Personagem
Trilhos da Fama
24 de Março de 2009 | por Revista Wave

Sem apoio financeiro ou gravadora, cantores populares usam trens da cidade de São Paulo para divulgar seu trabalho

por Jussi Silva

Eles não tem fama, dinheiro, gravadora ou empresário. Suas músicas não estão entre as dez mais ouvidas. Sequer tocam nas rádios. Não tem fã-clube, nunca ganharam grandes prêmios, alguns nem gravaram CD e o seu público nem ao menos sabe os seus nomes. Não lotam as grandes casas de shows, mas tem público certo num longo palco improvisado, sempre lotado. O ingresso para os shows também não é caro e pode ser adquirido sem enfrentar grandes filas, dependendo do horário. E, no fim, se a apresentação tiver agradado, eles não cobram palmas ou cachês milionários, apenas pedem “sua colaboração com qualquer moeda, que não vá lhe fazer falta amanhã”.

Eles são os cantores do trem. Não se trata de um grupo ou companhia. São artistas, são independentes. Cada um segue estilo musical, ritmo, influências e características particulares. Em comum: o local de trabalho, a música como forma de sustento para suas famílias e a vontade de alcançar a fama, ser reconhecido pelo trabalho que executam e quem sabe descolar contrato com alguma gravadora.

Por questão estratégica, embarcam na estação do Brás quando os vagões ainda não estão lotados. Eles se revezam entre os vagões e garantem surpresas a cada nova estação. Quando as portas dos trens se fecham, os passageiros já sabem que algo está por vir, que alguma coisa lhes será oferecida, só não sabem ainda o quê. Pode ser um marreteiro oferecendo chocolates, utensílios de cozinha ou até o mapa do Estado de São Paulo. Algum pedinte, expondo sua dor para conseguir alguma ajuda financeira ou, talvez, um pregador de religião, apresentando em alto tom de voz a sua crença ou ainda, um dos cantores oferecendo a sua arte em troca de moedas.

A concorrência é acirrada. Os artistas tem que disputar lugar e os ouvidos dos passageiros com toda sorte de outros trabalhadores que também encontraram nos trens um meio de ganhar a vida. A criatividade para tentar encantar os que resistem à balbúrdia sonora, física e visual é a chave-mestra dos cantores.

O trabalho deles não é fácil. Quando começam a cantar e observam a recepção e reação do público, se deparam com algumas pessoas que dormem encostadas nas janelas com outras que insistem em não tirar seus mp3’s e Ipod’s dos ouvidos, além dos que tentam falar ao celular. Ouvem críticas que chegam a incomodar, mas também podem ver pessoas que cantam junto, que acreditam e colaboram com seu trabalho. “É lógico que o público é diferente de quem vai a um barzinho para ver alguém tocar, mas quando a gente entra, o público já está esperando e se um não gosta, tem outros que gostam. Nós não ligamos para as críticas, não”, diz Fábio, 26 anos, da dupla Fábio e Lucian, que há três anos se apresenta nos trens da cidade.

A dupla de influência sertaneja não vê na rejeição de parte do público a maior dificuldade. “Ruim é quando os fiscais levam os instrumentos. Já levaram nosso violão várias vezes e dependendo da linha que a gente está, dá para recuperar ou não. Pior, eles trabalham à paisana, então não dá para saber quando não pode cantar”, completa Lucian, 20 anos.

De uma coisa os passageiros não podem reclamar: a falta de opção de estilos. Na linha em que se apresentam Fábio e Lucian (Luz-Rio Grande da Serra), outras duas duplas de diferentes gêneros musicais fazem seus shows. Um é Dinho Araguaia e a mulher Iara, que com os dois filhos pequenos, apresentam reggaes e divulgam o primeiro disco da carreira cantando a música de trabalho “Miséria”.

É isso mesmo, música de trabalho. Esse mercado também tem estratégias de marketing.

A outra dupla: os repentistas Erisvaldo e Erisvânio, que se auto-entitulam Os Mestres da Embolada, com dois álbuns lançados. Tem uma forma bem peculiar de chamar a atenção do público, colocando-os como personagens de suas improvisadas canções. Agradam, na maioria das vezes, provocando boas risadas em quem foi alvo de suas piadas.

Independente do cantor da vez, o entretenimento – ou o aborrecimento - da viagem nos trens da cidade de São Paulo está garantido. Música popular, inclusa no preço do bilhete de embarque, na estação ferroviária mais próxima de você.

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