Especiais
Férias de verão: Argentina
19 de Janeiro de 2009 | por Revista Wave
As impressões da primeira vez de um turista em Buenos Aires
por Rodrigo Azevedo
Estar em Buenos Aires é estar em constante estado de alumbramento (ato de alumbrar; deslumbramento; vertigem). Tal como Manuel Bandeira, em seu célebre e homônimo poema, a cidade portenha consegue dosar de maneira equilibradamente bela o romantismo e o erotismo. A mistura difundida pelos bons ares da capital argentina me causaram imenso fascínio, comparado ao de um garoto que, pela primeira vez, se vê diante da imagem de uma mulher nua.
Tudo o que vi, ouvi, cheirei e senti me pareceram absolutamente fantásticos. Só não sobrava tempo para pensar (o romantismo fez o favor de me desprender de qualquer vestígio de razão) em meio a tanto encantamento. Os seis dias na cidade foram tão intensos, agradáveis e surpreendentes que tornaram o momento da despedida relutante, melancólico e triste.
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Vivi nesse alumbramento por meros seis dias. E digo que estive assim, pois, é claro, nem tudo foram flores no passeio. Em primeiro lugar, a viagem. Estar por mais de 30 horas dentro de um ônibus sem ar-condicionado em pleno verão não é nada agradável. Pior que isso é ser enganado pelo site que fez as reservas para o hostel e ir parar num hotelzinho meia boca na periferia da cidade. Como desgraça pouca é bobagem, no dia seguinte os caixas eletrônicos portenhos insistiram em ficar de mal de mim e resolveram não me deixar tirar dinheiro. Pronto. Estava um inferno. Com esse cartão de visita, dificilmente Buenos Aires poderia deixar em mim alguma lembrança agradável.
Mas os ares portenhos trataram de começar a me seduzir. Aos poucos os problemas foram sendo sanados. Um simpático hostel era o novo abrigo e um amigão daqueles raros era meu novo caixa eletrônico. E assim finalmente começava meu passeio. Enfim, poderia desbravar a cidade, conhecer seus habitantes e saber se aquela metrópole haveria de surpreender um paulistano arrogante e convencido.
Não demorou muito tempo para que eu descobrisse que caminhar é um dos maiores prazeres que a cidade oferece. Andar com calma e observar. Em meio a avenidas largas e ruas estreitas, os objetos a serem observados se sucedem na mesma velocidade dos passos. Os olhares atentos percorrem monumentos, igrejas, museus, galerias de arte, teatros, praças, parques, jardins, modernos centros comerciais, feiras de antiguidades e por aí vai. A impressão é que se está diante de uma cidade de várias idades: antiga, moderna e contemporânea. Uma metrópole viva, cheia de encantos e que não desprezou suas tradições mesmo absorvendo influências externas.
Foram seis dias de descobertas. De uma cidade bela, simpática, limpa, culta. Mas em meio a diversas cidades com todas essas características (como as européias), o que torna Buenos Aires especial é certamente a sua personalidade singular. Trata-se de uma metrópole em que a elegância é padrão. A abertura à arquitetura, à cultura e à arte de todo o mundo dão o toque cosmopolita a capital argentina. Mas a assimilação do estrangeiro é incorporada de maneira particular e antropofágica às tradições locais. Tudo isso torna a cidade contraditória, contrastante. Dinâmica e tradicional. Histórica e vanguardista. Tudo na mesma medida.
Meu passeio foi extremamente turístico. Passei por lugares manjados e recomendados em qualquer guia fuleiro de banca de jornal. Ao som e ao ritmo do tango suave do imponente e cultuado Gardel, caminhei calmamente pela Calle Florida, pelo calçadão da Lavalle, observei atentamente o Obelisco, curti os encantos dos bares e bosques de Pallermo, dancei mambo e axé baiano na balada em Puerto Madero, me decepcionei com a simplicidade do túmulo da Evita no cemitério da Recolleta, vi antiguidades curiosíssimas na feirinha de San Telmo, vi o colorido simpático do Caminito, me impressionei com a imponência de La Bombonera, enfim. Diria o poeta que falar desses lugares é realmente chover no molhado. São necessárias horas para a descrição de cada lugar, dos personagens e das preciosidades presenciadas em cada visita.
