Resenhas
Velocidade na meia-idade
6 de Outubro de 2008 | por Revista Wave
Em um mundo justo, o Metallica poderia encerrar a carreira após lançar Death Magnetic, um dos melhores discos de sua carreira
por Gustavo Padovani
Quando a carreira de uma banda atinge certa idade, surge um delicado período de auto-reflexão. É nesse momento que muitos grupos se sentem tentados a arquitetar sua “maturidade”, ao levar seu som a sério demais – principalmente se o mesmo passa a ser ouvido e avaliado por um maior número de pessoas. Após o estrondoso sucesso do disco de 1991 (popularmente conhecido como Álbum Preto ou Black Album), o Metallica se encontrava exatamente nessa posição.
A banda atravessou os anos 90 sob tutela de Bob Rock, um produtor que sempre pressionava mudanças de direcionamento da trupe, ao trocar a sujeira e a tosqueira de outrora por guitarras polidas, solos comedidos e baladas. Embora uma atitude aparentemente corajosa, os discos Load (1996) e Reload (1997) mostravam um Metallica burocrático e calculado, pronto para ganhar alguns milhões a mais. No entanto, os fãs se dividiram. Coincidentemente, vieram na seqüência um álbum duplo de covers (Garage Inc, 1998) e uma pomposa experiência com a Orquestra Sinfônica de São Francisco (S&M, 1999), como uma tentativa de reaproximação com o antigo som da banda.
Durante a gravação do álbum-crise, St. Anger (2003), James Hetfield procurou reabilitação do alcoolismo e o baixista Jason Newsted já havia se retirado da banda, deixando o instrumento a cargo do intrometido produtor Bob Rock. Muito criticado, o disco conta com instigantes riffs, mas eram aplicados à exaustão em músicas longas (e sem solos), somados a uma caixa de bateria com a pele quase solta e que soava como um botijão de gás. Já havia passado a hora de mudanças.
“Noite e o dia”
“Isso é praticamente a diferença entre a noite e o dia. Bob Rock é o tipo do cara que domina o estúdio. É o primeiro a chegar, o último a sair. Rick Rubin nos colocou no caminho para a essência da banda. Ele nos deixou por nossa conta”. Ao separar os métodos de trabalhos dos produtores, Bob Rock e Rick Rubin, o guitarrista Kirk Hammet, em entrevista para a Folha de S. Paulo, resumiu muito do que se pode esperar da banda em Death Magnetic, o recém-lançado novo disco do Metallica.
Pelas dez faixas do álbum, é possível ouvir uma banda tocando com vontade quase adolescente, mas com toda experiência adquirida nas décadas passadas. A maturidade que o Metallica um dia procurou chega somente agora. Quarentões, se reúnem sem vergonha de gritar, cantar sobre medo e raiva, fazer solos e retomar um elemento abandonado há alguns anos: a velocidade. E tudo isso vem acompanhado de uma produção enxuta e crua, em que Rubin substituiu os inconvenientes ecos das gravações oitentistas por um som mais espesso e balanceado (a bateria de Lars Ulrich que o diga).
Com exceção da chatinha “Cyanide”, é difícil apontar todos os pontos altos. Basta dizer que “All Nightmare Long” é uma das melhores músicas já compostas pelo Metallica, com dinâmicas, solos e passagens que a banda estava devendo há exatos 20 anos. Ao encerrar o disco com a virulenta “My Apocalipse” a sensação devastadora é a mesma causada por “Metal Militia” e “Dyers Eve”, músicas selecionadas para fechar, respectivamente, os álbuns Kill’Em All (1983) e …And Justice for All (1988).
Em um mundo justo, o Metallica poderia encerrar suas atividades após esse Death Magnetic, fechando com chave de ouro uma louvável carreira de uma banda que conseguiu justificar a pretensão de levar em seu próprio nome o gênero que ela mesma ajudou a formar. Até porque, ninguém precisa de mais uma “Unforgiven”.
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Gustavo Padovani, 22, pensava em fazer cinema e entrou por acaso em jornalismo na Unesp. Um brasileiro viciado em música, mas é desajeitado no samba e não torce para time algum. Como castigo, é acometido por incidentes improváveis.
E-mail: guspado@gmail.com
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6 de Outubro de 2008 às 17:28
Bom texto sr. Padovani… Concordo com tudo… Mas como você me roubou a resenha do Metallica, o próximo album do Radiohead é meu haha
7 de Outubro de 2008 às 2:43
Muito Obrigado, Daniell! Nutrimos diversas conversas sobre ele e chegamos em pontos comuns. Só acredito que você não esteja desejando o fim da banda, como eu. hehehe Eu defendo isso por uma causa justa: não gostaria de ver eles tornarem-se auto-paródia depois de um belo disco. O Radiohead é para você, meu caro!
7 de Outubro de 2008 às 6:14
Pior seria se alguém pedisse para resenhar o Smashing Pumpkins, hehehe.
7 de Outubro de 2008 às 11:34
Ou o Oasis…
7 de Outubro de 2008 às 13:42
Não há problemas! Faz aproximadamente 8 anos que o Smashing é merecedor de críticas!
17 de Outubro de 2008 às 14:33
Não, ninguém precisa de outra Unforgiven (mesmo a número 3 sendo melhor que a 2), hahahahaha. Sobre as músicas, esse de fato é o álbum que nós, fãs de Metallica (NÃO GENTE, NÃO VOU COMEÇAR ALGO PARECIDO COM O POST SOBRE O DIG OUT YOUR SOUL, hehehe), esperávamos no lugar de St. Anger. Não concordo quanto à chatice de Cyanide, que tem uma pegada bem interessante, que me lembra em alguns momentos The thing that should not be, do Master of Puppets, e complemento com a chatice de The day that never comes, uma tentativa mal-sucedida de misturar tudo que as boas músicas lentas do Metallica tinham: tenta englobar Fade to Black com Nothing Else Matters e One (a parte pré-solo) e sai aquele troço, que é a única que eu faço questão de pular na hora de ouvir o CD. Também não acho que eles devam parar, até porque eu ainda não vi um show destes filhos da puta! Hahahahah. E sobre músicas que fecham CDs, acho que melhor exemplo do que a não tão boa Dyers Eve seria Damage Inc., do Master of Puppets, que tem a mesma pegada insana de My Appocalipse, que na minha opinião é a melhor deste Death Magnetic, seguida pela incrível All Nightmare Long e That Was Just Your Life, com sua pegada meio Megadeth (uma “homenagem” engraçada ao ressentido Dave Mustaine, hahaha). Enfim, aprovado pelo crivo dos fãs ardorosos de James, Lars e Kirk (Rob ainda não merece tantos fãs, ponto. hahahah)