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Bastidores de um curta-metragem
6 de Outubro de 2008 | por Revista Wave
O diretor de fotografia Pedro Pipano (dir.) e seu irmão Isaac testam o equipamento: bastidores da criação do curta-metragem Reflexo (Foto - Daniel C. Ayub)
por Felipe Arra
O relógio marca sete horas e 12 minutos. Sábado chuvoso, uma equipe de 30 pessoas está de pé trabalhando. Correria, fios e eletricidade por todo o set de filmagens. A locação: Escola Estadual Urbana Christino Cabral, em Bauru, interior de São Paulo.
“Galera, vamos logo, eu quero todo mundo pronto pra ontem!”. Angelina não se cansa de gritar. A seu lado, Dona Cátia, a zeladora da escola, faz uma expressão do tipo “como grita essa menina, meu Deus”.
Giuliano é mais comedido que a amiga, mas não menos empenhado: “Vamos lá, turma”.
Pedro não sai de perto da câmera. Parece um menino que acabou de ganhar o sonhado presente de Natal. “Gente, eu quero todo mundo pra fora, menos os atores. Vamos, vamos!”.
Os três formam um time entrosado. São antes de tudo amigos, cúmplices na paixão pelo cinema, que compartilham há três anos e meio, quando ingressaram na UNESP de Bauru para cursar Rádio e TV.
Este semestre é o último dos garotos na Universidade, a ser encerrado com o trabalho de conclusão, em grupo: o curta-metragem Reflexo. O filme tem estréia marcada para dia 3 de novembro em Bauru, e a produção tem negociado a exibição em salas de grande porte da cidade.
Luzes, cabos, maquiagem, monitor, extensão, áudio. A produção experimental de baixo custo - “Baixo não, baixíssimo”, diria Angelina Trevisan, a produtora sangue quente - demanda muito esforço, muito planejamento, e uma boa ajuda dos amigos.
Seria humanamente impossível fazer todo o trabalho que envolve a produção de um filme em três pessoas, seja um curta, média ou longa metragem. Assim, o trio contou com a ajuda de amigos, pais e irmãos para toda a produção. Desses, ninguém ganhou nada com o esforço, exceto a satisfação de contribuir para o trabalho de quem gostam. Gente que puxou fios, tomou choque, dormiu no chão, passou mal do estômago, carregou equipamento e fez figuração. Sempre levados pelos gritos de Angelina: “Vamos logo!”.
Porém, ainda mais difícil que organizar os amigos é conseguir apoio financeiro. “Realizar um filme com orçamento restrito, sem equipamentos próprios não é fácil. Mas tivemos bons apoios na cidade de Bauru, que nos ajudaram emprestando equipamento e ajudando a minimizar nossos gastos com o filme. Conseguir patrocínio de instituições privadas ainda é muito difícil em cidades interioranas e sem o apoio de leis de respaldo fiscal”, diz Angelina.
Ela, Giuliano Gerbasi e Pedro Pipano se preparam desde o começo da faculdade, cada um dentro de sua especialidade, para aquilo que o último chama de “brincar de fazer cinema”.
A idéia original do curta-metragem surgiu há dois anos, de um roteiro escrito por Giuliano, o diretor. “Ele sentiu uma imensa vontade de executá-lo. Então decidimos filmar seu roteiro e, desde então, a idéia inicial passou por diversos tratamentos, até a versão final que foi gravada”, conta Pedro, o diretor de fotografia.
André é um estudante do ensino médio que se apaixona por uma menina mais velha, mas não sabe como lidar com isso. Seus conflitos internos conduzem a narrativa, em planos abertos, de diálogos simples, quando não silenciosos. As influências nada modestas do diretor e sua equipe ficam escancaradas: “Gus Van Sant, Andrei Tarkovski, Michelangelo Antonioni etc.”
Os atores do curta-metragem são todos alunos da UNESP de Bauru, alguns na primeira experiência de atuação. Felipe Teram, que cursa o terceiro ano de Relações Públicas, vive André; Gustavo Padovani, cursando Jornalismo, também no terceiro ano, que encarna Fábio, o amigão do protagonista; e por fim, Amanda Destro, a garota-motivo de angústia de André, faz Psicologia.
O trabalho dos atores, especialmente de Felipe (que tem experiência em teatro), foi de fundamental importância para a concretização das idéias da equipe. Entrar de cabeça no universo confuso de um adolescente tímido, cheio de conflitos internos, não é tarefa fácil, e o diretor Giuliano teve papel fundamental durante a preparação. “O ator conduz e capta a maior parte da atenção do espectador durante a narrativa, às vezes tem a difícil missão de demonstrar, com pequenos olhares e gestos, sentimentos complexos. Na verdade, acho que não se trata de demonstrar alguma coisa e sim ser”, ele opina.
André é retraído, incerto, e a escolha da personagem se justifica, segundo Pedro Pipano. “Filmar a história de um garoto do colegial apóia as questões existenciais presentes no roteiro, elas se tornam mais reais e coerentes.” Em contrapartida, Fábio, o amigo do protagonista, é uma figura simpática, um tanto desbocado, que parece transmitir a André as dúvidas que este gera ao espectador: “Cuidado pra não endoidar de vez”. O companheiro, porém, pouco ajuda André a entender a si próprio.
As filmagens ocorreram em duas etapas: a primeira, de 31 de agosto a sete de setembro, em Bauru e Botucatu; a segunda, nos dias 12, 13 e 14 do mesmo mês, apenas em Bauru. O trabalho rendeu mais de duas horas de material gravado, todo ele em câmera digital, cedida pela Unesp.
Tanta angústia e incerteza de André em forma de imagem não renderia um média-metragem, ou até mesmo um longa? Para os produtores, a resposta é negativa. “Primeiro, porque é perfeitamente possível contar a nossa história em quinze minutos. Mais do que isso ficaria chato e redundante. Segundo, porque o mercado audiovisual de curtas-metragens no Brasil é muito bom, mas ainda pouco explorado. Um curta nos possibilita participar de festivais nacionais e internacionais, para melhorar nosso currículo e realizar um longa-metragem.”
A parte mais difícil do trabalho ficou para trás. Os trilhos do travelling, as milhões de partes da grua (que movimenta a câmera), cabos, luzes, já foi tudo devidamente empacotado e devolvido. Agora vêm a edição e toda a pós-produção. Os amigos de Angelina estão muito mais tranqüilos, já que não têm mais de ouvir os incontáveis berros de “Silêncio!” durante dias inteiros. Agora apenas esperam, ansiosos, pelo resultado.
Se a qualidade do produto final tiver a metade do tamanho da ambição da equipe, Reflexo já é um sucesso.
Reflexos