Já que não sou capaz de transformar em palavras sintéticas toda a minha paixão pelos muitos lugares que formam a esplêndida Buenos Aires, contarei aqui apenas algumas brevíssimas impressões que tive da cidade, do povo e dos costumes notados em uma breve e intensa visita à cidade dos bons ares.
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Um passeio pelo centro é uma eficiente maneira de desbravar um pouco do jeito argentino de ser. Andar pelo coração da cidade é entrar na intimidade e no cotidiano do povo em seus momentos de trabalho, lazer e atividades banais. A região é incrível e, assim como toda a cidade, merece ser visitada em um passeio a pé. As construções foram erguidas para serem realmente apreciadas, com calma e atenção, as árvores e flores que formam às muitas e belíssimas praças são uma atração à parte e é muito fácil, mesmo para quem está chegando pela primeira vez, se localizar.
O caminhar pelas avenidas largas misturadas às estreitas ruas leva ao inevitável encontro da Plaza de Mayo com a Casa Rosada, o Palácio do Congresso e a Catedral Metropolitana, combinação que me deixou boquiaberto por segundos. Paralisado, imaginei em preto e branco Evita discursando ali a minha frente e mães protestando com panelaços pela dor dos filhos misteriosamente “desaparecidos” durante a ditadura militar. Já numa imaginação viva e colorida mirei a casa rosada e, voltando à realidade, despertei para o fato de que estava a poucos metros da casa dos Kischner e eu nunca havia estado tão perto de um presidente.
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Adepto do inverno, o clima quente acompanhou todos os meus passos pela cidade. Tanto calor me fez pensar que a elegância das moças e dos moços estava prejudicada pelo tempo. Certamente, o inverno haveria de potencializar toda classe e personalidade ao cubo.
As portenhas possuem traços extremamente delicados, um meio sorriso encantador e um ar de desprezo capaz de atrair qualquer homem. Tudo acompanhado por belos corpos, simpáticos e equilibrados em relação à extravagância brasileira. Suas roupas buscam combinações ousadas nas cores, seus cabelos são descabelados e acompanhados por uma fita colorida. Se há uma coisa que as chicas realmente não se importam é em ditar novas tendências de moda. O resultado disso é personalidade, garbo e uma beleza cativante.
Os portenhos são mais tradicionais e não tão ousados, mas sabem ser extremamente elegantes quando caminham apressados pelo centro da cidade, apesar dos ridículos mullets. Ouvi de uma menina que todos eles eram bonitos, mas confesso não ter prestado a devida atenção porque certamente alguma faixa colorida presa a um cabelo bagunçado me impediu.
Algo que espanta alguns visitantes mais desavisados é receber um beijo no rosto de um argentino quando são apresentados ou na hora de se despedir. Trata-se de uma gentileza masculina que não deve te ofender por se tratar de um carinhoso costume dos hermanos.
Outra constatação: não, eles não nos odeiam. Essa idiotice transportada da rixa futebolística para as relações pessoais é uma atitude grotesca e ignorante. Em imensa maioria, argentinos são educados e receptivos com os brasileiros. Nunca se negam a dar uma informação e fazem todo esforço para compreender nosso portunhol.
Pelo centro, artistas de rua se confundem com os que transitam pelos calçadões, algo parecido do que se pode encontrar na Praça da Sé, em São Paulo. Nem precisei caminhar muita para ver aquilo que talvez seja o maior símbolo daquela cidade, daquele país: o incomparável e tradicional tango. Visto nas ruas, com pureza, espontaneidade e sensualidade, os passos dos dançarinos ditam o ritmo que embalam o passeio.
