Cinema
Os Outros, por Bergman
20 de Maio de 2009 | por Revista Wave
Talvez o maior cineasta de todos os tempos, Ingmar Bergman analisou seus principais colegas de profissão em entrevista de 2002
por Daniel Faria
Em entrevista ao jornal sueco Sydsvenska Dagbladet, em maio de 2002, o cineasta Ingmar Bergman fez comentários- por vezes extremamente ácidos – sobre alguns de seus mais conhecidos colegas de profissão, As pessoas que frequentam meu blog sabem da minha enorme preferência por Bergman e, apesar de discordar de alguns de seus posicionamentos (principalmente sua avaliação sobre Orson Welles), tenho-o por voz lúcida e sincera sobre tudo que diz respeito ao cinema, a arte que ele entendeu melhor que ninguém.
François Truffaut
“Gosto muito de Truffaut. Sinto uma enorme admiração pelo seu jeito de atrair a audiência, seu jeito de contar a história… A Noite Americana [1973] é adorável, e outro filme que eu gosto de ver é O Garoto Selvagem [1970], com seu belo humanismo.”
Jean-Luc Godard
“Nunca tomei nada de proveitoso de seus filmes. São construídos de um modo falsamente intelectual, completamente mortos. Desinteressantes do ponto de vista cinematográfico e infinitamente aborrecidos. Godard aborrece demais. Ele fez filmes para os críticos. Um de seus filmes, Masculino, Feminino [1965], foi filmado aqui na Suécia. Era insuportavelmente maçante.”
Orson Welles
“Eu nunca gostei de Welles como um ator, porque ele não é realmente um ator. Em Hollywood você tem duas categorias: os atores e as personalidades. O Welles foi uma personalidade enorme, mas quando ele interpreta Otelo, por exemplo, tudo vai por água abaixo. A meu ver, ele é um diretor de cinema infinitamente superestimado.”
Michelangelo Antonioni
“Ele fez duas obras-primas, não é necessário incomodar-se com o resto. Um é Blow Up [1966], que vi muitas vezes, e o outro é A Noite [1961], também um maravilhoso filme, muito por causa da presença da Jeanne Moreau jovem. Na minha coleção tenho uma cópia de O Grito [1957], e que filme chato! Acho triste. Antonioni nunca aprendeu realmente o ofício… Ele se concentra em imagens únicas, não percebe que o filme é um fluxo rítmado de imagens, uma sequencia viva de movimentos. Sem dúvida, há momentos brilhantes em seus filmes. Mas não sinto nada por A Aventura [1960], por exemplo. Apenas indiferença. Nunca entendi porque Antonioni foi tão aclamado assim. E sempre achei a sua musa Monica Vitti uma péssima atriz.”
Federico Fellini
Nós iríamos trabalhar juntos com Kurosawa, certa vez. Faríamos uma história de amor cada um para um filme produzido por Dino de Laurentis. Fui até Roma com meu roteiro e passei muito tempo com Fellini enquanto esperávamos por Kurosawa, que não pôde sair do Japão por causa da sua saúde debilitada, e o projeto foi por água abaixo. O Fellini estava terminando Satyricon [1969. Fiquei um bom tempo no estúdio e vi o modo como ele trabalhava. Adorei-o , tanto como diretor e como pessoa, e ainda assisto à seus filmes, como A Estrada [1954] e sinto aquele saudosismo da infância…
Diretores Americanos
Entre os diretores de hoje, claro que fico impressionado por Steven Spielberg e Scorsese, e Coppola, ainda que ele pareça ter mesmo deixado de fazer filmes, e Steven Soderbergh — todos eles tem algo para dizer, eles são apaixonados pelo que fazem e parecem ter uma atitude idealista sobre o processo de produção de filmes. Traffic [2000], de Soderbergh, é fantástico. Outros dois grandes exemplos da força do cinema americano é Beleza Americana [1999, de Sam Mendes] e Magnólia [1999, de Paul Thomas Anderson].
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Daniel Faria, 22 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz. E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com
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