Literatura
O mènage da contracultura
26 de Setembro de 2008 | por Revista Wave
Antes dos beats e de Clarah Averbuck, Henry Miller é a grande referência da literatura individualista e marginal
por Daniell Marafon
Conheci certa vez uma garota que amava um belo palavrão meticulosamente inserido em uma frase. Lembro claramente de me sentir incentivado a aplicá-los de maneira seca e arrebatadora, sem perder a finesse narrativa, é claro. Hoje vejo que me é impossível esquecer aquele riso malicioso que antecedeu a glória de um instante, exatamente quando disse “Aquele sodomita é um viadinho do caralho”. Naquele momento, percebi como as peças se encaixavam entre a obscenidade poética, os relances sutis e sexuais, e a acidez e violência em minha fala e linguagem corporal.
As palavras saiam da minha boca em um som mais afônico, sem métrica e discordante, como o estalo do beijo de Judas nas minhas genitais. Ali, enquanto o dedinho de minha mão esquerda lentamente roçava naquelas coxas e os outros dedos gritavam para mergulhar naquela carne macia e roliça, eu senti um choque que me fez soltar aquele olhar típico masculino: agora é a hora da putaria. E assim, antes da colisão amarga de lábios de cerveja e dentes secos rangendo, um homenzinho veio a minha cabeça, não muito alto, quase calvo e de óculos, usando um terno e fumando. Foi assim que eu, ela, e Henry Miller fizemos um ménage à trois em minha cabeça.
Fiquei intrigado por dias do porquê o escritor nova-iorquino de linguagem abusada ter surgido naquele exato momento que antecedia a conquista. Para sanar as minhas dúvidas, me joguei em uma leitura desenfreada dos Trópicos e de sua santa trindade – a Rosa-Crucificação, composta por Sexus, Nexus e Plexus. Foi nessa sentada, entre as polêmicas do meu artigo sobre André Breton aqui na Revista Wave e as oscilações de minha medíocre vida pessoal, que eu sintetizei os primeiros esboços da estética tão singular de Miller e me propus a analisar as sementes que germinaram como resultado de sua obra.
Marginal
Vejamos. Nascido em 1891, em Manhattan, e de descendência alemã, Henry Valentine Miller ingressara, aos 18 anos, por 2 meses na Universidade City College of New York, abandonando a vida universitária ao se rebelar contra os métodos educacionais vigentes, seguindo então uma vida marcada por um extremo nomadismo que o levaria a percorrer o Oeste americano em 1913. Após trabalhar em ranchos para se sustentar e escapar da vida na Big Apple, retornaria após um ano a Nova York, assumindo um cargo na loja de alfaiate de seu pai.
Já em 1917, com 26 anos, casaria com a pianista Beatrice Sylvas, que trairia anos depois com sua segunda esposa, June Edith Smith, uma das figuras femininas que mais marcaram o escritor, principalmente em relação aos incentivos financeiros para suas atividades literárias. Apesar de ter escrito o seu primeiro livro, Clipped Wings, em 1922, e sua segunda obra, The Gentile World em 1928 (ambas não traduzidas para o português, logo indisponíveis em nosso mercado), a primeira publicação só viria em seu período ‘parisiense’, ao vagar pela França (mas estabelecido em Paris a maior parte do tempo) de 1930 até o começo da 2ª Guerra Mundial.
A figura mais relevante nesse período é a da escritora portuguesa Anais Nin, com quem Henry teve um longo caso. O que é importante nessa relação, em termos literários, é o fato de Anais ter sido a primeira defensora e apoiadora de Miller para o publicação de Trópico de Câncer (que pode ser facilmente encontrado em várias edições aqui no Brasil, incluindo a horrenda tradução e cheia de erros de tipografia pela Editora Globo).
Nesse momento, podemos parar a digressão biográfica e monótona sobre o autor para começar a traçar os primeiros esboços de seu trabalho: uma das primeiras coisas que percebemos ao correr pelas páginas do Trópico são os cortes abruptos entre capítulos sem numeração, separados apenas por grandes espaçamentos em branco no texto, seguido também da linguagem direta e em 1ª pessoa, com leves toques de uma poética que foge e se esconde no emaranhado de situações boemias e marginais. O mais interessante é observar como o escritor nova-iorquino antecede o movimento Beatnik, demonstrando traços em sua escrita que seriam marcantes quase 40 anos depois em Kerouac, Bukowski e Burroughs. Os principais elementos estão ali - a descrição livre e urbana, o amor pela sincera decadência moral, a contemplação dos segredos da carne e da vulva, o nomadismo, as agruras da vida daqueles que fazem muito com o pouco que tem para viver e os cortes temporais abruptos e desnorteantes.
