Literatura
A vida é um grande lego
3 de Novembro de 2008 | por Revista Wave
Símbolos-montagem, trocadilhos multilingües, de James Joyce a Caetano, concretismo pouco nenhum para fundir cucas nada-exigentes
por Renata Penzani
Tem dias que o mundo parece denso, sério, cara-fechada. Tem outros em que ele não passa de uma série de peças interligadas passíveis de destruição com um sopro. Inofensivo e frágil, é nesse dia que o mundo pode ser o que quisermos. Muito do que observamos perplexos não passa de uma simples ciranda a entreter a inércia, em que uma coisa puxa a outra e nunca pára de girar.
Aparentemente – ou ao menos se algo no mundo pudesse ser tomado como genuíno ou isolado – tudo começou em 1939, quando o irlandês James Joyce, não satisfeito em se lançar para a história da Literatura como o autor de Ulisses, Retratos do Artista Quando Jovem e Dublinenses, desenha as minúcias das páginas de Finnegans Wake. Tudo o que se pode dizer sobre o livro é pouco, mas calar-nos seria muito.
Finnegans Wake é o retrato da consciência de Joyce. Construído através de palavras-montagem e trocadilhos multilingües, Finnegans Wake é exigente e espantoso. Exigente porque não demanda qualquer leitura, dessas que os olhos rapidamente deslizam pelas palavras, mas um paciente estudo em que a sensibilidade faz o árduo papel de guia. E espantoso pelo seu grau – até irritante e ofensivo- de complexidade. A história já começa no próprio título: Finnegan = Finn + again. Essa simples equação semântica exibe a idéia da reaparição, do retorno e da circularidade presente em todo o livro.
Não bastasse ser a obra toda uma sucessão de subjetividades e invencionices, ela é também uma produção coletiva de Joyce, Samuel Becket e James Stephen, em razão da cegueira gradual por que passava o autor no tempo da produção do livro. Em Finnegans, Joyce abusa da receptividade do leitor, bombardeando-o com livres-associações oníricas, metáforas interpretativas pessoais, neologismos e uma boa dose de automatismo literário: o clima propício para que o interlocutor mais incauto desista do diálogo, dê de ombros e parta para o próximo cigarro. Mas tudo o que se lê é produto de um grande trabalho mental, capaz de fazer com que a possibilidade de criação de um vocabulário totalmente subjetivo possa fazer sentido a alguém.
Nesse contexto, as palavras são como pecinhas prontas para encaixe ou desencaixe; surgem termos como “caleidocamaleoscópico”, que nos faz pensar, numa só vez, em “caleidoscópio”, simbolizando as multiplicações e inconstâncias do livro, e em “camaleão”, que nos mostra que nada, nunca, continua como está. Cada palavra é encaixada com habilidade invejável e o enredo, nessa orgia etimológica, passa despercebido.
A história contada é a de Tim Finnegan, um pedreiro irlandês que se embriaga, cai de uma escada e morre; durante seu velório, em meio à danças e festejos, derrubam uísque sobre seu caixão, fazendo com que Finnegan desperte e se junte às festividades. Ou seja, o álcool, mesma substância que o matou, torna-se responsável por trazer-lhe à vida: é Joyce sugerindo, novamente, a idéia de um ciclo. Fantástico. Mas, como dissemos, apenas uma gota num imenso oceano.
Concretismo-colagem
45 anos foi exatamente o tempo necessário para que as ousadias literárias de Joyce atingissem definitivamente o nosso país tropical, mas bem menos que isso bastou para que os métodos de subversão da ordem sintática e semântica do escritor irlandês maravilhassem um dos grandes nomes da Literatura Brasileira. Haroldo de Campos, ícone da poesia concreta, escreve Galáxias, livro-colagem inspirado no esqueleto de Finnegans Wake, em 1984, mas já em 1963, exatos 5 anos após a inauguração do Movimento Concretista brasileiro, começa a emitir sinais de que estava começando uma trajetória particular; uma variação de órbita, por assim dizer.
Em 1964, alguns fragmentos do livro-poema já despontavam como meteoros tímidos no imenso plano cosmológico que ele iria ocupar anos mais tarde. Tal qual seu similar irlandês, Galáxias é feito de fantasias vocabulares que poderiam ser ingênua brincadeira, não fosse a tamanha ponderação de sua construção.
