Especiais
Sexo virtual e a individualidade
12 de Setembro de 2008 | por Revista Wave
Como a Internet reconfigura silenciosamente uma questão milenar: a exposição da individualidade sexual
por Gustavo Padovani
Um vidro espelhado ou fumê. Essa barreira utilizada durante anos para separar a pornografia dos consumidores menores de idade está tão obsoleta quando as próprias fitas VHS que a cercava. O mesmo pode-se dizer das revistas que sempre vinham com tarjas pretas ou ficavam na prateleira mais alta que se poderia colocar. Quanto mais a tecnologia avança, qualquer ímpeto de esconder ou maquiar a sexualidade torna-se um despropósito. Como é possível pensar o contrário em uma época que a indústria de celular consegue faturar no período de um ano na Europa US$ 775 milhões com conteúdo adulto? Muito mais que o sucesso isolado de um segmento, esse número é apenas um dos fragmentos de uma nova e complexa relação entre o homem e a sua sexualidade.
Identidade Sexual-Virtual
A utilização da informática como meio de comunicação criou condições improváveis há algumas décadas. Através da criação de interfaces digitais que representam o usuário virtualmente, permitiu-se o verdadeiro anonimato buscado há tantos anos para evitar o risco de um julgamento social perante certas condutas sexuais. Na própria pesquisa realizada nos anos 60 pelos estudiosos em sexualidade, William H. Masters e Virginia E. Johnson, comprova-se, por exemplo, que uma grande parcela dos voluntários não se importava em ter vida sexual acompanhada de perto ou fazer sexo com desconhecidos, desde que nenhum deles fosse identificado em hipótese alguma. Com a chegada do computador pessoal (em conjunto com a Internet), o homem pode experimentar uma autonomia maior dessa identidade anônima para expressar seus desejos.
Por aglomerar tantas funções práticas, o micro acaba sendo seguro, porque não se relaciona diretamente com uma intenção sexual imediata aos olhos de outras pessoas. Sua utilização individual possibilita ao usuário a manifestação do sexo através de imagens, vídeos, textos e comunicação com outros usuários, sem ser observado e avaliado. O estudo antropológico de Bishop e Robinson[1] chega a definir que a própria net conduz a uma re-significação das noções de escrita e leitura ao trazer um gama de contatos sexuais “desincorporados”, que ao simular a sexualidade, acabam por conduzir ao isolamento.
Esse mesmo espaço condicionado ao isolamento do homem possibilita também uma proteção da identidade de quem se expressa sexualmente, permitindo assim, uma aproximação entre espaços virtuais destinados ao sexo (sites pornográficos, comunicadores virtuais, rede de relacionamentos e bate papos) e as paredes de banheiros públicos masculinos e femininos. Em ambos existe o mesmo discurso (expressado inclusive por vocabulários semelhantes) na procura de atividade sexual e também se nota a possibilidade dar voz a uma postura homoerótica e/ou homossexual - geralmente oprimida em ambientes predominantemente heterossexuais.
A possibilidade de uma comunicação direta entre diferentes países pela Internet influiu também sobre a prática de mercado transnacional do sexo. Segundo o estudo da socióloga Adriana Pisticelli[2], a rede possibilitou a formação de grupos mundiais de interesse em turismo sexual, que trocam todo tipo de informações para ampliar a possibilidade de experiências carnais em diferentes etnias. A relação com a temática garante com que os usuários possam criar vínculos para obter informações detalhadas sobre o comportamento de prostitutas e mulheres de diversas etnias. Com essas informações, nota-se, por exemplo, que a América Latina é um dos locais mais procurados para o turismo sexual e um grande reflexo disso, são as divulgações de fotos quase ginecológicas das mulheres conhecidas pelos aventureiros sexuais – muito diferente da Europa e de países orientais, no qual as fotos quase sempre são de mulheres bem vestidas ou com trajes típicos de seus países.
Mesmo identificando-se com codinomes e usando tarjas em fotos, o isolamento virtual funciona às avessas: os “Mongers” (como são chamados os aficionados em turismo sexual) utilizam a Internet para legitimar um grupo social que sentia acuado. “Até dois anos atrás, sempre achei mongering um mal necessário. Sempre foi uma atividade que eu tinha que gozar sozinho, sobre a qual eu não podia falar. Outros caras falavam de futebol ou de carros, eu pensava em xoxotas. Entrei nesta quando fiz minha primeira viagem ao Rio. Mudei dramaticamente ao saber que há um lugar no mundo com provavelmente dezenas de milhares de belas trabalhadoras e milhares de mongers como eu”, declara o usuário que se identifica como Ground Zero[3], em um fórum sobre o assunto.

Cena do filme sexo, mentiras e videotape, de Steven Soderbergh; as novas tecnologias ajudaram na difusão de conteúdos amadores
Pornografia e Sociedade
Com o seu status mais que consolidado antes da chegada da Internet, a indústria pornográfica quase não precisou se organizar para proliferar na rede: os próprios consumidores fizeram esse papel. As ferramentas multimídias disponibilizadas pela Internet permitiam divulgar os produtos já existentes (filmes, fotos e textos) e possibilitaram a criação de novos conteúdos de caráter amador. Ao abandonar uma postura passiva em relação a pornografia, o consumidor forçou os segmentos do ramo a especializarem cada vez mais seu produtos para qualquer tipo de mídia que o possa comportar. Alem de uma evidência maior nos meios de comunicação, nota-se o aparecimento da comercialização de fetichismos extremos para atender um público disposto a pagar muito para ver suas fantasias sexuais incomuns, realizadas.
