Opinião
Eleições municipais 2008
7 de Outubro de 2008 | por Revista Wave

Uma crônica sobre a participação popular nas eleições municipais e uma análise sobre os resultados dos grandes centros

por Daniel Faria

O Dia da vitória

Há muito de mal-gosto e/ou gosto-duvidoso nas eleições democráticas municipais do Brasil. Há de se rebater a vitória inconteste de alguns, há de se rebelar contra o analfabetismo político de parcela expressiva da população, há de se reclamar contra o fraco nível de opções. Mas, se há algo de incontestável nesse 5 de outubro, é a alegria popular ao votar e ver eleito seu candidato em um belo dia de exercício da democracia.

O leitor mais cínico poderá julgar desfavoravelmente minha ingenuidade e pieguice. Correto, eu faria o mesmo. Faria, caso não tivesse sido um dos cidadãos selecionados para trabalhar como secretário dos mesários da minha cidade, a pequena Gália, no interior paulista. Ali, na minha primeira eleição municipal, pude presenciar momentos emocionantes que só são comparáveis, em tão juvenil memória, a vitória da seleção brasileira em uma Copa do Mundo.

Julgar ou pré-determinar conceitos para todas as eleições do país usando-se como exemplo uma minúscula cidade de sete mil habitantes é, sem dúvida, uma irresponsabilidade. Correrei, ainda assim, esse risco, porque acredito na superioridade das semelhanças humanas sobre as particularidades regionais e também porque confio na minha análise de compreensão dos fatos.

Por tal motivo, confesso que, após um domingo longo, acordado muito antes do horário habitual – às seis horas da manhã, horário que, normalmente, costumo deitar-me na cama para tentar dormir – devendo estar presente na zona eleitoral às sete horas, e voltar para casa depois das cinco e meia da tarde, com um rápido intervalo de meia hora de almoço (o horário permitido foi de uma hora completa; nenhum dos mesários da minha seção se ausentou por mais de quarenta minutos), a sensação era de um trabalho efetivamente realizado.

A razão? Constatar que, após a escolha do candidato na urna eletrônica, a expressão de singela alegria do cidadão comum pela participação na política de sua cidade, foi de bela contribuição também para meu bem estar. Nisso, consigo distinguir esse fenômeno com maior freqüência em cidades menores, quando cada voto pode ser decisivo. Todos são iguais e todos têm o mesmo valor. Desde que o carnaval virou balé para gringo ver que aquela felicidade do pobre que Vinicius de Moraes e Tom Jobim imortalizaram em “A Felicidade” me parece cada vez mais transferida para as eleições. A política de hoje é o carnaval de outrora.

Quando os portões se abriram e as pessoas formavam filas logo às sete da manhã, notei que, maior que a obrigatoriedade do voto, havia motivação. As pessoas votavam e se reuniam no centro da cidade, à espera do resultado final. Há de se lamentar: dos quase quatrocentos eleitores que supostamente votariam em minha seção, cerca de sessenta não compareceram. E o número de justificativas eleitorais recebidas também não foi pequeno.

O que me interessa registrar no artigo, porém, é a imensa festa realizada por quase sessenta por cento da população que elegeu o candidato vencedor. Uma semana antes, a coligação derrotada organizara uma carreata para promover seu candidato. Espantou e assustou muita gente. O número de carros vibrando a vitória nesse domingo era cerca de dez vezes maior.

Estive em um desses carros, na carroceria da Montana do meu irmão, para ser mais exato. Como resultado da vibrante comemoração, machuquei o joelho após uma freada brusca, estou sem voz, o corpo todo dolorido, ligeiramente embriagado e ainda não tive tempo de recuperar o sono, visto que estou aqui, postado na frente de um computador e escrevendo as palavras que o leitor está a ler. Porque penso que é mais interessante captar o espírito da empolgação antes da racionalidade e o ceticismo dominarem minha já racional e cética concepção política.

