Literatura
Uma tarde com Saramago
10 de Dezembro de 2008 | por Revista Wave
Numa atípica sexta-feira, Samarago põe em delírio platéia em um dos bairros mais chiques de São Paulo
por Gabriel Duarte
Estamos numa galeria, no bairro Higienópolis, São Paulo. Do lado esquerdo, depois de apresentarem o documento de identidade, entram os que estão cadastrados na lista. Os que não estão em tal lista esperam pela sorte do lado do direito. Se alguém não comparecer, eles poderão entrar. A fila já possui cerca de 40 pessoas. Dentro do teatro a maioria dos lugares já estão preenchidos. O público é o mais variado possível; estudantes de all star, senhoras elegantes e perfumadas, fãs com diversos livros do escritor, uns que acabaram de comprar algum exemplar, jornalistas cansados e curiosos desocupados. Entra um casal de hippies tardios, o rapaz educadamente tira dois celulares do bolso e os desliga, a moça por sua vez saca uma câmera de última geração e começa a fotografar o rapaz; o senhor do meu lado tira sarro: “provavelmente nem sabem o que ele escreveu”. Atrás de mim uma senhora de uns 70 anos pede licença para ocupar um dos únicos lugares vagos. “Mas estas cadeiras são tão apertadinhas”, reclama. Quando enfim se acomoda já avisa: “vocês não se incomodem se eu passar de novo, né?”. Questionada por um rapaz se pretende sair antes do final, ela prontamente responde: “Se tiver ruim eu saio logo no começo”.
Aplausos e os desavisados reconhecem o escritor (magro, de terno cinza e andando com certa dificuldade); assim mesmo, sem nenhum aviso prévio, estamos na presença de José Saramago. O debatedor logo avisa que, devido à agenda do entrevistado, não haverá tempo para autógrafos. A platéia ensaia um tímido ‘ah’. As primeiras perguntas são sobre o ultimo lançamento do autor “A viagem do Elefante” - escrito depois que o escritor esteve doente - e sobre o assunto que ele diz não querer mais tratar - a doença -, por supostamente não ter relação alguma com o livro. “Muitos leitores buscam no livro algum reflexo da minha doença, mas não vão encontrar nada disso”. Saramago considera que sua obra não está atrelada a seu estado de saúde ou ao lugar em que mora.
Seus primeiros livros tinham Portugal como cenário. No entanto, durante muito tempo, o autor deixou de delimitar um lugar especifico para suas histórias, escrevendo alegorias sobre o presente que poderiam acontecer em qualquer lugar. Questionado se seu ultimo livro representa uma reconciliação com seu país, já que a história se passa em Portugal, ele responde: “Nunca rompi com o meu país, nunca tive problema com Portugal. Só tive problema com quem o governou”. Quando diz frases como esta, a platéia ri copiosamente. Porém, apesar de toda cordialidade que apresenta, pouco, ou nenhuma vez, Saramago ri durante a entrevista.
Ateu convicto ele não perdeu a oportunidade de criticar a religião. Quando é questionado se a doença mudou sua visão de Deus, responde com ironia: “Porque teria que mudar? Porque me salvou a vida? Quem me salvou a vida foram os médicos”. E completa: “Deus é uma invenção de uma época remota, vejam a Bíblia, é um livro totalmente desaconselhável, principalmente para os adolescentes, só tem mau exemplo: incesto, violência, morte…”. E a platéia, como se presenciasse um stand-up comedy, cai em gargalhadas estrepitosas.
Luiz Costa Lima, professor da PUC e colunista do caderno ‘Mais’, discorreu sobre o quanto a literatura atual reduziu-se a best seller’s e marketing. Sobre a questão, Saramago diz: “Eu não sou produto do marketing, nunca fui. Podemos dizer que hoje eu talvez seja, mas eu nunca procurei esta situação. Como pessoa e escritor sou totalmente destituído de ambição. Nunca ambicionei uma carreira literária”.
Estudioso de Marx, Saramago se considera um “marxista hormonal”. Ser comunista para ele é uma condição, inevitável de sua natureza, assim como é inevitável que sua barba cresça. Crê que, ao contrário de Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico, Barack Obama pode ser um anunciador da boa nova. Em sua opinião, definitivamente, o futuro presidente norte americano não é “uma chave que não abre porta nenhuma”.
Literatura brasileira
Quando a reforma ortográfica foi lançada, Saramago se opôs. Depois voltou atrás. Segundo seu ponto de vista, tais reformas só são válidas quando aproximam os diversos povos que tem o português como língua materna, caso contrario não servem para nada a não ser criar confusão. “Quando eu era pequeno, aprendi a escrever a palavra mãe com a letra ‘e’, depois de uma reforma disseram que deveríamos escrever com a letra ‘i’ no final, assim eu fiz, depois mais uma reforma foi feita e de novo voltou-se a escrever com a letra ‘e’. O que isso importa? Nada, com ‘e’ ou com ‘i’ a mãe vai ser sempre a mesma”.
Sobre literatura brasileira ele afirma que há 50 anos qualquer leitor português tinha acesso e conhecia autores brasileiros. “Hoje sou totalmente ignorante sobre o assunto. Por outro lado nós (portugueses) não temos a obrigação de procurar algo que nem sabemos que existe”. O único autor contemporâneo que ele conhece e admira é Chico Buarque. “Budapeste é um ótimo livro, estou ansioso pelo próximo livro dele. Sorte de vocês que têm um grande compositor que também é um grande escritor”.
Mais uma vez ele falou porque nunca permitiu que uma obra sua fosse filmada (“Não queria ver a cara dos meus personagens”) e que só depois de muita insistência de Fernando Meirelles concedeu o direito de filmagem de “Ensaio sobre a Cegueira”. Sim, ele gostou do filme. O mediador quer saber da onde surgiu a idéia do livro. “Durante um jantar eu me perguntei o que aconteceria se todos fossemos cegos. Logo depois conclui estarmos todos cegos, não temos consciência de nada”.
A sabatina vai chegando ao fim e a platéia está saciada. Riu e pode ver em pessoa o único escritor da língua portuguesa que recebeu um Nobel de Literatura. O mediador informa que o tempo se esgotou e solicita que o autor, cansado, diga suas últimas palavras. Mais uma vez ele fala do desejo de unir todos os povos e de um mundo mais justo. Uma senhora ergue e braço e posta-se de pé na frente do escritor, curiosidade e apreensão no teatro. Ele se emudece e ela fala: “Eu, em nome de todo o povo brasileiro quero agradecer pelo senhor existir”. Ele tímido, ensaia um sorriso amarelo e agradece. A platéia se levanta a aplaude durante alguns minutos, e ele, lá no meio, repete cada vez mais baixo: “muito obrigado”. E assim como entrou saiu sem que ao menos tomemos conta. Para os curiosos, a senhora do começo do texto foi uma das últimas a sair do teatro. Tentou, sem nenhum resultado, um autógrafo do escritor.
********************_ leia também:
_ Símbolos-montagem, trocadilhos multilingües, de James Joyce a Caetano, concretismo pouco nenhum para fundir cucas nada-exigentes, por Renata Penzani
_ O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, nunca se esgota; é uma leitura de paciência e de sempre, que nunca encontra razão em parar, por Renata Penzani
_ Antes dos beats e de Clarah Averbuck, Henry Miller é a grande referência da literatura individualista e marginal, por Daniell Marafon


9 de Janeiro de 2009 às 0:47
Ah, eu queria ter ido. Mas ler já me valeu. =)