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Skol Beats 2008
26 de Setembro de 2008 | por Revista Wave

Além de selecionar as melhores atrações do festival, esse guia é uma pequena panorâmica na imensidão desconhecida da música eletrônica

por Gustavo Padovani

O fator que diferencia o Skol Beats de outros festivais é o desafio de montar anualmente em São Paulo uma programação com artistas que são realmente significativos em um gênero regido pela velocidade. Por utilizar-se de mixagens, reproduções e composições, os DJ’s exercem a função de ávidos pesquisadores de novidades musicais, cujo rumo do trabalho pode ser avaliado positiva ou negativamente, em um espaço de tempo muito menor do que qualquer outro ramo musical.

Essa procura pelo refinamento musical atende a uma lógica inversa – e pouco compreendida – do mercado fonográfico, pois muitos dos artistas que estão no festival não alcançaram visibilidade apoiada em seus álbuns. O sucesso é determinado pela qualidade (e quantidade, conseqüentemente) das apresentações, das mixagens e, por último, pela criação de faixas avulsas que podem animar pistas do mundo todo.

Em seus 8 anos de existência, o Skol Beats sempre tentou realizar um apanhado equilibrado da música eletrônica e a edição deste ano é, no mínimo, a mais democrática. No exato momento em que roqueiros e indies irão conferir o maior representante de electro-rock mundial, o Justice, clubbers e entusiastas podem curtir o som de um dos principais nomes da cena techno francesa, o Agoria. E se nenhum dois apetecer, ainda tem a deep house sensual do italiano DJ MRF.

Essa diversidade tem participação direta do público: durante os meses de julho e agosto, houve votações pela Internet para preencher cada uma das 24 atrações, entre nomes nacionais e internacionais. Infelizmente (e coloque muita infelicidade nisso), a dupla Soulwax foi uma das escolhidas, mas não pode comparecer devido a um problema na agenda.

Diferente das ideologias de escapismo bucólico promovido pelas raves em todo país, o festival está implantado no coração da maior cidade da América Latina. Esse caráter urbano dá uma impressão mais familiar e convidativa aos que querem se arriscar no expansivo mundo da música eletrônica. Se você for um deles, aqui abaixo está um guia com as atrações imperdíveis em uma noite de escolhas difíceis dividas em três tendas: Palco, Tenda Terra e Tenda Skol Beats.

Palco

Mixhell 22:00 – Além de possuir uma grife, o ex-baterista do Sepultura, Iggor Cavalera tem um projeto de música eletrônica criado em parceria com sua amada Laima Leyton. O Mixhell se propõe a criar uma ponte entre o funk carioca (e conseqüentemente, o miami bass) com as batidas descoladas do electro rock/maximal de nomes como Soulwax e MSTRKFT. As apresentações ao vivo também contam com uma bateria tocada por Iggor duelando com as pick-ups, como ocorreu na edição passada do Skol Beats. Embora o Mixhell ainda não tenha encontrado sua personalidade nas composições e não tenha feito poucos remixes de relevância, vale a pena conferir os esforços do duo para construir um set energético, preparando o terreno para uma das grandes atrações da noite.

Justice 23:00 – O ressurgimento do electro - e suas vertentes - no cenário eletrônico em meados desta década, tornam alguns artistas do gênero conhecidos fora do espectro eletrônico. Se o David Guetta conseguiu impregnar seu electro house nas rádios com hits como “Love Is Gone” e “The World Is Mine”, o Justice fez o mesmo papel com o mundo do rock ao criar “D.A.N.C.E.” e “Never Be Alone”. O Duo francês formado por Xavier de Rosnay & Gaspard Auge já passaram despercebidos no Brasil em 2005 quando, além de não possuírem a popularidade de hoje, apresentaram-se no mesmo dia do festival Claro Que É Rock. Para quem não conhece o som do Justice, basta ouvir o disco de estréia, Cross, para perceber que trata-se de uma criativa mistura: um festival de sintetizadores distorcidos, samplers extraídos dos filmes de terror, o baixo do Chic e um tempero metaleiro. Se depender dos shows realizados no festival norte americano Coachella deste ano, não há dúvida que essa será uma das melhores apresentações do Skol Beats.

Justice tocando “D.A.N.C.E.” no Coachella 08

Digitalism 03:00 - Se fosse formulada uma tipologia na música eletrônica, três grupos poderiam ser definidos de imediato: há os artistas que criam ótimas faixas, há aqueles que realizam ótimos remixes e há aqueles que conseguem realizar os dois com maestria. A dupla alemã Digitalism entraria, sem dúvida, na segunda categoria. O álbum de estréia chamado Idealism contém algumas boas faixas como “Pogo”, “I Want I Want” e “Digitalism In Cairo”, mas ficam aquém da especialidade da dupla: os remixes. Para confirmar, basta ouvir a versão subversiva da afetada “(Far From) Home” do Tiga ou os músculos que a fraquinha “Skip To The End”, do Futureheads, ganhou. É bem provável que a dupla recheie seu set com as regulares músicas próprias, mas independente disso a alegria da parcela indie do festival está garantida.

