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A solidão me atrai
16 de Junho de 2009 | por Contos, Crônicas e Poesias

por Daniel Faria
Estou nas estantes de Literatura Estrangeira, no fundo da biblioteca da UNESP de Bauru, mais precisamente na estante de Literatura Americana, a procurar de maneira não-proposital livros de F. Scott Fitzgerald, e enquanto fico surpreso com o fato de que não há um único exemplar de O Grande Gatsby, avisto uma menina a folhear páginas de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, na mesa ao lado.
O instante dura poucos segundos, ela fecha o livro e trocamos rápidos olhares. Estou a observá-la descaradamente. Nas belas pernas, usa jeans apertado e um moletom azul, seus cabelos são castanhos e longos, é pálida, tem uma expressão fria e aparenta ter a minha idade, vinte e dois anos. Vejo-a caminhar até a saída da biblioteca, silenciosa, sem olhar para os lados.
Na mesma biblioteca, dias depois, estou a ler o caderno de Esportes da Folha de S. Paulo, após a vitória do Corinthians sobre o Fluminense na Copa do Brasil. No sofá em que estou sentado, a mesma menina senta-se ao meu lado, cruza novamente olhares comigo e eu noto que ela é mais linda do que pude perceber da primeira vez. Ainda parece mais séria e circunspecta que antes, mas agora, talvez pelo ar levemente familiar que ela me causa, há certa simpatia em seus olhos, apesar de sua expressão continuar imóvel.
Novamente, ela se mantém silenciosa e não a vejo trocar qualquer palavra ou olhares com quer que seja. Decido inverter os papéis da última vez, e levanto-me primeiro. Cruzamos nossos olhares mais uma vez e caminho até a porta da biblioteca absurdamente curioso a respeito daquela menina. Quero conhecer suas aspirações, quero entender suas inquietações, quero, principalmente, descobrir a razão de tanta solidão. Ao mesmo tempo, no entanto, não quero quebrar seu silêncio tão atraente e decido que não interverei em sua instrospecção.
Em outro dia, estou subindo do Departamento de Comunicações Sociais da FAAC, atravesso o bosque e subo as escadas para entrar na biblioteca, quando vejo a mesma menina sentada em um banco, com um gato sentado em seu colo, amparada por reflexos dos holofotes verdes que iluminam as árvores à frente da escadaria. A imagem é bela; por mais segundos que o bom senso permitiria, fico a contemplar a doce solidão da menina; trocamos olhares por segundos que se prolongam e sinto uma sensação paradoxalmente opressiva e acolhedora, familiar e distante.
As situações se repetem ao longo dos dias. A solidão dela preenche a minha, e criamos uma espécie de intimidade invisível. Na última semana, nos vemos todos os dias. E o ritual é o mesmo; variam apenas os lugares da biblioteca – as prateleiras de Literatura Estrangeira, a Sala de Estudos, o sofá dos jornais, a escadaria.
Porém, na chuvosa noite de sexta-feira, em uma UNESP quase vazia, tive a derradeira sensação de que nossa não-relação teria fim. Ela está sozinha, como usualmente, vestida com as mesmas roupas da primeira vez que a vi, sentada no mesmo banco à frente da biblioteca, quando algumas meninas histriônicas caminham barulhentamente, apontando em sua direção. Ao que me parece, são suas amigas de curso, talvez, ou moram juntas, ou são vizinhas, o que seja.
Sinto uma péssima impressão. Por semanas, contemplei a solidão da menina dos cabelos castanhos, vi beleza em seu silêncio profundo, em seus movimentos gelados e minimalistas, e agora outras meninas excessivas, seus opostos, caminham até ela. Não me parece justo que elas e suas vozes altas e irritantes, seus exageros deselegantes, distorçam a admiração da serenidade e da aristocracia natural que ela possui.
Quando as garotas barulhentas passam por ela – sempre imóvel - e se dirigem a uma outra menina que estava no mesmo caminho, sinto uma calma inexplicável. Minha ansiedade desaparece. Não era ela o alvo das meninas. Tudo permanece em silêncio e continuamos os dois em notória reclusão, como se tivéssemos assinado um pacto invisível que nos impede de estabelecer qualquer vínculo com outras pessoas, ao menos enquanto estamos no mesmo ambiente.
Meu relaxamento diante de tal situação, diante do medo da quebra do silêncio, parece comovê-la. Pela primeira vez, ao olhar-me notadamente aliviado, ela sorri. Um sorriso discreto, ao qual respondo com outro, ainda mais tímido. Meu alívio é tanto que, feliz, volto à biblioteca, sento-me no sofá e permaneço estático, imutável, com a mente vazia e frívola e o coração leve e suavizado.
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Daniel Faria, 22 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz.
E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com
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7 de Agosto de 2009 às 1:45
Ler esse texto me deu um certo conforto: há sentimentos, há vida pulsante em momentos que poderiam ter sido ‘desconsiderados’ pelo turbilhão de urgências e necessidades outras que temos no ambiente universitário. By th way, você deve ser meu vóterano, estou no 2º ano de jornalismo na unesp.