Música
O Melhor é Suficiente
24 de Março de 2009 | por Revista Wave

No ápice artístico e comercial, Radiohead seleciona as melhores canções de seu repertório para o público do Just A Fest, em São Paulo

foto: Marcos Hermes/divulgação

por Daniel Faria

É difícil mesurar ou procurar definir a experiência artística mais puramente sensorial, que é a música. Ainda mais quando essa experiência vem aliada a uma estrutura audiovisual impecável, com cores quentes e frias, límpidas ou granuladas em tubos de iluminação no palco, como que a criar toda a ambiência necessária para que a plateia se entregue por completa ao que o Radiohead tem, no fim das contas, de melhor: a arte musical em si. E então não há concorrentes para eles na música pop dos últimos quinze anos.

São sete álbuns de estúdio. Do simplório disco de estreia, Pablo Honey (1993), apenas “Creep”, uma canção de inadequação adolescente e o grande sucesso popular do grupo, apareceu no repertório, já no último bis. De The Bends (1995), o favorito dos fãs de primeira hora, quando a banda sofistica a influência do rock alternativo americano (de bandas como Pixies, Nirvana e R.E.M.) evidente no primeiro álbum, em canções cuidadosamente trabalhadas, “Fake Plastic Trees”, a “música do comercial”, foi a escolhida.

 O mega estrelato do Radiohead se deu em 1997 com OK Computer, que quase de imediato já era saudado como um dos maiores álbuns da história da música. Exagero? Nenhum. Poucas vezes um grupo de rock alcançaria tamanha perfeição em captar, analisar e retratar em música o espírito de seu tempo. A angústia do fim do século, a relação entre os sentimentos humanos e os avanços tecnológicos, a melancolia das estradas, os zumbidos das rádios, uma vida sem grandes surpresas, o trânsito caótico, há tudo isso no disco. Tudo transformado em música emocional, com excertos eletrônicos, elementos orquestrais, teclados gregorianos e guitarras ora noisy, ora melódicas e cool. Cinco faixas do álbum foram executadas no Just A Fest, em São Paulo.

Após OK Computer, no posto de maior banda do universo, Thom Yorke entrou em depressão, os músicos não conseguiam se posicionar a respeito do futuro do Radiohead e os ingleses quase se separaram. Quando Kid A (2000) foi lançado, o disco mais experimental e não-comercial a entrar na primeira posição da parada da Billboard em todos os tempos, o mundo que percebia que aquele não era realmente mais um grupo de rock comum. Colagens aleatórias, faixas estáticas, elementos de free jazz, vocais inaudíveis encobertos na mixagem, não havia quase nenhuma guitarra no disco de uma banda que contava com três exímios guitarristas. No ano seguinte sairia Amnesiac, um disco pouco mais orgânico, uma espécie de sobras das sessões de estúdio de Kid A.

Hail To The Thief, de 2003, é o mais longo e mais irregular álbum do Radiohead. Sem maiores pressões, o disco foi gravado rapidamente, com “instrumentação real” (Thom dizia em entrevistas da época que a banda procurou usar o mínimo possível de computadores nas gravações). As letras são mais cruas e diretas e atacam a política externa de George Bush e do ex primeiro ministro inglês Tony Blair. “There, There” representou o álbum no show de São Paulo.

É discutível o fato de que In Rainbows, o disco mais recente, lançado de forma gratuita pela Internet no fim de 2007m seja o ápice da banda. Mas é, sem dúvida, o mais completo e o que melhor representa a arte do Radiohead ao longo dos anos. Nunca, nem no melódico The Bends, a banda trabalharia com tanto esmero no formato das canções. Obviamente, não são canções simétricas e redondas. Mas demonstram, com rigor quase geométrico, a brilhante técnica musical de seus membros, as interpretações quase jazzísticas de Thom Yorke e as melhores letras da banda desde OK Computer.

No Just A Fest, o Radiohead tocou In Rainbows na íntegra. Quantas bandas com quase vinte anos de estrada são capazes disso sem causar cansaço ou reclamações da plateia? Em São Paulo, o que se viu foram vários aplausos por trechos dentro de uma mesma música, algo inédito para mim.

Com discos tão particulares de uma banda que parece ainda acreditar no formato de álbum conceitual (não no sentido progressivo de representar ou contar uma história, mas na unidade e interligação de suas canções), a escolha do repertório baseada principalmente nos seus três melhores discos – a saber, OK Computer, Kid A e In Rainbows – me pareceu acertada. Alguns sentiram falta das guitarras das músicas de The Bends, outros reclamaram de tantas canções lentas do último disco. Mas as 35 mil pessoas que deixaram o Just A Fest pela única saída disponível, tal qual uma procissão religiosa, tiveram uma das grandes noites de suas vidas.

********************
Daniel Faria, 22 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz.

E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com

********************

Leia também:

. Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Tom Zé, R.E.M., Julieta Venegas: selecionamos os melhores discos de 2008, por Daniel Faria

. A cantora Julieta Venegas realizou - com a ajuda de Marisa Monte - a música mais linda de 2008 para seu MTV Unplugged, por Daniel Faria

. Entre o desleixo solitário e a alegria ingênua, ex-Los Hermanos Marcelo Camelo lança Sou, aguardado disco solo, por Daniel Faria

Deixe um comentário