Talvez amanhã eu esteja em freqüências diferentes e comece a ponderar os prós e contras. Talvez o intrínseco espírito crítico retorne e eu passe a desmoralizar essa democracia que estipula objetivos que fogem da capacidade analítica de um povo semi-analfabeto e deixa-se submeter a tantos interesses escusos. Talvez o futuro nos reserve decepções até maiores que a alegria do momento. “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar, voa tão leve, mas tem a vida breve”, escreveu o já citado Vinicius de Moraes.

Ainda assim, nada é capaz de afastar a minha alegria e a alegria de tantos amigos ou não, conhecidos ou não, unidos em prol de um interesse comum. Felizes são as cidades cujos prefeitos vencem pela maioria dos votos. Os céticos vão desprezar meu entusiasmo, os apartidários rirão da minha ingenuidade, os derrotados condenarão tanta felicidade. Que seja. Subvertendo o já-já-citado Vinicius, proclamo: “Felicidade não tem fim, tristeza sim”.

Um dia depois

Minha intenção inicial era preparar um especial sobre as eleições municipais e publicar minhas impressões aqui na Revista Wave. Mas, por ter trabalhado na seção eleitoral da minha cidade, acabei não tendo tempo (e estrutura psicológica suficiente) para escrever textos completos e informativos. Então, seguem-se impressões do editor-chefe de um site apartidário, mas nada imparcial.

. Estou preocupado com a performance de Gilberto Kassab no primeiro turno, surpreendendo a já garantida vitória de Marta Suplicy. Em São Paulo, a influência política de Lula não é tão absoluta assim. O que reforça sobremaneira as possibilidades políticas de José Serra – que apoiou Kassab - para o cargo de presidente do Brasil nas eleições de 2010.

. Quem sai desmoralizado é Geraldo Alckmin, em um claro exemplo de falta de sintonia partidária. O PSDB é, hoje, o partido mais destrambelhado da política nacional. Ainda assim, foi o terceiro partido mais votado no país (atrás do PMDB e do PT) e o segundo que mais elegeu prefeitos (781 eleitos, atrás apenas dos 1.149 do PMDB).

. No Rio, a surpresa foi a classificação de Fernando Gabeira para o segundo turno, ao lado de Eduardo Paes, do PMDB. Não é surpresa para o leitor mais antigo da Revista Wave nossa empolgação com Gabeira. Durante algumas edições, estampamos um banner criado pelo blogueiro Pedro Doria a fim estimular a candidatura de Gabeira para a prefeitura do Rio. Os esforços agora são outros. Nossa meta é ajudar na eleição de Gabeira para a problemática prefeitura do Rio de Janeiro. Somos quase todos paulistas, não temos nenhum colaborador carioca (o único que apareceu fez questão de frisar seu descontentamento com nossa “escolha política” e nunca mais deu as caras), mas acreditamos no clichê sempre associado a Gabeira: “a última reserva moral da política brasileira”. Clique aqui e Pedro Doria explicará melhor. Ou leia Caetano, o baiano fala bobagens supremas, mas também acerta. Ou clique na foto abaixo.

. De resto, interessante notar como siglas de partidos são quase irrelevantes longe dos grandes centros. O PT, por exemplo, concentra esforços nas capitais e principais cidades (funcionou: elegeram 11 prefeitos nas 79 cidades com mais eleitores no país e outros 11 estarão disputando o segundo turno), mas nota-se desleixo em municípios menores. O PMDB, por sua vez, ainda demonstra competência eleitoral para se firmar como o partido que elegeu maior número de prefeitos, mas que não resulta necessariamente em unidade e força política, já que não possui características e ideologias bem definidas. Já o PSDB elegeu 201 dos seus 781 prefeitos apenas no Estado de São Paulo. É o partido paulista por excelência, para o bem ou para o mal.

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Daniel Faria, 21 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz.

E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com

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Leia também:

. A história de César Benjamin, ex-militante e guerrilheiro e hoje um dos mais contundentes críticos da esquerda brasileira, por Daniel Faria.

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1 comentário

  1. natália diz:

    seu texto me fez sentir bem por nunca ter sido chamada pra ser mesária (apesar de as histórias serem sempre boas no final do dia) e me fez lembrar da reportagem da folha hoje, que fala que 28 municípios tiveram mais eleitores do que habitantes!

    a velha democracia!

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