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6 de Outubro de 2008 | por Revista Wave

A história e a vida de César Benjamin, ex-militante e guerrilheiro e hoje um dos mais contundentes críticos da esquerda brasileira

por Daniel Faria

Brasileiros de 5.567 municípios votaram no último domingo, dia 5 de outubro, para eleger seus candidatos, em um belo exercício de democracia. Democracia, conceito perigoso e incoerente naqueles perturbadores anos 70, quando o regime militar cassava mandatos eletivos, suspendia direitos políticos e prendia e torturava militantes de esquerda. Talvez um dos nomes mais emblemáticos do período seja o de César de Queiros Benjamin, o Cesinha, hoje cientista político e um dos pilares da esquerda do Brasil.

Nascido em 5 de maio de 1954, no Rio de Janeiro, 10 anos antes do Golpe Militar, Cesinha entrou para a luta armada clandestina aos 14 anos, provavelmente o mais jovem guerrilheiro da história do país. Alfabetizava camponeses no interior da Bahia quando foi preso, aos 17 anos. Era o início de momentos inesquecíveis na vida de um menor de idade.

Sofreu sérios abusos físicos nos interrogatórios. Ficou surdo de um ouvido após violentas pancadas de militares. Segundo lhe contara um oficial da Polícia do Exército da Barão de Mesquita, onde fora preso inicialmente, seu primeiro interrogatório durara cerca de trinta horas ininterruptas. Depois de torturado, foi recolhido a uma solitária e submetido a  completo e absoluto isolamento durante três dos cinco anos que passou na prisão, entre 1971 e 1976.

Diria depois que, por ser muito jovem e nunca ter presenciado a mudança de um ciclo político (era uma criança em 1964, sem muita capacidade de percepção para entender o golpe militar), estava convencido de que ficaria pelo menos vinte anos na pequena cela em que estava encarcerado. Preparado para isso, sua determinação e saúde mental diante de condições tão adversas surpreenderiam o psicanalista Hélio Pellegrino, que dizia que César só não enlouquecera “por ter uma cabeça muito boa”.

“Enquanto meus amigos viviam outras experiências, como o exílio, eu era confrontado com o silêncio. Isso me conduziu ao limiar de sentimentos e percepções que estão presentes na minha vida até hoje, para o bem e para o mal”, contou em entrevista ao jornalista e escritor Zuenir Ventura, para o livro 1968 – O Que Fizemos de Nós (Editora Planeta, 2008).

Natal militar
Em 1973, os militares comemoraram a morte de Salvador Allende, líder marxista chileno, dentro de sua cela. Foi o fundo do poço para César, que acreditava no Chile como o último bastião da resistência após os fracassos da guerrilha nos outros países da América do Sul, Brasil incluído. Parecia o fim da esperança, o pior momento da prisão.

Nesse período, também se recorda daquilo que chama de “gestos de grande humanidade”. Preso na Polícia do Exército da Vila Militar, César era abandonado nu em uma cela cheia de ladrilhos frios, sendo forçado a dormir em pé. Alguns soldados do cárcere, provavelmente comovidos, emprestavam mantas durante a madrugada, mantas estas que César devolvia antes do dia clarear.

No Batalhão de Manutenção de Armamentos, onde passou a maior parte do tempo em que esteve preso, uma comitiva de soldados acompanhados de um sargento e um tenente entraram em sua cela no Natal com uma bandeja. Era a ceia de Natal, que os soldados decidiram dividir com César. Comeu, faminto, em silêncio durante todo o tempo. Só se permitiu chorar quando os militares deixaram a cela.

Anistia e a vida política
Em 1976, foi exilado na Suécia. Por ordem do presidente Ernesto Geisel, provavelmente decidido a “não dar um mártir para a oposição” - impedindo que se concretizasse a ameaça de seqüestro de Cesinha por tropas militares que a Polícia Federal - foi montada uma operação para garantir a segurança do preso cuja libertação fora decidida por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal. Para não ser seqüestrado, Cesinha foi depositado num avião sem pisar o solo do aeroporto.