Armin Van Burren 04:30 - Cinco anos após entrar no páreo do ranking de DJ’s mais disputado no mundo (feito pela Revista DJ MAG), o holandês Armin Van Burren conseguiu alcançar o primeiro lugar em 2007. Assim como seus companheiros Tiësto e Paul Van Dyke, Armin vem da escola techno/trance que predominou o mundo eletrônico no final da década passada. Aproveitando o momento de alta visibilidade, ele acaba de lançar Imagine (2008), um álbum recheado de influências de electro, minimal e techno e muitas melodias vocais – o que dá um apelo pop e radiofônico para as faixas. É uma ótima chance para ver o set autoral de um DJ que conseguiu atravessar mais de uma década fazendo trance e incorporando outras influências, sem descaracterizar seu som.

Gui Boratto 07:00 – No ano passado, Gui Boratto ganhou destaque pelo excelente Chromophobia (2007). Diferente da virulência do techno demonstradas em seus sets nos anos 90, o DJ construiu harmonias sensíveis e texturas limpas, assemelhando-se ao electro dupla alemã Booka Shade. Preocupado em dar vida e valorizar as melodias, o DJ fará no Skol Beats a estréia de novo formato orgânico para o palco: no lugar das pickups, entram sintetizadores, teclados e um baterista. Nada melhor para fechar as apresentações do Palco Skol Beats e valorizar o clima intimista - mas dançante - de seu interessante trabalho.

Gui Boratto se apresentará pela primeira vez com sintetizadores, teclados e bateria

Tenda Terra
Renato Cohen 2:00 - Dono de um techno pesado e funkeado, Renato Cohen é figura carimbada nesse festival. Mas esse ano torna-se a atração mais aguardada da Tenda Terra, pois está prestes a lançar Sixteen Billion Drum Kicks, o aguardado álbum de composições próprias. Com certeza, faixas do novo disco irão rechear o set do paulistano que já comanda as pick-ups há 14 anos.

Christian Smith 04:00 - Esse grande nome do tech-house é conhecido por habilidade rara: ele toca com três pick-ups ao mesmo tempo. Só isso seria um bom motivo para vê-lo ao vivo, pois significa que ele consegue administrar três faixas diferentes ao mesmo tempo para mixá-las em seu set. Mas Christian também é um excelente produtor e seu último disco Flyertalk (2008) foi bem elogiado na crítica especializada e por outros DJ’s conhecidos, como Carl Cox e Sasha.

Propulse 06:00 - Por ser um dos pioneiros do país em apresentações Live P.A (apresentações em que toda a música é composta ao vivo) e estar presente em quase todas as baladas do país, Fabiano Zorzan (o nome por trás do Propulse) ganhou respeito e construiu seu próprio selo, o Transmit Music. Suas intrigantes composições são feitas com sintetizadores misteriosos, seqüenciadores hipnóticos e batidas esparsas extraídas do minimal. O Propulse provavelmente fará uma apresentação que dificilmente vai deixar alguém parado às seis da manhã.

Tenda Skol Beats

Agoria 22:00 - Ao lançar o engenhoso Cult & Cute (2005), Agoria chamou atenção pelo engenhoso set que costurava trilhas sonoras do Angelo Badalamenti, Radiohead, Iggy Pop, electro house e techno. Assim como seus conterrâneos franceses Vitalic e The Hacker, ele é um dos nomes que transita no universo rock e pop com facilidade, tendo trabalhado com Peter Murphy (Bauhaus), Princess Superstar e Neneh Cherry. Atualmente é um dos nomes mais respeitados da cena eletrônica francesa e promete uma apresentação intensa.

O Dj Francês Agoria: misturas inusitadas e muita criatividade

Dubfire 01:30 – Ali “Dubfire’ é uma das metades da também reconhecida dupla iraniana Deep Dish. Mas diferente do progressive house de seu duo original, o trabalho solo deste DJ é constituído por batidas hipnóticas e obscuras linhas de sintetizadores graves, flertando com gêneros como o minimal e o techno. É fácil imaginar o transe que faixas como ”Roadkill” e “Ribcage” poderão gerar no set desse DJ.

Steve Angello & Sebastian Ingrosso 03:30 – Um das duplas mais conhecidas do mundo eletrônico chega ao Skol Beats com um hit nas costas: o remix de um clássico da dance music dos anos 90, “Show Me Love” da cantora Robin S. Conhecida por camadas e camadas de loops, linhas de sintetizadores típicas do electro e vocais filtrados pelo computador, a sonoridade do duo deve funcionar muito bem na seqüência do Dubfire.

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Gustavo Padovani, 22, pensava em fazer cinema e entrou por acaso em jornalismo na Unesp. Um brasileiro viciado em música, mas é desajeitado no samba e não torce para time algum. Como castigo, é acometido por incidentes improváveis.
E-mail: guspado@gmail.com

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1 comentário

  1. gabriel diz:

    Cara, vc é muito bom nisso. Eu esqueço, e sempre me surpreendo.
    abraço.

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