Música
15 anos sem Kurt Cobain
30 de Abril de 2009 | por Revista Wave
A descrição precisa dos últimos dias do líder suicida do Nirvana: a única saída para uma vida problemática e perdida
por Vinicius Bracin
Essa foto tirada dois meses antes do suicídio por Youri Lenquette ainda impressiona. Ela é o emblema mórbido dos últimos dias de Kurt.
Segundo Charles R. Cross em um artigo para a revista Guitar World publicado em 2008, o fotógrafo pediu a Kurt para não tirar as fotos com a arma - que era falsa. Cobain insistiu e entre várias poses colocou a arma na boca. Youri achou aquilo de mau gosto, mas continuou fotografando. Para Cross talvez esse seja o maior reflexo de como as coisas iam mal naquele começo de 94. O grande exemplo de como o antes preocupado Kurt já não ligava mais para sua imagem. Aquela foto não fazia parte do cinismo com que ele tratou a morte à vida toda. Aquilo era real.
Dessa sessão de fotos em diante a vida de Cobain é uma sucessão de fatos que marcam o desmoronamento de sua vida. Problemas que vinham se prolongando por anos. Esse período final é só a caminhada para uma decisão antiga. São nesses dias que Kurt começa o percurso de abandonar tudo - a banda, os amigos, a família. Mesmo transformado pelo poder da heroína - não era um mero fantoche da droga, embora já tivesse sido um - estava decidido que a morte seria a saída para os problemas. Já tinha desistido de tudo.
O Nirvana seguia na turnê européia promovendo In Utero e entre um show e outro, discussões com Courtney no telefone, ligações para parentes distantes e visitas a muitos médicos marcavam o clima tenso. Cobain tentava cancelar a turnê após cada show.
Em março, na Alemanha, ele conseguiu. Após uma apresentação em Munique, toda a turnê foi cancelada sob a alegação de estafa. Aquele dia em especial foi marcado pela nostalgia que Kurt sentiu ao ver os Melvins - a banda que havia lhe mostrado o punk rock - a salvação de Cobain -, abrindo o show do Nirvana. Sua vida no rock tinha começado muito por causa deles.
Da Alemanha direto para Roma. Estava ansioso para rever a esposa, mas acabou desiludido com a falta de atenção de Courtney. Tentou o suicídio com calmantes e champagne. Foi salvo porque ela acordou cedo, mas ainda assim, acabou em coma. Novoselic chegou a afirmar que acreditava que o coma deixou seqüelas. Depois dali Kurt definitivamente não era o mesmo.
De volta a Seattle os dias foram marcados por brigas e confusões.
Amigos, empresários e familiares se reuniram numa intervenção para que ele seguisse com Courtney para um tratamento em Los Angeles. Recusou. Em sua cabeça, tinha a certeza que aquelas pessoas tinham como único interesse mantê-lo vivo, pois ele era a fonte do lucro delas. Achava que ninguém queria ajudá-lo realmente. Foi a última vez que Kurt viu sua mulher.
Perdido e sem apoio, se drogava muito. Chegou perto da morte nesses dias, um hábito comum. Quando Krist foi levar Kurt ao aeroporto para finalmente se tratar em Los Angeles, Cobain, além de tentar pular do carro, brigou com o velho amigo no saguão do lugar e fugiu. Foi a última vez que se viram.
Depois acabaria indo fazer o tratamento, mas antes comprou uma arma. Na clínica viu a filha pela última vez. Kurt ficou poucos dias e mesmo com alguns sinais de melhora, fugiu. Prova de sua decisão. Ligou para Courtney e lhe garantiu que a amava. Era um sábado e estava de volta a Seattle. Chegou a dormir em casa naquele dia, mas o assistente do casal não o viu, já que não tinha autorização de passear pela casa quando estava sozinho, sem contar que andava chapado demais para isso.
Kurt desapareceu no domingo e chegou tarde em casa na segunda, mais um desencontro porque o assistente não estava lá àquela hora.Antes que a manhã de terça (dia 5) viesse, Cobain acordou, escreveu duas cartas - uma divulgada e a segunda pessoal a esposa e filha - bebeu, fumou cigarro e injetou heroína suficiente para morrer. Pouco antes de perder os sentidos deu um tiro contra a própria boca.
Naquela terça chegaram a ir ao quarto de Cobain, que já estava sem armas e sem heroína escondida. Ninguém foi a estufa.
Dia 8 de abril um eletricista a trabalho na casa viu algo estranho pela janela da estufa, foi até lá e o encontrou.
Não há como julgar um suicídio, assim como não se pode julgar um homem somente pelos seus últimos dias. Essa breve descrição apenas tenta mostrar como consciente e inconscientemente Cobain se desligou do mundo e enfrentou seus últimos dias num longo adeus. Como ele encarou nesses dias seu passado, relembrou sua angústia com a vida, suas dores, suas dúvidas e a eterna paranóia com as pessoas.
Cobain pensava e vivia em conflito com sua consciência desde a adolescência. Virou um músico que mudou a trajetória do rock e um drogado compulsivo (também) por esse motivo.
Para Sócrates a alma de um homem é sua consciência. Sem ela, este não passa de um animal que segue o rebanho e que não questiona nenhum valor.É o conflito com a consciência e com as imposições sociais que fazem o homem. Um dom raro e precioso, difícil de se dominar. Matou Sócrates condenado por Atenas e Cobain condenado por ele mesmo.
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5 de Maio de 2009 às 14:57
Emocinante!
É sempre bom ler as palavas de alguém tão apaixonado pelo assunto.