Detalhe da equipe de produção durante a filmagem; ao fundo, de mochila, André (Felipe Teram), o protagonista (Foto - Isaac Pipano).

Trabalho em equipe pelas ruas de Bauru (Foto - Natália Torres).

Responsável pelo som, Vinícius Alvares (esq.) conversa com o diretor Giuliano Gerbasi durante as filmagens em Botucatu (Foto - Daniel C. Ayub).
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Os atores Felipe Teram e Amanda Destro (Foto - Daniel C. Ayub).
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Felipe Arra, 22, deveria ser lateral-esquerdo da seleção brasileira, mas não chegou nem perto. O fracasso no futebol deixou sequelas mentais: virou torcedor fanático do Newcastle, da Inglaterra. Faz faculdade de jornalismo, mas já aprendeu muito mais com Richard Ashcroft, Woody Allen e José Saramago do que com todos os seus professores juntos. E-mail: felipaines@gmail.com
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Leia também:
. Guia Skol Beats 2008, por Gustavo Padovani.
. Sexo virtual e a individualidade, por Gustavo Padovani.
. Caymmi, joga a rede no mar; uma homenagem da Revista Wave ao falecido compositor baiano, por Carol Bataier.


8 de Outubro de 2008 às 1:08
Ai adorei!!!!!!!!!!!
15 de Outubro de 2008 às 19:43
Realmente, tem muita gente que quer e que torce pra que este curta dê certo… excelente matéria, senhor Oasis!
30 de Outubro de 2008 às 3:43
Cara, que daora. Deve ter sido muito bom acompanhar o trampo, ainda mais pelas pessoas envolvidas.
Ps. adorei a descrição do perfil do felipe arra.
beijo