Especiais
32º Mostra Internacional de Cinema
3 de Novembro de 2008 | por Revista Wave

O editor de cinema da Revista Wave, Isaac Pipano, esteve na 32º Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo: há mais a se saber e aprender sobre o cinema além da simples prática de ver filmes

por Isaac Pipano

Ser cinéfilo no interior exige esforço. As Multiplex têm privilegiado cada vez menos os lançamentos nacionais, mesmo em tempos em que as políticas pró-exibição de películas brasileiras estejam em pleno funcionamento. Em Bauru, por exemplo, Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, estreou com muito atraso em uma única sala nos três cinemas da cidade, enquanto High School Musical 3 acompanhou o lançamento mundial, somando mais de 10 horários diferentes de exibição nos três cinemas. Assim, resta às atividades cineclubistas locais fazer as vezes da telona, contando com o compartilhamento gratuito de filmes na internet, em especial o formidável site Making Off.

Porém, nos cineclubes, há predileção pelas exibições de filmes canonizados, realizadores consagrados ou, ainda, aqueles historicamente necessários devido à sua importância para a construção da cinematografia mundial. Tudo como política de formação de platéia, já que obras herméticas são mais conhecidas por afastar espectadores do que levá-los às sessões. Eu mesmo, ao participar da gestão de um cineclube, encontrei dificuldades quanto a opções na programação, avaliando – após meses – que o público também se constitui de interessados desmotivados, e muitas obras causam descontentamento imediato quanto às suas opções estéticas. Mesmo que Limite ou Bang Bang sejam clássicos de cinematografia brasileira, exibí-los no cineclube da UNESP, por exemplo, equivale a uma sessão vazia.

Mesmo que a velocidade de disseminação dos filmes seja espantosa e não haja um hiato muito longo entre os lançamentos internacionais e a possibilidade de downloads by torrents, nem mesmo o conforto de estar em sua própria casa, comendo pipoca sob cobertores, supre a experiência de ir ao cinema.

Cinema é coletividade

Na Rua Costa, estreita e perpendicular à excelentíssima Augusta, hospedei-me na sala de um apartamento com um colega de faculdade. Levei comigo folhas de papel aonde haviam impressas programações hipotéticas - que não contavam com os mais que possíveis e prováveis desvios de percurso -; uma câmera fotográfica e roupas de verão. De segunda à sexta-feira, o objetivo era assistir ao maior número de filmes. Claro que tentando sempre, no jargão economês, otimizar os gastos: comer pouco e em horários estratégicos e aproveitar as sessões gratuitas. Tudo para absorver o que havia de melhor na 32º Mostra Internacional de Cinema e suprir as debilidades da vida interiorana.

Ao todo eram vinte e quatro salas espalhadas pela cidade com exibições diárias entre os dias 17 e 30 de outubro. Contudo, a maior concentração estava nos arredores da Paulista, onde se encontram as salas do Unibanco, Unibanco Artiplex (no Shopping Frei Caneca), Cine Bombril (no Conjunto Habitacional ao lado da Livraria Cultura), Cinesesc, Vão do MASP e Reserva Cultural. Neste ano, os valores dos ingressos para estudantes transitaram de 7 (de segunda à quinta-feira) a 9 reais - nas sextas, sábados e domingos. Aos que podem dispensar mais tempo e dinheiro com a Mostra, há sempre pacotes promocionais, mas que não são vendidos por preços promocionais para estudantes, o valor integral chegou aos exorbitantes R$390. Optei por não comprar pacote algum e contar com a sorte na venda de ingressos nos próprios cinemas.

Felizmente, a Mostra da Juventude, que acontece no Bombril todos os dias em duas sessões, às 10h e 14h, possibilita aos menos privilegiados ver boa parte das exibições da mostra competitiva. A entrada é gratuita e é gratificante encontrar as salas quase sempre lotadas. Ninguém fica de fora, já que na Juventude é permitido aos atrasadinhos assistir ao filme do confortável carpete no chão.

Um dos motivos que faz a experiência do cinema ser, ainda hoje, incontestável, está no cerne da coletividade. Como num show ou numa peça de teatro, há uma recepção do público – ainda que individualmente em significações distintas -, uma integração geral, há um conceito de “sala”, um sentido maior que é o do todo diante de determinada obra. E a obra se relaciona com esse todo. Como no silêncio prolongado, quando os créditos já subiam, em Sonata de Tóquio, de Kyioshi Kurosawa; ou os aplausos efusivos de Lóki – Arnaldo Baptista; ou, ainda, a total apatia e desinteresse pelo Varsóvia Sombria, do fotográfico de Wong Kar-Wai e Gus Van Saint, Christopher Doyle. Esse sentido de pertencimento, uma ação que deixa de se evidenciar apenas pelo seu hedonismo, mas na troca substancial de informações, de conhecimento, ou na própria necessidade de estar inserido num contexto social maior.

O cineasta Carlos Reichenbach; amor pelo cinema que se faz com o estômago

Honestidade e transparência

Em São Paulo, os próprios ambientes são propícios para a manifestação da cinefilia, seja nos cafés espalhados pela Paulista ou nos botecos de esquina – do tradicional Ibotirima aos requintados happy hours. Apaixonados correm atrás de ingressos, dando por vezes com a cara nos cartazes “esgotados”, buscando entre filas e programações uma nova possibilidade. A afobação, a luta pelo melhor assento, a decepção por uma péssima escolha. Esses elementos todos se parecem com um happening camuflado pelos eventos e catástrofes diárias da capital. Entre os skatistas contentes com o espaço das novas calçadas, os punks e suas mesmas calças rasgadas, os executivos cheios de malas e pressas, o trânsito incontido dos pedestres e da declaração exacerbada da democracia, diversidade e pluralidade, convive pacificamente a Mostra de Cinema. Que é megalômana em seus mais de 400 títulos, e ao mesmo tempo absolutamente insignificante diante da grandiosidade da própria cidade e de seus habitantes, que em sua massacrante maioria não fazem idéia do que se passa na sala ao lado.