Voltou em 1978, antes da Anistia, animado com o avanço do movimento pela redemocratização e o ressurgimento do movimento operário, concentrado no ABC paulista. Eram as históricas greves de operários da indústria automobilística comandados pelo até então desconhecido Luis Inácio Lula da Silva. Junto com Lula, César foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o PT, onde militou ativamente até romper em 1995.

A desilusão de César para com o partido teve início após a fatídica edição do debate de Lula e Collor pela Rede Globo, famosa por desfavorecer claramente o candidato do PT. Após a exibição do debate, César liderou uma manifestação de protesto nos estúdios da emissora, com mais oito mil militantes. Dias depois, a decepção. Em encontro com Lula, o hoje presidente do país lhe confidenciava ter jantado com Alberico Souza Cruz, um dos editores-chefes do jornalismo da emissora, e juntos, teriam “derrubado três litros de uísque”. O ato pareceu indigno para César, que teria ouvido de Lula a justificativa: “Não vou brigar com a Globo, não é, Cesinha?”.

Após sérias acusações a direção do partido, inclusive a Lula, César iria romper oficialmente com o PT em 1995. No resto da década, se ocuparia da criação da Editora Contraponto, especializada em divulgar autores de esquerda, e publicou dois livros, A Opção Brasileira (1998) e Bom Combate (2004).

Voltaria ativamente a vida política em 2004, filiando-se ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), onde concorreu como vice-presidente da República do Brasil na chapa da senadora Heloísa Helena, nas eleições presidenciais de 2006. Romperia com o partido no mesmo ano, não sem antes realizar duras críticas, bem ao seu estilo franco e direto. Desbancaria com o PSOL em entrevista ao Jornal do Brasil.

“Não estou propriamente rompendo com o PSOL, pelo simples fato de que nunca fui do PSOL. Assinei a ficha, tempos atrás, a pedidos, para ajudar na campanha pela legalização da nova legenda, mas nunca militei no partido. Fui convidado para a posição de vice da Heloísa e aceitei. Mantive uma participação discreta, basicamente em debates em universidades e instituições, e tentei ajudar pessoalmente a Heloísa de diversas maneiras. Escrevi um documento programático de umas 60 páginas que terminou saindo em meu nome, pois a direção do PSOL é uma rara combinação de ignorância, truculência e arrogância”.

Também foi bastante criticado pelo PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) depois de afirmar que, caso o partido alcançasse a presidência, continuariam a pagar a dívida externa e não romperiam com o FMI. Teve seu nome envolvido em outra polêmica, quando não buscou as indenizações distribuídas pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça às vítimas da ditadura militar. “Não acho certo o estado me sustentar. Tenho capacidade de trabalho. Ter explicado isso aos meus três filhos e vê-los apoiar minha decisão valeu mais do que qualquer milhão”, explicaria, em contraste aos milhões recebidos pelos cartunistas Jaguar e Ziraldo.

Não é exagero dizer que César Benjamin, na sua condição de ex-militante e guerrilheiro, é dos maiores críticos da esquerda (ou no que a esquerda foi metamorfoseada nas últimas décadas) do país. Repertório e currículo para exercer tal papel, ele tem. César viaja fazendo palestras e passa no mínimo três horas por dia estudando, principalmente Marx, sua maior referência. É cientista político por formação e acadêmico e pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, além de um título de doutor honoris causa pela Universidade Bicentenária de Aragua, na Venezuela.

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Daniel Faria, 21 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz.

E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com

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2 comentários

  1. Ângelo Mathias diz:

    sou um profundo admirador de césar benjamin

  2. Heloiza Benjamin diz:

    Gopstaria de saber mais sobre a origem de César Benjamin, pois sou da familia Benjamin e todos que têm este sobrenome tem alguma relação de parentesco.

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