Opinião
Condenadas ao ostracismo?
26 de Setembro de 2008 | por Revista Wave

Mesmo após as boas apresentações olímpicas, o cenário do futebol feminino no Brasil continua desolador

por Felipe Arra

“Precisamos trazer de volta para o Brasil as meninas que jogam fora, e estruturar uma liga de futebol feminino para que nossas meninas brilhem nos nossos campos.” Palavras do Ministro do Esporte, Orlando Silva, depois da medalha de ouro do futebol feminino nos jogos pan-americanos do Rio de Janeiro, há mais de um ano.

Logo após o Pan, a seleção nacional conquistou a medalha de prata na Copa do Mundo feminina. Depois de duas conquistas expressivas em tão pouco tempo, a craque-símbolo do time, Marta, aproveitando o raro momento de visibilidade do futebol feminino na mídia, cravou: “Vamos perder de novo se as coisas não mudarem. Não podemos sair daqui novamente e ver que nada mudou, apesar de tanto que foi falado.”

Marta fez referência a um problema muito maior do que a perda de uma medalha de ouro. Pouco importa se elas perderam novamente. Ganhar ou perder faz parte do esporte. O problema é muito mais fundo que a superficial conquista de medalhas.

De lá pra cá, absolutamente nada mudou. O futebol feminino brasileiro continua jogado às traças por dirigentes e pela mídia esportiva. Ou você sabia que na Taça Brasil de 2006, por exemplo, estiveram presentes apenas oito equipes, e que o Botucatu, time do interior de São Paulo foi campeão? Sim, e em 2007, o Botucatu perdeu o título da Liga Nacional para o Santos. Agora, em 2008, os dois times lideram seus respectivos grupos no Campeonato Paulista, única competição importante do ano até aqui.

Até aqui, porque ainda não se sabe se acontecerá a Copa do Brasil, organizada pela Confederação Brasileira de Futebol, entidade privada que comanda o futebol brasileiro. Ano passado, depois da intimação de Marta em rede nacional, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, mexeu os pauzinhos e organizou a primeira edição do torneio. Durou três meses.

Enquanto o Brasil continua sem valorizar o “produto futebol feminino”, a saída para algumas atletas da elite nacional é o exterior. Os Estados Unidos acabam de retomar sua liga profissional; a Coréia do Sul também deve criar uma liga forte, como são as de muitos países europeus.

Das 18 jogadoras do Brasil nas Olimpíadas de Pequim, oito jogam fora do Brasil. As outras estão divididas entre clubes brasileiros que investem no futebol feminino (Santos, Botucatu, Saad, do Mato Grosso do Sul, e Corinthians), salvo raras exceções.

Uma das atletas que continuam por aqui é Ester, do Santos. Ela elogia o trabalho do clube praiano, mas não descarta uma transferência para o exterior. “Jogando na seleção, a visibilidade das jogadoras aumenta e os treinadores estrangeiros nos acompanham por vídeo”.

Para o comentarista da rádio CBN, Vitor Birner, se o incentivo da CBF não vem, o panorama não muda. As grandes jogadoras vão continuar se transferindo para a Europa, enquanto milhares de outras vão continuar penando em terra brasilis. “A CBF tem que bancar um grande campeonato. Deve usar as grandes marcas do futebol brasileiro como parceiras e para tal, tem que gastar sem retorno imediato.”

Esse parece ser o ponto crucial. Enquanto ministros e dirigentes pensam em medalhas, o futebol de mulheres no Brasil capenga. Em vez de priorizar a massificação do esporte como investimento social e na saúde - cada dólar investido no esporte economiza três na saúde pública, segundo a Organização Mundial da Saúde - , o Brasil volta todos os esforços para a candidatura do Rio de Janeiro à sede das Olimpíadas de 2016, com Rei Pelé de garoto propaganda e tudo.

Falando em Olimpíadas, a seleção feminina voltou de Pequim com mais uma medalha na bagagem, outra prata. Duas das maiores jogadoras do Brasil, Daniela Alves e Cristiane, voltaram a reclamar da falta de apoio. Coincidentemente ou não, ambas jogavam fora do Brasil antes das Olimpíadas - a última acertou com o Corinthians até o final do ano. “Elas vão sair. Precisam viver. É a solução para as atletas e a comprovação de que estão abandonadas pela CBF, a dona do futebol brasileiro”, opina Birner.

E, no final das contas, Marta foi profética ano passado: o Brasil perdeu de novo. E parece que o futebol feminino vai continuar perdendo muito nos próximos anos. Perdendo tempo e esperança.

Rapidinha com Juca Kfouri:

O renomado comentarista dá seus pitacos sobre o tema.

Revista Wave - O futebol feminino profissional tem muitos problemas no Brasil. Você acha que o sucesso da seleção nos últimos tempos atrapalha ou ajuda?
Juca Kfouri - Só poderia ajudar. O problema é que o futebol feminino não seduz mais nem mesmo nos Estados Unidos.

Por onde começar a resolver os problemas?
Não sei, honestamente. Acho que não é uma modalidade fadada a se dar bem.

Depois de muita promessa, a CBF organizou uma “Copa do Brasil” em 2007. Como você enxerga esse torneio?
Não enxergo, porque praticamente não existiu.

No regulamento do Campeonato Paulista (em andamento), consta que os três primeiros colocados garantem vaga na tal “Copa do Brasil” mas nem se sabe se o torneio vai ou não acontecer em 2008.

Pois é. Tudo muito problemático, porque parece que não há mercado.

No começo do ano, a Renata Costa foi transferida e, pela primeira vez, uma venda gerou renda a um clube de futebol feminino brasileiro (o Botucatu). Você acha que essa é a saída: exportação em larga escala?

Não pode ser, se está levando o futebol masculino à breca…

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Felipe Arra, 22, deveria ser lateral-esquerdo da seleção brasileira, mas não chegou nem perto. O fracasso no futebol deixou sequelas mentais: virou torcedor fanático do Newcastle, da Inglaterra. Faz faculdade de jornalismo, mas já aprendeu muito mais com Richard Ashcroft, Woody Allen e José Saramago do que com todos os seus professores juntos. E-mail: felipaines@gmail.com

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