Graças a uma credencial de malfadado jornalista, tive acesso às Cabines, aquelas famosas sessões especiais exibidas anteriormente para os jornalistas. Onde se podia ver para lá e pra cá um Luiz Carlos Merten, um Zanin, um Julio de Bezerra ou qualquer outro dos críticos que são lidos nos cadernos B ou nas revistas virtuais. Alguns, como o gentil Ubiratan Brasil, mostram-se até mais animados em trocar figurinhas sobre os últimos filmes vistos e as novidades. Contudo, melhor do que as próprias cabines – e algo que talvez tenha valido muito dentro da própria Mostra – foi a seleção de críticos e realizadores para integrar a programação “Os filmes da minha vida”. Foi quando, passando por acaso em frente ao anexo do Unibanco, assisti a uma palestra de Carlos Reichenbach, que já passava dos vinte minutos, sobre suas obras cinematográficas preferidas.

A sala, com menos de dez pessoas – entre elas, um técnico de filmagem e dois assistentes da Mostra – era confortável. Reichenbach falava com sua voz meio gutural vagarosamente e com um sorriso singelo. Parecia estar confortável, quase feliz. Falava com um prazer natural sobre cinema, sua paixão da vida, e sobre os dilemas e ocorrências vividas por tal sentimento. Foram duas horas de aula. Explanações de conceitos estéticos, citações imemoráveis, adoração à cultura oriental e exaltação do cinema japonês. Entre o monólogo, o realizador contou com sinceridade sobre suas experiências como espectador, como um de nós sentados ali à sua frente.

O diretor mostrou-se de uma honestidade singular consigo mesmo ao falar do seu amor pelo cinema que se faz com o êstomago, pois para ele, o filme tem de ser feito com um sentido. Deve responder a qualquer angústia incontrolável, nascer de uma necessidade de resposta. O cinema histriônico de auto-revelação é vexatório – referindo-se a Charlie Kauffman e os irmãos Coen -, pois vive de puro egoísmo. O mesmo não quer dizer que o cinema mainstream, de superproduções, seja falso em suas opções. Não é uma questão quanto ao método ou os gêneros cinematográficos, mas com a transparência do realizador e da coerência de sua obra; o cinema que é livre em quaisquer sentidos de representação, desde que seja livre de hipocrisia e afetação, em que a arte não se torna cega. Assim, as grandes obras se fazem com o estômago.

Falou também sobre a beleza que é a internet, ao permitir que se assista a filmes perdidos, a coisas que nunca seriam encontradas permanecendo intocáveis na memória. Por outro lado, também inferiu quanto à importância em se rever o cinema, descanonizar clássicos desbotados e compreender que em determinadas obras o tempo age de forma mais cruel. Portanto, uma reavaliação se faz necessária e prudente.Seriam mais horas de conversa, se o tempo permitisse. A sala, em que restavam apenas três sobreviventes, ficou bem mais quieta que no começo. Não ousei fazer perguntas, nem questionar. Fiquei tão intimidado com a sinceridade da coisa que mal pude pensar e refletir sobre ela. Fui só engolindo, um pouco invejado, querendo saber de tudo aquilo, conhecer e entender as operações que envolvem cinema com tamanha segurança. Foi radical, preciso e sem rodeios. Disse e desdisse o que quis, sobre quem quis: sem velar, nem conceder. Agraciou com mérito quem achou conveniente, não reteve na língua condecorações indesejadas. Ao mesmo tempo foi doce, sensível e fraternal. Referiu a nós como pares, respeitou as opiniões e, ainda assim, falou de si por duas horas com total consciência.

Na sexta-feira, com os devidos atrasados na programação – chuvas torrenciais que irrompiam nos finais de tarde, encontros fortuitos com amigos e familiares, enroscadas propositadas nos bares -, encerrei minha participação na 32 Mostra Internacional de Cinema com 12 filmes assistidos. Foram: Leonera, Os Adultos, Terra Firme Sob Nossos Pés, A Canção dos Pardais, Varsóvia Sombria, 24 City, Nuvem 9, Waltz With Bashir, Three Monkeys, Lóki – Arnaldo Baptista, Sonata de Tóquio e Homem de Lugar Nenhum. Destes, pude encontrar preciosidades e me envolver afetivamente – em sua maioria dramas familiares, as histórias giravam mais no entorno individual e das ações sociais presumidas na escala subjetiva. Vi películas ruins que fizeram o sono exercer força maior. Outros que foram facilmente esquecidos passados alguns minutos. Dois invejáveis e geniais. Mas de tudo, o melhor foi poder perder as amarras, os vícios, para ver cinema sem filtros e preconceitos. Questionando sempre se aquilo havia sido feito com o estômago.

*******************

Isaac Pipano, 21, é estudante de jornalismo da Unesp. Candidato a jornalista e escritor, misto de músico frustrado e crítico de brincadeira, dono de gargalhada constante e inflamada, são paulino só em dias de título e não assina seus próprios perfis.

E-mail: isaacpipano@gmail.com

*******************

Leia também:

. Em 24 City, Jia Zhang-ke aborda com engenhosidade a transformação na China subvertendo os paradigmas da verdade e representação, por Isaac Pipano.

. Bastidores de um curta-metragem: Revista Wave acompanhou o processo de criação do filme Reflexão, por Felipe Arra.

. Há quase uma década, Carlos Reichenbach usou a pequena cidade de Dois Córregos como inspiração para seu drama existencialista, por Gustavo Padovani.

Deixe um comentário