Música
Nós e ele
26 de Setembro de 2008 | por Revista Wave
Aos 65 anos, Richard Wright, tecladista e um dos fundadores do Pink Floyd, morre deixando um legado harmônico no rock
por Thiago Venanzoni
“Ninguém pode substituir Richard Wright. Ele foi meu parceiro musical e meu amigo. Nos comentários sobre quem ou o quê foi o Pink Floyd, a importância de Rick é freqüentemente esquecida”, resumiu David Gilmour, companheiro de décadas de Richard Wright, o tecladista do Pink Floyd, umas das mais conhecidas bandas da história. Sua morte no dia 15 de setembro, após uma breve batalha contra o câncer, pôs fim as esperanças dos fãs em ver a banda excursionando novamente com sua formação clássica.
Tanto Gilmour quanto Roger Waters, os grandes protagonistas da história do grupo, eclipsaram o talentoso músico e compositor que Wright era. Waters, aliás, foi o mais empenhado em conseguir reunir os membros originais do grupo após anos de separação. Conseguiu parcialmente: em 2005, os três acima citados, mais o baterista Nick Mason, se apresentaram no Festival Live 8, no Hyde Park, em Londres. E foi só.
Em seu website, Waters também deu seu parecer sobre a importância musical de Wright na música da banda. “Suas intrigantes modulações de influências jazzísticas e sua tão familiar voz em “Us And Them” e “Great Gig In The Sky”, que são composições de extraordinária humanidade, estão onipresentes no trabalho que nós quatro fizemos todo esse tempo. O ouvido de Rick para a progressão harmônica era a nossa rocha”.
O tempo passou
Em sua primeira aparição solo, na composição de violões distorcidos e solos de piano da música “Paintbox”, de 67, Richard Wright já mostrava toda sua identidade psicodélica. Nessa época, ainda com a presença de Syd Barrett no grupo, por quem Rick Wright tinha imensa admiração, “Paintbox” não chegou a entrar em nenhum disco oficial da banda, sendo lançada apenas em 1971, na reunião de singles Relics.
Com a saída de Syd Barrett do Pink Floyd após ter gravado parcialmente o segundo disco, o emblemático A Saucerful of Secrets, em 1968, que conta com a contribuição dos cinco integrantes - Barrett, Waters, Wright, Mason e o recém-integrado David Gilmour nas guitarras - Wright possivelmente poderia trabalhar melhor suas composições na banda. Nesse álbum, ele compusera duas das principais faixas do disco, “Remember a Day” e “See-Saw”.
Um ano depois, no experimental Ummagumma, cada integrante ficou responsável por compor uma pequena obra para o disco. Nas quatro partes de “Sysphus”, de Wright, vê-se um fantástico músico a dedilhar e criar ambiências em seu piano. Sua identidade harmônica e sua capacidade de composição seriam destaques em álbuns como Obscured By Clouds, com “Stay”, e no formidável álbum de 1970, Atom Heart Mother, o famoso disco da vaca. Wright escreveu suas lembranças de 1968, homenageando Barrett em “Summer’68″, um dos ápices do disco. Ele ainda contribui em “Sunny Side Up”, uma das partes do café psicodélico de Alan, música de encerramento.
A pedido de Michelangelo Antonioni, Wright então faz uma das suas melhores músicas e um dos grandes clássicos do Pink Floyd. “Us and Them” entraria oficialmente na trilha de Zabriskie Point, filme de 70 do cineasta italiano. Até hoje ninguém entende por que não entrou e por que Antonioni recusou tal música. A faixa estaria então presente em The Dark Side Of The Moon, disco mais vendido da história da banda (cerca de 30 milhões de cópias), não sem causar discussões. Wright desejava que “Us and Them” fosse o primeiro single do disco, mas os managers da gravadora recusaram, provavelmente por se tratar de, um membro de suposta menor relevância na banda. “Money”, de Waters, e “Time” em seguida foram as escolhidas como músicas de trabalho.
Em 1979, Roger Waters assumiria o total controle da banda para criar a egotrip conceitual The Wall. O resultado foi o inicial afastamento de Wright da concepção do álbum e finalmente, sua expulsão da banda. Participaria de alguns shows da turnê do disco, mas só voltaria a fazer parte real do Pink Floyd após a saída de Waters. Não chegou a ter grande interferência nas composições e criações de A Momentary Lapse of Reason, de 1987, mas seria co-autor de várias faixas de Division Bell (1994), último disco de inéditas lançadas pelo grupo.
Gravou dois discos solos (Wet Dream, de 1978, e Broken China, de 1996, além do projeto Zee, com Dave Harris, em 1984) que quase ninguém escutou e acompanhava David Gilmour nos shows do disco do guitarrista, In a Island, de 2006. Sempre como um músico relegado ao seu teclado, no canto do palco, com algumas composições menores em importância, Wright se viu em todos os momentos pequeno em meio aos nomeados gênios do Pink Floyd, algo como o que acontecia com George Harrison, nos Beatles de Lennon e McCartney. Para além da perda de um grande músico, que venha também o reconhecimento tardio pelo seu valoroso papel numa das maiores bandas da história do rock mundial.
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Thiago Venanzoni, 21, é estudante de jornalismo, queria fazer cinema e ainda tem esperancas de fazer. Tem admiração por Hollywood, o que diz respeito aos independentes, como John Cassavetes e Sofia Coppola. Além disso gosta de rock, os velhos e alguns novos. E como todos que assinam o perfil na revista, não gosta do curso que faz. E-mail: thiago_venanzoni@hotmail.com
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