Em Finnegans Wake, tudo que se apresenta ao leitor integra um ciclo. A última frase do último capítulo, por exemplo, só se completa na primeira linha do capítulo inicial, evidenciando o círculo do “eterno retorno”. Da mesma maneira, o texto galático se comprime num vagaroso movimento de vaivém, em que as palavras se dobram e desdobram para delatar um universo novo; e é partir desses desdobramentos que se chega à idéia de multiplicidade. A própria palavra “dobra” ajuda no entendimento do livro: a palavra é oriunda do termo latino plicare (plié, multiplicité). Assim, múltiplo não é somente o que possui muitas partes, mas o que pode ser dobrado várias vezes e de diferentes maneiras. Além disso, essa interpretação sugere, mais uma vez, a idéia de um ciclo, afinal, só se desdobra o que se encontrava previamente dobrado, e o que é dobrado está, necessariamente, suscetível ao desdobramento (!).
Galáxias, assim como Finnegans, amedronta os que se aventuram em classificações, mas, ao mesmo tempo, incita a delícia da parcialidade. Para Maria Esther Maciel, “sua circularidade prescinde dos limites da circunferência e, ao invés de conter um centro, apresenta vários pontos que se conectam a qualquer outro”. Para Severo Sarduy, “são planetas desorbitados que abandonam suas elipses para inserir-se em outras”. Ambos os livros, em virtude de seus gigantes meandros, podem ser lidos de não importa onde. Abre-se em uma página qualquer e já se encontra uma passagem memorável ou um pensamento que seduz. “Sua mecânica assemelha-se a de um sonho, um sonho que libertou o autor das necessidades da lógica comum, possibilitando-lhe comprimir todos os períodos da história em um desenho circular de que cada parte é começo, meio e fim”: isto é o que pensam os escritores ingleses Joseph Campbell e Henry Morton Robinson, autores de uma grande obra analítica de Finnegans Wake, com tradução de – guest what! – Haroldo de Campos e seu irmão Augusto de Campos. Apenas um dedo de nossa história onde tudo parece estar de mãos dadas.
A motivação – ou perturbação, como queiram – inicial de cada obra foi a crença na crise do verso. Os autores apanham toda a estruturação sintática aprendida, todo o repertório etimológico e todo o mínimo grau de ordenação para acomodar tudo num saco e lançar pelos ares. É a subversão da previsibilidade.
Circuladô de fulô
7 anos se passaram até que Caetano Veloso, conhecidamente um dos mais lunático-inventivos dos compositores brasileiros, percebesse a tamanha efervescência criativa do livro de Haroldo de Campos. O álbum Circuladô é lançado em 1991, inspirado no texto “Circuladô de Fulô”, um dos 21 fragmentos de Galáxias, e tendo em sua composição uma faixa que é uma tentativa de musicalização do fragmento na íntegra.
O álbum e a grande capacidade de angariar críticas efusivas de Caetano fazem com que Circuladô gere imensa repercussão no contexto da época – Collor, então presidente da República, chegou a sugerir um encontro com o músico, que foi prontamente recusado. Em 1992, Circuladô, terceira parte da nossa ciranda de influências, ganha uma versão ao vivo, com outras canções-chave e que tem como adicionais interpretações únicas de canções imortalizadas por Carmem Miranda e Michael Jackson. Mas o movimento não pára. Walter Salles, em 1993, produz o documentário Caetano, 50 Anos, sobre a vida e a obra do compositor, em que exalta a maestria de Circuladô.
Exaustos depois de toda essa reviravolta, voltemos ao assunto inicial. James Joyce faz-se sentir todos os anos numa festa de recordação de sua vida e obra. O chamado Bloomsday (alusão à personagem central de Ulisses, Mary Bloom) é um verdadeiro ritual em Dublin; num movimento teimoso como o da nossa ciranda, ele se estende rapidamente por outros cantos do mundo, inclusive o Brasil. O maior deles, de 2004, durou cinco meses, e culminou num café da manhã para milhares de pessoas na O’Connell Street, a principal rua da cidade.
Tudo isso apenas nos mostra o que nunca deixamos de saber, mas nem sempre botamos o devido reparo, isto é, que o mundo é um amontoado de sobreposições; uma coisa exerce influência muda sobre outra, que desenfreadamente já se lança sobre outra. Cada palavra, ou cada aspecto que compõe o que vemos, é um mundo que revela outros mundos. Este é o impune movimento que faz o mundo girar e, enquanto lhe houver pulsação, nada anula o seu viravoltear.

Cucas maravilhosas de lunáticos-inventivos: James Joyce, Haroldo de Campos e Caetano Veloso
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Renata Penzani, 20, é estudante da Universidade Estadual Paulista por gostar de jornalismo, ainda que nem sempre. Propensa a mudanças desconcertantes e ingenuidade excessiva. Vive alimentando a boa e velha joie de vivre.
E-mail: rerepenzani@yahoo.com.br
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10 de Dezembro de 2008 às 4:34
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