O suave ritmo do tango só é quebrado pelo som do irritante “câmbio, câmbio, câmbio”, dito em velocidade superior a de um narrador de futebol de rádio por dúzias de chatos a serviço das casas de câmbio. Mas para quem está acostumado a caminhar pelo centro paulistano ouvindo Batom na Cueca, Calypso e “ótica, ótica, ótica”, confesso que foi até fácil lidar com o incômodo.
Agora o lado culto do argentino. É realmente impressionante a quantidade de pessoas lendo que se encontra por todos lugares: no banco ou na grama da praça, no ônibus, no metrô, nos cafés, em todo canto. Livrarias, sebos e lojas de discos estão por todo o canto, sempre cheios e a exalar cultura.

Assim como a história, que cruza cada esquina, as manifestações políticas se encontram por toda a parte. As pichações são um caso a parte. Todas possuem teor político e, ao contrário dos rabiscos aos quais somos acostumados, são legíveis. Reivindicações, ofensas e ideologias se mostram por toda Buenos Aires através dos muros. Não houve um só dia em que não presenciei um protesto. Os portenhos respiram política. O esquerdismo político em que Che Guevara não é apenas um ícone pop se faz presente em muitos instantes.
A popularidade do prefeito Maurício Macri, um dos mais visados pelos protestos, está mais baixa do que a da Marta depois que perguntou se o Kassab era casado. Argentinos são bem mais politizados que brasileiros, para o bem e para o mal. Os mais velhos parecem mais reacionários e são bastante preconceituosos. Os bolivianos, peruanos e paraguaios de lá são os nordestinos daqui.
Ir aos pontos turísticos e se encantar com eles não me impediu de diagnosticar que o esplendor da cidade não muda os efeitos de fazer parte da latino-américa e sofrer as conseqüências de um continente desregrado, miserável e decaído. Mas o que são problemas para quem sai de São Paulo?
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Foram míseros seis dias. Poderia ter ficado bem ou mal impressionado com o lugar visitado. Ou talvez indiferente. Mas a primeira impressão é quase sempre decisiva. Um pouco de literatura, outro de cinema e um punhado de mapas me permitiram construir uma Buenos Aires antes que eu pudesse desembarcar por lá. Essa imaginação que me permitiu conhecer a cidade certamente serviria para estragar a surpresa de uma primeira visita. Mas dessa vez foi diferente. Buenos Aires me surpreendeu. Pena que tive que deixá-la. Mas parti relutante, com a certeza de quem um dia eu volto, talvez (e assim espero) pra nunca mais voltar.
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Rodrigo Azevedo, 21, é estudante de Jornalismo da Unesp. Torcedor da Holanda em Copas do Mundo, gosta de tempo frio, é viciado em café e fã de Coldplay. Seu charme é se fingir de surdo, sua mania é falar sozinho enquanto anda na rua.
E-mail: rodrigoazevedo7@gmail.com
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E-mail: rodrigoazevedo7@gmail.com_ Tudo sobre a 32º Mostra Internacional de Cinema, por Isaac Pipano.
_ Bastidores de um curta-metragem: Revista Wave acompanhou o processo de criação do filme Reflexão, por Felipe Arra.
_ Sexo virtual e a individualidade, por Gustavo Padovani.



12 de Outubro de 2009 às 20:16
Oi, gostei do seu texto, muito bom, porém comparar as brasileiras com as argentinas foi ruim, hem? Sou mulher e sei reconhecer uma mulher bonita, mas as argentinas que vi lá “peloamor”, que maquiagem é aquela que elas usam? Nem prá balada eu teria coragem de usar uma sombra preta que vi numa garota no metrô as 9 da manhã, se isso é ter estilo prefiro a nossa “sobriedade”, rs.
Estou voltando prá BsAs e posso te contar depois se mudei minha opinião sobre as hermanas, mas sinceramente duvido…rs