Um bom exemplo é o polêmico 2 Girls 1 Cup (2 garotas, 1 copo) , cena integrante do vídeo Hungry Bitches, dirigido pelo brasileiro Marco Villanova. As protagonistas do filme pornográfico realizam sexo, coprofagia (ingestão de fezes) e ingestão de vômito. A impacto do vídeo nos Estados Unidos levou o distribuidor do filme, Danilo Crooce a condenação de 3 anos de prisão, mas após pagar uma alta fiança, encontra-se em liberdade condicional. Como defesa, ele alegou que não sabia que esse tipo de produto era proibido no país e que o material fecal ingerido é na realidade, chocolate.
O efeito que a exposição à pornografia causa para seus consumidores ainda é motivo de contradições. Através de um estudo realizado na Dinamarca, o especialista em criminalística Berl Kutchinsky[4], observou que a incidência de crimes sexuais sofreu um decréscimo significativo logo após o país ser o primeiro a legalizar pornografia. Esse dado pode até indicar que a prática pode ser benéfica quando utilizada como válvula de escape ou para gerar catarse em indivíduos agressivos ou com uma conduta sexual desviante, mas não assegura nenhum parâmetro que possa verificar as conseqüências atuais sobre a facilidade que o material encontra para chegar às mãos de qualquer tipo de público. Para as pessoas que já possuíam suas condutas sexuais definidas na época que a Internet se instaurou, é possível que essa relação altere em um caráter meramente quantitativo. Mas como se desenvolverá a sexualidade de uma nova geração que nasceu dentro da existência da rede?
Independente das condutas escolhidas por pais e professores para ensinar crianças e adolescentes sobre qualquer assunto, a Internet passou a ser a principal referência para a obtenção de conhecimento – e o sexo está incluído. Para um jovem, a relação de informações em hipertexto[5] é atrativa justamente por não ser autoritária, e permitir o aprendizado com liberdade de escolha semelhante a uma atividade recreativa. Independente da finalidade para qual o usuário mais novo esteja utilizando a rede, ele está sujeito a encontrar o vultoso avanço da indústria pornográfica virtual: seja através do aparecimento de spams, por um engano, por uma curiosidade ou por outros meios eletrônicos de comunicação.
Mesmo com a existência de mecanismos para reduzir essas exposições, não se é possível uma fiscalização plena. Mas não faltam esforços: com medo de ofender grupos políticos, religiosos ou pais preocupados, as operadoras de telefonia móvel dos EUA ainda proíbem a comercialização de pornografia no celular, diferentemente da Europa que lucra milhões com a prática.
Embora não exista um dado concreto sobre a proximidade entre a formação sexual de uma criança e a indústria do gênero, algumas especulações comparativas podem ser feitas com uma pesquisa semelhante. O estudo experimental de D. Zillmann e J. Bryant[6] mede as conseqüências psicológicas da utilização de material pornográfico há longo prazo, por um grupo de indivíduos. Como resultado, a exposição à pornografia diminuiu a satisfação dos sujeitos com seus atuais relacionamentos, com a aparência física de seus parteiros, com o afeto e o comportamento sexual do parceiro e a importância da confiança no relacionamento. Além disso, há um aumento da importância de sexo sem a necessidade de um envolvimento emocional.
Dilemas Digitais
Assim como qualquer elemento que está vinculado à tecnologia, as possibilidades para o sexo no mundo virtual são infinitas. Por estar arraigada a psique humana, a questão autoriza desdobramentos incertos e sujeitos a mudanças sócio-estruturais em qualquer momento. Sob essa perspectiva, até mesmo a ficção pode sugerir um campo hipotético sem soar absurdo e inverossímil. No futuro confabulado pelo quadrinho cinzento de Paul Pope, o 100% (Vertigo/DC Comics, 2005), a diversão sexual é a “Dança Gástrica”: uma atividade na qual strippers se apresentam com um aparelho acoplado ao corpo, responsável pela visualização do interior da dançarina.
Na contra mão de tantas novidades no comportamento sexual, algumas questões ainda se propagam inabaláveis por séculos. Mesmo com toda a exposição da sexualidade, o assunto sempre será polêmico quando tangenciar o limite daquilo que compreendemos individualmente como exposição de nossa identidade sexual. Para complicar a discussão, essa mesma identidade se debruça, atualmente, sobre um mecanismo gigantesco, expansível e cheio de simulacros da realidade: a Internet.
[1] BISHOP, R. e ROBINSON, L. Traveller’s Tails
[2] PISTICELLI, A.- Travels and on-line Sex: Internet in the geography of sexual turism
[3] 14/12/2002, Linha de conversação: Há vida além do Rio/Brasil?
[4] Kutchinsky, B. - The effect of easy availability of pornography on the incidence of sex crimes: the Danish experience (1973).
[5] O hipertexto é uma forma de indexação e organização das informações. Constituiu-se a partir da retomada e transformação de elementos de outras mídias – índice, referências cruzadas, sumário, legendas -, estando nele inclusa a dimensão audiovisual – palavras, imagens, gráficos, sons, movimento. Estes elementos, associados, dão ao documento um aspecto dinâmico e de multimídia.
[6] D. ZILLMANN and J. BRYANT - Effects of Prolonged Consumption of Pornography on Family Values 1988;
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Gustavo Padovani, 22, pensava em fazer cinema e entrou por acaso em jornalismo na Unesp. Um brasileiro viciado em música, mas é desajeitado no samba e não torce para time algum. Como castigo, é acometido por incidentes improváveis.
E-mail: guspado@gmail.com
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12 de Setembro de 2008 às 12:24
Alguém precisa me devolver a minha edição do “100%”, rs…. ótimo texto sr. Padovani… aquele abraço