Literatura
O Falso Religioso
24 de Março de 2009 | por Revista Wave

Dois desdéns fingidos, um flerte e a prontidão da justiça em Tartufo, do rei da comédia francesa Molière

 

por Cesare Rodrigues

O rapaz entra esbaforido. Acabara de descobrir que sua noiva desposaria outro homem por ordem do pai. Discutem a amplitude do amor dos dois. Desdenham dele. O rapaz a aconselha que siga a determinação. Ela se apresenta pronta a submeter-se, já que é ele quem aconselha. Fazem cena exagerada, disfarçando muito mal o amor que os deixa tensos em cena. Não fosse a eloquente presença da criada botar-lhes os pés no chão e tudo estaria perdido para o amor dos dois. Ela tem que puxar um e o outro ao centro do palco, fazê-los dar as mãos e confirmar que seu amor pode vencer a ameaça. Depois tem trabalho para separar os namorados falastrões cada um para seu rumo.

A cena é de Tartufo (1664), clássica peça do rei da comédia francesa, Molière, famoso por ter morrido efusivamente aplaudido em cena (da peça O Doente Imaginário, de 1673) e ter dado novo sentido ao gênero que se encontrava combalido, não gozando de nenhum prestígio até seu aparecimento. Seu cenário é a então corrente Paris do século XVII, da graciosa corte do Rei Sol, Luis XIV, quando a modernidade ainda nem ameaçava ruir a aristocracia em seus velhos costumes e apenas começava a borbulhar no imaginário da burguesia. Molière, muito à frente, já fazia rir da ainda embrionária decadência dos costumes.

As personagens dessa cena, a que encerra o segundo ato, são Valère, Mariane e Dorine, a criada. Pouco antes, Mariane e Dorine discutiam o amor da primeira por Valère, seu noivo. Prometida em casamento ao moço, Mariane agora deveria por ordem do pai casar-se com Tartufo, o falso beato cujo angelical comportamento o arrebatara e fizera inconsequente desonrar a promessa da filha.

A situação tragicômica do desdém fingido, ridículo e dissimulado dos dois em meio às inúmeras críticas alegóricas à sociedade francesa é uma doce intransigência, a cena mais desnecessária da peça para simplesmente rir-se da paixão, uma pequena digressão de amor.

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Molière à época gozava de prestígio como o grande comediante da França. Com ásperas análises sociais, suas peças iam além do riso: divulgavam ideias e estimulavam o pensamento crítico e atuante. Incomodavam, pela falta de sutileza, aos mais diversos estratos e tirava gargalhadas de tudo e de todos, o que acarretou-lhe problemas com a censura e a Igreja. Especialmente por Tartufo, um sacerdote mais exaltado chegou a conclamar: “sacrifique o autor no fogo, cujas chamas hão de ser-lhe o prenúncio do inferno!”.

Mas se antes o ainda apenas ator já peitara a todos e tornara-se grande com a menosprezada comédia, a despeito de ser então a tragédia maior garantia de fama e sucesso, o dramaturgo teria que ceder um pouco seu arrebatamento à onipotência do Príncipe. Mas o mundo estaria salvo para Tartufo e Molière faria retumbante sucesso no papel de Orgon.

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Tartufo, a personagem-título, demora a aparecer em cena. É ansiosamente aguardado até o terceiro ato, precedido de muita reputação (é em torno de si que se desenrolam os diálogos dos dois primeiros atos e inclusive a desnecessária cena dos desdéns). Quando ele aparece (o noivo por quem Mariane trocaria Valère, o anjo que conduziria Orgon e toda a família ao céu, o falso beato tirando proveito da fé alheia) os conflitos começam a se apresentar e resolver tão rapidamente quanto sua ingenuidade permite. O “vilão mal-intencionado”, não consegue conter o desejo e atira-se sobre a mulher de seu anfitrião, ainda que essa atitude o desmascarasse. Fosse o vilão tão mesquinho e calculista, casar-se-ia com Mariane e viveria bem às custas de Orgon. Mas lá foi Tartufo dar ouvidos ao amor, seguiu seu desejo e botaria o plano a perder não fosse tão longe a cegueira de Orgon, que transferiria ao beato todo o patrimônio como prova de confiança mesmo após o flagrante do filho no primeiro flerte:

Uma cena apresenta Damis e sua revolta diante da atitude do pai, que anunciara o casamento de Mariane com o beato. Ele se esconde dentro de um gabinete e flagra, numa das primeiras aparições de Tartufo o grande ápice da peça, a demonstração de fraqueza que incrimina o vilão: o flerte.

