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ESPECIAL 1969 - Descompasso e Desencanto
11 de Junho de 2009 | por Revista Wave

ESPECIAL 1969

- DESCOMPASSO E DESENCANTO -

O ano de 1969 instaurou incertezas, medos e questionamentos de uma geração a deriva

por Gustavo Padovani

Festival de Cannes, França, 8 de maio de 1969. Uma plateia atônita aguarda alguns instantes e rompe o silêncio com intensa salva de palmas: acabava de ocorrer a primeira exibição de Sem Destino (Easy Rider), dirigido por Dennis Hopper. Exatamente um ano após o mágico “maio de 68”, a sessão acabara de entregar a cada um dos espectadores uma parcela amarga do último ano de uma década decisiva para o século XX. Montados em suas motos em busca de liberdade, Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson acabaram representando um desolador retrato de uma geração decadente, colocando em cheque as esperanças gestadas na segunda metade dos anos 60 e (aparentemente) paridas no atribulado ano de 1968.

Passado 20 anos após sua obra fundamental lançada em 1967, Sociedade do Espetáculo, o filósofo e crítico francês Guy Debord realizou uma auto-análise sobre suas teses que remontavam o panorama político/cultural daquele momento. Entre suas revisões (publicadas em Comentários à Sociedade do Espetáculo), ele constata que “há vinte anos nada é tão dissimulado com mentiras dirigidas quanto a história de maio de 1968”. Defensor de uma teoria própria sobre o domínio da imagem como uma abstração do real, gerando assim, a “espetacularização”, Debord observa as inquietações da geração 68 mais como valorização de projeções do que como fatos consistentes.

O cientista político e crítico musical Greil Marcus também compartilhava visão semelhante, quando publicou na revista Rolling Stone o artigo “O Fim dos Anos 60”, no dia 27 de dezembro de 1969. Embora seu enfoque do final da década encontre sentido e forma na trajetória dos Rolling Stones, ao investigar o olhar do fotógrafo artístico David Bailey, o crítico acaba definindo a geração dos anos 60 pelos seus próprios retratos : “(…) você vê que ele nunca consegue realmente colocar aquela época em foco. É como se aquelas pessoas e os anos que elas tivessem vivenciado nunca tivessem estado lá”.

Essa “dificuldade em achar um foco”, por sua vez, revela muito sobre os acontecimentos exasperados no final da década de 60. Se em 1968, a expressão Zeitgeist (espírito do tempo) fazia sentindo em qualquer lugar do mundo ocidental, a série de acontecimentos fragmentados do ano seguinte impedia que esse espírito continuasse a vagar.

Dois estudantes e uma noite
“O ano de 69, no Brasil, começa em 13 de dezembro de 1968, quando se instaurou o Ato Inconstitucional Número 5.”, recorda Ricardo Azevedo, chefe de gabinete da secretaria geral do Partido dos Trabalhadores e ex-integrante do grupo de esquerda Ação Popular. Ele sentiu na pele os efeitos do AI-5: passados quatro dias da implementação da nova medida, foi preso em uma invasão militar ao Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP).

Para Ricardo, especificamente, o ano havia começado e terminado ali: ele passou 1969 inteiro (e três meses de 1970), detido nas mãos do governo a que se opunha. Durante o ano de confinamento, um de seus poucos momentos de esperança durou pouco: “Quando tomei conhecimento do seqüestro de Elbrick eu estava preso e isolado em solitária. Tive contentamento ao saber da ação e acompanhava tudo por um rádio. Mas logo, ele foi tomado de mim.”

No mesmo dia e local que os militares prenderam Ricardo, o então estudante de letras da USP e morador do CRUSP, João Batista Neto Chamadoira, também foi detido por 5 dias. Naquele momento ele não estava vinculado a nenhum grupo de oposição ao governo, mas já havido participado de passeatas em 66 e 67 e frequentava a diretoria do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Maria Antônia.

As histórias desses dois estudantes tomaram rumos diferentes após o fatídico 17 de dezembro: Chamadoira começou a lecionar e Azevedo depois de libertado, exilou-se no Chile e depois na França. Mas ambos reavaliam o período específico chegando a um desanimado denominador comum. “A esquerda não soube entender o momento e partiu para um enfrentamento sem as bases sociais”, pondera Azevedo sobre as atuações dos grupos opositores. Em janeiro de 69, Chamadoira tentou – em vão - entrar no prédio em que morava para pegar seus pertences apreendidos pelos militares: “O prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Rua Maria Antônia já estava abandonado, perdera o encanto. O CRUSP estava sem aquela vida de antes do AI-5”.