Em um momento em que reinava os ‘ismos’ (surrealismo, cubismo, futurismo etc.), Miller arregaçou as mangas e contemplou uma arte voltada a si mesma e que queimava no centro fulguroso de seu próprio ego. Baseada em um relato sincero, mas com traços ficcionais e uma ardente vontade de viver e desemaranhar o mundo afetivo, social e político que o cercava, Henry criou uma obra totalmente livre de pressupostos ideológicos que marcaram tão fortemente a primeira parte do século XX. E essa mesma voz sincera do ego é a que tempera tanto os Beatniks quanto Miller, ao nos fazer relembrar as palavras de Poe na coletânea de seus comentários anotados nas margens de seus manuscritos e livros, intitulado de Marginalia:
“Se apraz algum ambicioso revolucionar, de uma só vez, o mundo inteiro do pensamento, da opinião e do sentimento humano, eis o que lhe dará o poder de chegar a esse fim. […] Bastar-lhe-á escrever e publicar um livro, bem pequeno, cujo título será simples e formado de algumas palavras despretensiosas: “Meu coração posto a nu”. Mas é preciso que esse livrinho cumpra todas as suas promessas. […] Nenhum homem jamais ousará escrever; nenhum homem poderia escrevê-lo – ainda que ousasse -, pois o papel se amarfanharia e pegaria fogo ao simples contato de sua pena inflamada”[1]
Baudelaire, seguindo o comentário de Poe, escreveria um dos primeiros trabalhos de poesia em prosa, chamado exatamente de Meu Coração a Nu, demonstrando em seus pequenos versos o mesmo espírito seco e direto que Miller e os Beatniks desenvolveriam em sua narrativa. Claro que nesses três exemplos de uma literatura voltada para um fluxo de pensamento sincero, uma descrição real dos acontecimentos é balanceada por outros elementos ficcionais que trabalham a favor de criar uma estética sustentável, uma uniformidade na composição narrativa. Sem esse esmero em misturar doses de ficção com realidade, a ponto de não podermos distinguir o que é fato daquilo que não passa de devaneio, é que reside a força de Miller e a geração Beat.
Mas o que os separa é exatamente a ressalva histórica que eleva Henry Miller em comparação a sua progênie norte americana de escritores bastardos e viciosos . A geração Beatnik, saída de um mundo dividido pelas ideologias, resolve procurar criar um universo só seu, longe da política e das regras vigentes, o grito da contra-cultura formando uma voz uníssona e aberra, como o choro angustiante de uma criança recém-nascida. Já Miller nos traz essa mesma cultura obscura, aproximadamente 40 anos antes, justamente em um período em que o conservadorismo social e religioso se impunha vigorosamente.
Se lembrarmos que o Trópico de Câncer se passa inteiramente na década de 30, ficaremos chocados com a ousadia do escritor americano em retratar situações que envolvem doenças venéreas, homossexualismo e outros comportamentos considerados “anti-sociais”. Se Burroughs, em sua primeira obra, Junkie, discute sua relação com as drogas, e Bukowski, em Cartas Na Rua, com as agruras de um homem com a bebida, a jogatina e a labuta diária, Miller se foca nos deleites do sexo e do nomadismo, conseguindo derrubar seus adversários com um nocaute histórico, potencializando sua prosa ao inserí-la em seu contexto histórico – e que é facilmente constatado através dos diversos processos judiciais e proibições de publicação de seus livros em diferentes países.
Apesar do reconhecimento de várias figuras na literatura (incluindo o grande crítico e ensaista germânico/brasileiro, Otto Maria Carpeaux), seu primeiro e único prêmio viria apenas em 1970, 10 anos antes de sua morte em Pacific Palisades, na California. Talvez o fato do pouco reconhecimento de Miller em comparação a Geração Beat é que o mesmo nunca tivera uma geração de leitores que, a procura de uma voz para desembainhar seus pensamentos, não se espelharam em sua revolta para tentar moldar um mundo novo. Pelo contrário, Henry Miller tateara pelos becos mais escuros, em tempos que sua voz saída das cloacas parisienses era motivo de náusea e embaraço.
O herói Miller
Finalmente, toda essa questão me obriga a digressar sobre uma escritora brasileira contemporânea, que se diz muito influenciada pelos Beatniks – a ignóbil Clarah Averbuck. Sim, eu me prostrei na frente do computador e fiz o download de seu primeiro livro (disponibilizado pela editora Conrad), Máquina de Pinball, e o li. Ela segue a exata fórmula de incorporar traços autobiográficos com elementos ficcionais, seguindo uma linha narrativa muito parecida com a de Charles Bukowski. Nesse ponto podemos dizer que a autora consegue acertar, utilizando jargões modernos e uma literatura fluída o suficiente para acreditarmos que estamos participando de um fluxo de pensamento de uma jovem contemporânea e liberal.
Mas as críticas positivas se encerram nesse breve comentário. Averbuck tenta e acerta na fórmula, na estrutura das frases e na velocidade do texto, mas falha quando se trata de relevância e profundidade. Isso acontece porque a capacidade de Clarah em trabalhar com elementos ficcionais e reais são limitados, principalmente pela tentativa em recriar um texto Beat, dando a impressão que a obra não possui nenhuma relevância literária, no sentido que suas descrições são mediocremente semelhantes a textos que já tenhamos lido, experiencias vividas por nós ou eventos testemunhados diariamente ao sair da boca de algum(a) garoto/garota mimada com pretensões pedantes e artísticas.
