Cinema
Mulher sob influência
6 de Outubro de 2008 | por Revista Wave

Em seu filme de estréia, Zoe Cassavetes honra sobrenome herdado do pai John e realiza bom drama realista em Broken English

por Thiago Venanzoni

 

De fato, Nora Wilder, bem encarnada pela atriz Parker Posey, é a mulher que está sob influência de uma Nova York cruel e individualista. Depois de várias tentativas frustradas de conhecer alguém, ora largada por um ator formado na Melrose Place, uma alegoria do cotidiano de Hollywood – a conversa que os dois têm no bar mostra a crítica ácida de Zoe a respeito dos atores e dos filmes típicos de Los Angeles – ora por um recém divorciado que não consegue esquecer sua ex-mulher, Nora se vê desiludida com a vida, na altura de seus quase 30 anos.O título do filme, Broken English, filme de estréia da diretora Zoe Cassavetes, além de ser uma homenagem a Marianne Faithfull, começa a fazer sentido quando Nora é convidada a uma festa por um amigo. Na saída da festa, se depara com Julien, um francês que estava de passagem por Nova York. A desesperança em conseguir algo acompanhado da conquista do mesmo é freqüente na narrativa do filme. É a inspiração no mundo cotidiano, em que Zoe Cassavetes parece querer expressar: quando você já não conta mais com algo que deseja, muitas vezes o desejo então se mostra presente, real.

A relação de Nora com o francês é algo de absurdo nos dois dias que passam juntos. Primeiro, existe certo receio por parte de Nora, que acumula frustrações recentes. Logo, vira algo incontrolável, ao ponto dela expor suas fragilidades, seus remédios antidepressivos e sua crise de ansiedade. Julien volta pra França, e a vida de Norma então é influenciada por essa viagem. Ela larga o emprego, pois já não consegue se suportar dentro dele, e viaja a Paris atrás do rapaz.

Apesar do enredo sugerir situação típica do cinema de Hollywood, o que Zoe pratica é uma desconstrução do clichê, ao subverter a fantasia e o realismo. Nora não o encontra e perde as esperanças, depois de inúmeras conversas com estranhos na capital francesa. A montagem do filme conduz o espectador a perder as expectativas junto a personagem. Eles se encontram, mas Zoe traça outra vez um olhar realista, explicitado no diálogo final entre os dois.

A estreante Zoe Cassavetes; a influência mais óbvia de seu Broken English é a obra do pai

Herança genética
John Cassavetes é reconhecido, não sem méritos, como o pai do cinema independente dos EUA. Mais do que isso, criou um fluxo entre o teatro e o cinema poucas vezes visto no país. Não tolerava a representação bruta; antes, procurava extrair de seus atores as experiências que eles já carregavam, e a partir daí moldava seus personagens. O que John queria de fato era criar uma amálgama entre o ator e o personagem. Para tal, Cassavetes utilizava atores próximos a ele, amigos, familiares, a mulher, Gena Rowlands, e os filhos.Zoe Cassavetes, por exemplo, sempre conviveu com o estúdio de gravação como sua segunda casa, e chegou a “atuar” no papel de uma bebê no filme Assim Falou o Amor, de seu pai, lançado em 1971. Em Broken English, a herança cinematográfica de John Cassavetes na obra da filha é notória.

A narrativa, presa a uma personagem e a seus distúrbios psicológicos, talvez seja a maior influência, como John Cassavetes costumeiramente realizava, em Faces (1968) e Noite de Estréia (1977), por exemplo. Os happenings de determinadas cenas, seja com Norma sozinha, seja dialogando com outro personagem, e a câmera fixa que enquadra seqüências de diálogos, são outras semelhanças perceptíveis. Reproduzindo o teatro, para a mise-en-scène de seus personagens, muitas vezes serviam os cômodos de uma casa ou um cenário qualquer, já que John sempre deu maior importância aos diálogos e aos transtornos psicológicos das personagens do que a técnica pura do cinema.

Umas das características marcantes do cinema de John Cassavetes são os planos em primeira escala dos rostos das personagens, ao buscar traduzir por meio das feições ou mesmo da proximidade do quadro, algo além do físico, mais próximo da alma. Ele usava outros símbolos para conceber o tal sentido físico, como a bebida e o cigarro, alegorias fundamentais e sempre presente em suas obras. O que muitos teóricos e críticos do cinema, como Thierry Jousse, por exemplo, colocam como “a tríplice de Cassavetes” - a fuga, a alucinação e o álcool – ressurgem aqui. Sua filha também se identifica com o cigarro e a bebida, e em Broken English os dois objetos sempre surgem como um laço do enredo, em encontros e decepções.

E não é só Zoe que recebe essa herança cinematográfica de John Cassavetes em seu filme de estréia: de certa maneira, toda uma geração de novos cineastas surgidos nos últimos anos Hollywood sugerem similaridades. Fazer cinema sem restrições pode ser um dos lemas da obra de John Cassavetes, e aparentemente parece ser de Zoe Cassavetes, em seu début.

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Thiago Venanzoni, 21, é estudante de jornalismo, queria fazer cinema e ainda tem esperancas de fazer. Tem admiração por Hollywood, o que diz respeito aos independentes, como John Cassavetes e Sofia Coppola. Além disso gosta de rock, os velhos e alguns novos. E como todos que assinam o perfil na revista, não gosta do curso que faz.

E-mail: thiago_venanzoni@hotmail.com********************

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