O riso silencioso dos trópicos
“Que tal Pasquim? Vão nos chamar de pasquim (jornal difamador, folheto injurioso) terão de inventar outros nomes para nos xingar.” A forma de sugestão ao nome do jornal, feita por Jaguar, cartunista e um dos criadores do Pasquim, já revela muito sobre o folhetim que estava sendo criado. Quando chegou às bancas, no dia 26 de junho de 1969, o cronista e desenhista Millôr Fernandes, logo na primeira edição, declarou que o jornal não duraria mais que três meses. Estava enganado: as tiragens chegaram a 200 mil exemplares e o tablóide durou mais 22 anos.

O Pasquim foi responsável por uma nova linguagem no jornalismo brasileiro, sem uma linha editorial padronizada, dando voz aos seus múltiplos colaboradores para escreverem da maneira que bem entendiam – incluindo depoimentos e crônicas de personalidades exiladas como Caetano Veloso e Chico Buarque. Algumas entrevistas se tornaram marcos, como a da polêmica atriz Leila Diniz e o furo jornalístico no bate papo com Ibrahim Sued – quando este adiantou que um “tal de Garrastazu Médici”, seria o sucessor de Costa e Silva.

Embora tivesse uma equipe majoritariamente carioca, o Pasquim deixou alguns dos registros mais ricos sobre a vida no Brasil não somente em 69, mas durante a ditadura militar. Esse êxito é conseqüência de um humor anárquico, recheado de críticas sutis a censura, tanto nos textos, como nas tirinhas inovadoras de Henfil, Jaguar e Ziraldo. Em uma entrevista com o escritor Marques Rebêlo, em agosto de 1969, esse período cauteloso aparece naturalmente em uma das respostas do literato: ”(…) depois que a vida começou a ficar difícil, começou a aparecer o humorista, pois o humorismo é o lado amargo da vida. (…) Antigamente, o humorista era o próprio povo, de repente começou a vir o profissional”.

Como toda profissão séria, os humoristas do Pasquim tiveram que pagar encargos: alguns foram presos e outros exilados. Mesmo assim, não perdiam o bom humor: cada ausência na redação era noticiada ao leitor como uma contração de “gripe”.

O ano do dia seguinte
“Well it’s 1969 OK all across the USA
It’s another year for me and you
Another year with nothing to do”

Então é 1969 tudo bem pelos EUA
É outro ano para eu e você
Outro ano com nada para fazer

The Stooges – “1969”, do álbum “The Stooges” 

As letras do performático vocalista Iggy Pop somadas às guitarras sujas dos Stooges em “1969” causaram estranhamento e passaram longe das paradas de sucesso. O niilismo e a falta de objetivos seria algo compreendido somente alguns anos mais tarde, com a chegada do punk. Mas Iggy falava diretamente ao seu tempo: esboçava os sentimentos de uma futura geração desamparada, cansada, que não encontrava sentido nos lemas libertários da “Flower Power”.

O ano de 1969 caracterizou-se como um momento de crise justamente pela falta de uma unidade coletiva nos pensamentos, que se dissolviam com os mais variados eventos de esfera política, social e cultural.

Enquanto alguns brasileiros celebravam o milésimo gol de Pelé, outros grupos comemoravam o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrik. Enquanto Neil Armstrong torna-se o primeiro homem a pisar na Lua, Leila Kaled (em nome da Frente Popular da Palestina) torna-se a primeira mulher da história a seqüestrar um avião. Enquanto Woodstock nascia para celebrar a diversidade da contracultura, o Festival de Altamont, na Califórnia, fecha o ano com 4 mortes - uma delas filmada no documentário Gimme Shelter (1970), dirigido por Albert e Dave Mayles. Enquanto Vera Fischer era eleita Miss Brasil, Nixon era eleito presidente dos Estados Unidos.

O jornalista Luiz Zanin, ao recordar 1968 no site do Estado de São Paulo, definiu que naquele momento “tudo nos parecia muito possível de acontecer, tudo estava ao nosso alcance”. Não há motivos para discordar. Mas ao se embriagar de ideais, uma geração inteira despertou de um sonho em meio a uma ressaca, com alguém a bater na porta: a simples e impávida realidade.

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Gustavo Padovani, 22, pensava em fazer cinema e entrou por acaso em jornalismo na Unesp. Um brasileiro viciado em música, mas é desajeitado no samba e não torce para time algum. Como castigo, é acometido por incidentes improváveis.
E-mail: guspado@gmail.com

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1 comentário

  1. João Batista Chamadoira diz:

    Gustavo,
    Como vai?
    Belo texto.
    Abraço.
    Cahamadoira

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