Estão em cena Tartufo, Elmire (a esposa de Orgon, pai de Mariane e Damis) e Damis escondido. Tartufo toca o joelho de Elmire, aproxima-lhe a cadeira e confessa o amor. Provocado por Elmire (“o que desejo é apenas uma conversa em que seu coração de revele e nada me esconda” ou “acho que todos os seus suspiros dirigem-se ao céu e nada aqui em baixo atrai os seus desejos”) Tartufo revela-se verborrágico e audacioso ao ofertar-lhe o coração, mas o arrebatamento de Damis interrompe a confissão e rouba a cena (e acaba com o plano de Elmire de trocar seu silêncio pela rejeição de Tartufo em casar-se com Mariane). Sua insatisfação o leva a denunciar o beato ao pai, a despeito da mãe preferir a discrição, e é expulso de casa por questionar tão pura alma.

Cego, apaixonado por Tartufo, Orgon passa-lhe a propriedade de todos os bens e o falso beato os exige prontamente após ser flagrado por Orgon, escondido como o filho numa armadilha tramada por Elmire, em uma segunda investida pelo coração de sua esposa.

Tartufo exige pela força da justiça os bens e entrega a ela os segredos comprometedores de Orgon. A peça se encaminha para a vitória do vilão valendo-se da boa fé da aristocracia.

Mas a justiça não tarda em magicamente se fazer e pune o larápio devolvendo os bens a Orgon. Num abrandamento necessário para ser aceito pela censura, no final a Justiça do Príncipe se sobrepõe ao talento e vilania de Tartufo e até Valère toma de volta a mão de Mariane, a despeito do desdém fingido de algumas cenas antes.

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O núcleo donde se dá a explosão dramática em Molière é a interpretação do ator. Foi de dentro da cena que ele descobriu o teatro e é lá que o teatro acontece. O texto de Tartufo não passa de sequência de falas, um script com apenas uma ou outra rubrica, quando estritamente indispensável. A capacidade de improviso e personificação de alegorias do ator deve não apenas dar vida à personagem, mas conduzir todo o ritmo da peça.

O minimalismo cênico atira toda a representação apenas ao jogo de relações e é por dominá-lo que o vilão Tartufo sairia como o vencedor. Apenas Cléante e Dorine, menos influenciados por Tartufo e menos influentes na família, não perdem o controle das ações movidos pela paixão. Os racionais são os impotentes. E os poderosos entregam suas vidas a impostores, charlatães e todo tipo de vendedores de fé e de sorte.

O grande problema estaria justamente aí. A Igreja viu-se ofendida por ter um personagem beato (cuja caracterização se assemelhava muito à dos sacerdotes) escancarando seus defeitos como vilão e tapeando a fé da aristocracia. Molière poderia utilizar suas histriônicas personagens alegóricas, equiparadas por Baudelaire aos deuses e heróis gregos nas lendárias Flores do Mal, para fazer troça com todo o mundo, desde que não ofendesse a fé em Deus e no Príncipe.

Então vem a fantástica lição de moral do final, corrige as intransigências, dá a vitória ao bem e permite que Tartufo se torne parte do cânone da literatura ocidental.

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Cesare Rodrigues, 24, nasceu em São João da Boa Vista com quase um século de atraso. Pretenso poeta, corinthiano, fã de cinema, literatura, vanguarda, rock n’ roll e biografias trágicas, arrisca escrever poesia, ensaiozinho e até alguma ficção das que intentam vencer por nocaute.

E-mail: cesarasrodrigues@gmail.com

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