telles me influencia. Ela de novo! Eu acho que eu ainda não tenho um estilo próprio. Eu escrevo. Mas outro dia o Raphael veio falar comigo e eu achei super legal. Ele tava bêbado e a gente não se conhecia. Ele disse: “você é a Carol. Você não me conhece, mas eu leio sua coluna. E você é uma das pessoas que eu sempre reconheço o texto. Você tem seu estilo”. Eu fiquei orgulhosa. (risos)
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Carol Bataier tem 22 anos, finge que estuda jornalismo, finge que trabalha e finge que escreve só pra fingir que gosta de fazer alguma coisa
E-mail: carolbataier@yahoo.com.br
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18 de Junho de 2009 às 22:04
essa carol é uma Graça!
10 de Agosto de 2009 às 18:52
A Carol além de talentosa e inteligente, é muito bela…