Existe toda uma concepção voltada para o romantismo ‘junkie’ no melhor estilo “Sid & Nancy”, e exatamente por Averbuck fazer parte dessa crença que sua mensagem se banaliza. Uma mulher que diz que engole porra, toma anfetaminas e que gosta de homens de maquiagem poderia assustar minha pobre avó, mas em tempos de internet e liberalismo, nenhum desses comentários que teriam impacto 30 anos atrás nos causa incômodo. Pelo contrário, gera até mesmo um certo tédio e cansaço nessa tentativa de uma literatura que parece querer nos forçar a um choque, mas que nada surpreende a faixa de leitores brasileiros a qual o livro está voltado (jovens entre 18 e 35 anos). Falta sensibilidade no texto, revelação, surpresa, e acima de tudo, talento. Teria sido mais fácil ligar um gravador e deixar Clarah Averbuck falar qualquer coisa que lhe viesse na cabeça do que derrubar algumas pobres árvores para imprimir essa estúpida obra. Pelo menos 81 páginas são rápidas em serem lidas.
Mas afinal, o que a senhorita Averbuck tem em comum com Miller e os Beats? Ora, o que vemos aqui é a própria evolução da literatura de contra-cultura, surgindo no início século XX até os seus últimos suspiros no século XXI. Temos primeiro Miller, despontando com seus comentários em um período histórico em que haviam pouco artistas e intelectuais que agiam tão violentamente contra as bases religiosas e políticas. Depois a Geração Beat, quando a contra-cultura fora abraçada por uma geração de jovens que queriam virar o mundo de cabeça para baixo e quebrar com os paradigmas impostos por uma cultura patriarcal e belicosa. E finalmente Averbuck, a figura que é o exemplo vivo de que deveríamos retirar a palavra “contra” de contracultura, pela aceitação social e mediocridade em que se encontra. Assim sendo, podemos dizer que o verdadeiro herói é Henry Miller, que estava isento de qualquer necessidade histórica em realizar a sua obra (diferente dos Beats), livre por não fazer parte de nenhum movimento literário e por não ter defendido e copiado nenhuma estilística passada (como Clarah Averbuck).
Assim, me dou por satisfeito e pago meus tributos deletando Máquina de Pinball de meu computador (para todo sempre); guardando os livros de Burroughs, Kerouac e Bukowski na estante e me deitando para ler as páginas finais de Sexus enquanto anseio secretamente pela próxima ménage entre eu, uma vulva e Henry Miller.
[1] POE, Edgar Allan - “Excertos da ‘Marginalia’” em “Edgar Allan Poe – Ficção Completa, Poesias e Ensaios” - Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2001 (4ª Impressão, pág. 997)
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Daniell Marafon, 22, é arrogante, pretensioso, egocêntrico e sarcástico – heranças do curso de Filosofia na Unicamp. Músico limitado, desenhista de rabiscos duvidosos, fumante compulsivo e escritor de sórdidas narrativas, atualmente não passa de um pobre e solitário fotógrafo, protótipo de Peter Parker sem teias.
E-mail: daniellmarafon@gmail.com
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Leia também:
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. Lírica, urgente, vanguardista e revolucionária, a poesia de Maiakóvski entoou a Revolução Russa e era reflexo (ou extensão) de sua própria vida, por Cesare Rodrigues.
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1 de Outubro de 2008 às 10:04
Há de se dizer que, ”antes de mais nada é preciso sofrer…”, e onde está o sofrimento necessário? “Pois aqueles que procuram multidões não são nada sozinhos”. “Não esperam solidão, não entendem solidão.”
Averbuck, próximo ao epicentro do ego de Miller, é um girino, limpo como um embrião na sarjeta de Bukowski.
O caminho para se transformar em um ”Rochedo Feliz” nada mais é do que uma necessidade entendida apenas por aqueles que já se transformaram nisso. Por isso muitos já viram na pessoa de Miller a serenidade de um monge que chegou ao seu âmago trilhando o caos.
1 de Outubro de 2008 às 10:40
Fico muito contente de ver Henry Miller em um artigo tão bem escrito, sem dúvidas Miller é um talento que ainda merece muita discussão. Comentário muito bem colocado foi o “isento de qualquer necessidade histórica em realizar a sua obra ”
Certamente esse desprendimento, esse nomadismo, afastou o Miller destes leitores de hoje que buscam ou reproduzem ‘movimento’ beat.
Mas Miller faz parte, sim, de uma cena. Existem varios escritores que podemos ler em sua compahia, como a propria Anaïs e Lawrence Durrel. Como também buscar as influencias que ele jamais negou; nietzsche, thomas mann, herman hesse, tanizaki, Gogol… que covenhamos, é uma turma de muito mais valor que os junkies de Kerouak & cia.