Opinião
1969 - Médici e Nixon
11 de Junho de 2009 | por Revista Wave
ESPECIAL 1969 - POLÍTICA
As figuras controversas de Médici, no Brasil, e Nixon, nos Estados Unidos, ficariam marcados pelos excessos da ditadura militar e da Guerra do Vietnã
por Felipe Arra
CHUMBO GROSSO
Sob as máscaras do ufanismo e do desenvolvimentismo, o governo do General Médici atravessou 1969 pelas vias escabrosas da tortura
Se fosse possível definir os “anos de chumbo” da ditadura militar no Brasil através de uma figura, certamente seria a de Emílio Garrastazu Médici. O AI-5, decretado no final de 1968, foi cumprido a ferro e fogo pelo general, e sintetiza seu governo, marcado por repressão violenta e ilusão desenvolvimentista.
Quando o então presidente, o marechal Costa e Silva, foi afastado devido a uma trombose, uma junta militar, em 30 de outubro de 1969, colocou na presidência do Brasil o general Médici. O terceiro e mais arbitrário dos cinco que passaram pelo governo ditatorial.
Segundo Zuenir Ventura, o governo de Médici foi marcado pela “perversa combinação de cinismo e crueldade”. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes e músicas foram censurados. Professores, políticos, músicos e escritores foram investigados, presos, torturados ou exilados do país. Esse terror da repressão morava ao lado do ufanismo, da exaltação da pátria através da propaganda institucional. Além da tortura, Médici avalizou os slogans “Brasil, ame-o ou deixe-o”, “ninguém segura este país”, propagandas do regime vigente.
Já na economia, o Brasil crescia rapidamente. O período 1969-73 ficou conhecido - graças à panfletagem oficial - como a época do “Milagre Econômico”. Com investimentos internos e empréstimos do exterior, o país avançou, criou uma base de infra-estrutura, empregos e algumas obras faraônicas (como a Rodovia Transamazônica).
Entretanto, o crescimento teve um custo astronômico, que chegou às alturas depois do aumento do preço do petróleo no mundo. A conta (dívida externa altíssima) ficou para depois. Além disso, o governo Médici adotou uma rígida política de arrocho salarial, diante da qual trabalhadores e sindicatos não podiam reagir.
Escoltado pelo conservadorismo, Richard Nixon foi o epítome vivo do 1969 de Guerra e intolerância
Ele foi o único presidente americano que renunciou ao mandato, o único que chegou perto de julgamento criminal e que até hoje é associado a guerras e manipulação política. Por mais que a memória de George W. Bush ainda esteja fresca, Richard Nixon é, sem dúvida, o presidente mais controverso da história dos Estados Unidos.
Nascido na Califórnia, em 1913, o republicano Richard Milhous Nixon começou sua carreira política em 1947. Foi deputado, senador e vice-presidente de Dwight Eisenhower. Depois de perder a eleição presidencial para John F. Kennedy em 1960, Nixon voltou a concorrer em 1968, dessa vez com sucesso. Em janeiro de 1969, tornou-se presidente dos Estados Unidos.
O conservadorismo foi marca registrada de seu governo, acentuado pelos protestos contraculturais, contrários à Guerra no Vietnã e pró-direitos civis.
Tais movimentos de contestação se mostraram significativos a ponto de acuar o presidente. Nixon então buscou apoio no que chamou de “silent majority” (maioria silenciosa), ou seja, a parte majoritária da população estadunidense que, segundo ele, não participava das lutas sociais.
A estratégia se fez eficaz, e Nixon foi reeleito presidente em 1972 com ampla vantagem. A Guerra no Vietnã e as lutas civis permaneciam quando, em 1974, o escândalo de Watergate (episódio de escuta ilegal na sede do partido democrata por elementos ligados ao governo) forçou sua renúncia ao mandato.
Após deixar a Presidência, Nixon seria investigado e julgado por crimes federais, mas foi perdoado por seu sucessor, Gerald Ford. Em seus últimos anos, dedicou-se à reconstrução de sua desgastada imagem, e escreveu vários livros e artigos antes de morrer em 22 de abril de 1994, aos 81 anos.
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Felipe Arra, 23, deveria ser lateral-esquerdo da seleção brasileira, mas não chegou nem perto. O fracasso no futebol deixou sequelas mentais: virou torcedor fanático do Newcastle, da Inglaterra. Faz faculdade de jornalismo, mas já aprendeu muito mais com Richard Ashcroft, Woody Allen e José Saramago do que com todos os seus professores juntos. E-mail: felipaines@gmail.com
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