Opinião
Saudosismo
3 de Novembro de 2008 | por Revista Wave

Desejos frustrados, flutuações da alma, o sentimento inevitável - considerações em primeira pessoa sobre a saudade

por Natália Calamari

Numa despedida recente, daquelas recorrentes mas nem por isso menos devastadoras, eu disse a ele:
- Ficarei com saudades.
- Eu também. – ele respondeu – Será que muita gente já escreveu sobre a ‘saudades’?
- Ah já… Muita gente – respondi.

E, enquanto respondia, genérica e convictamente a pergunta, percebi que não possuía certeza alguma da minha afirmação. No entanto, contrária à prudência teórica, pensei sem nenhum embaraço que seria impossível não haver dezenas de excertos e elucubrações e teorias sobre o assunto. Mesmo que particular e subjetiva, a saudade pode ser entendida como universal se consideramos que ela envolve o desejo de se tornar a viver determinada situação, pessoa, sensação – desconsiderando aqui diferenças antropológicas e lingüísticas.

A definição de desejo, tal como entendida por Espinosa – filósofo racionalista do século XVII – é “a própria essência do homem”. Embora isso envolva mais definições, não pretendo explorar os pormenores. Basta considerar aqui que colocar o desejo como essência humana é reconhecer um princípio inerente ao homem e, portanto, universal. Reconhecido isso, é preciso considerar que esse princípio tem uma condição: só desejamos o que nos traz prazer, satisfação ou o que amamos.

Referente a esse último, Espinosa afirma que na ausência do que amamos, ficamos tristes, e essa tristeza, referente à falta do objeto amado, chama-se desejo frustrado. Esse desejo é tanto maior ou menor de acordo com a intensidade do amor, da alegria que o objeto amado nos traz. Entendo esse desejo frustrado como saudades, embora não imagine Espinosa escrevendo nesses termos – era racional demais pra isso.

No entanto, não acredito estar corrompendo sua Ética. Pelo contrário. Ela foi escrita justamente para esclarecer os processos afetivos e das paixões da alma de forma que nós pudéssemos entender melhor nossos sentimentos e ponderá-los no sentido de permanecermos ativos, e não passivos, em nossas escolhas.

Mas pensar a saudades em termos de desejo frustrado não é muito consolador, pois tudo o que nos frustra e nos deixa tristes tendemos a evitar. Segue-se então a pergunta de como algo inerente ao homem pode, ao mesmo tempo, causar mal a ele próprio? O homem, também segundo o filósofo, tende a perseverar no seu ser – assim, como pode permitir que algo que o diminui enquanto ser ativo o afete?

A aparente contradição pode ser incluída no que Espinosa chama de estados de flutuação da alma. Esses ocorrem quando temos, por exemplo, esperança e medo, ou amamos e odiamos ao mesmo tempo. Muitas vezes essas paixões são sentidas concomitantemente e, embora possamos compreender em certa medida nossos sentimentos (mesmo que opostos), isso não muda sua condição de existência.

Saudades na presença?

Por vezes me perguntei se seria possível não sentir saudades, não sofrer por algo distante, seja no tempo ou no espaço. Reconhecendo esse sentimento como inerente a natureza humana, imagino então outra natureza para desenvolver a questão: a imortalidade. A despeito de Malthus e apenas como recurso teórico, penso se enquanto seres imortais continuaríamos a sentir saudades. Penso se continuaríamos a desejar coisas sendo que teríamos o infinito da existência para gozar delas.

Pois imagino que sim. Talvez a condição moderna contribua para o imediato, para as relações efêmeras e flexíveis, tal como Bauman explorou em Amor Líquido. No entanto, não acredito que numa condição imortal (e já começo a achar que fui longe demais), os desejos frustrados diminuíssem. Acredito que o mesmo predicado ainda estaria contido no sujeito, mesmo que sua natureza mudasse. Talvez houvesse mais parcimônia, talvez não.

Dentro dessa ficção, evoco Anne Rice e seus vampiros. Mais passional que muitos seres humanos que vemos por aí, Louis, por exemplo, em Entrevista com Vampiro, não cessa de procurar um sentido para sua vida eterna – sentido esse que só parece ser completo após encontrar alguém para amar (no caso, Claudia) e compartilhar a vida (ou “não vida”, como preferirem). Não sentir saudades, evitar esse sentimento que nos devasta para depois pousar no fundo da alma, é inconcebível. Ouso afirmar não existir uma vida tão mediana a ponto de não se desejar nada por uma segunda vez. Inclusive não seria necessário mais que um poema haikai para demonstrar essa coisa toda.

No entanto, após verificar que, de fato, vários autores já pensaram a ‘saudades’- muitos mais a partir dos poucos que inspiraram esse pequeno ensaio - o que se torna importante é perceber até que ponto a saudades não se originou no arrependimento ou na resignação; até que ponto ela vêm não de algo que amamos, mas que deixamos de amar; até que ponto nossos desejos não foram forjados; até que ponto nos escondemos com medo de viver para depois desejar voltar no tempo - pois é no seu desdobramento que os sentimentos naturais valem a pena ser pensados, e não apenas de forma psicológica, mas também filosófica.

Do mesmo modo que Isak Borg em Morangos Silvestres, de Bergman, todos temos nossos morangos num jardim escondido em algum lugar – e falar de jardins é realmente ir longe demais -, mas seria bom se lembrássemos deles sem a nostalgia da maioria dos que vivem apenas de saudades. Que ela seja legítima para ter o direito de existir, e que ela retorne ao passado apenas por se viver num presente construído daquele, e não naquele. Cito aqui Thoreau, com o intuito de que todos o contradigam em ações: “A maioria dos homens vive uma existência de tranqüilo desespero”.

Vivamos.

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Natália Calamari, 23, se forma esse ano em antropologia pela Unicamp e possui ambições com filosofia e marcenaria. Gosta de ficção científica, All Star, ska, café, L&M blue, heineken e Stephen King – porque ninguém é perfeito.

E-mail: natalia.calamari@gmail.com

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Leia também:

. Uma noite na rodoviária: como algumas horas de sono a mais que o desejado podem levar a uma introspecção imposta pelo tédio e pela busca do bom humor, por Gustavo Padovani.

. Uma crônica sobre a participação popular nas eleições municipais e uma análise sobre os resultados dos grandes centros, por Daniel Faria.

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2 comentários

  1. fabrício diz:

    “A maioria dos homens vive uma existência de tranqüilo desespero”.

    contornar e sobreviver a isso é o grande desafio da existência humana. e saber separar o momento em si das consequências de tal momento é o grande desafio da convivência com esse sentimento chamado saudade…

  2. Daniell Marafon diz:

    Ná, como prometi, a gente conversa sobre esse texto tomando umas cervejas no futuro próximo… por isso q vou suspender o meu juízo por enquanto… espero q escreva mais coisas pra Wave… bjos

    ps. essa foto ficou demais (haha quem foi que fez, né?)

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