Colunas
“Adeus, Dunga”
11 de Setembro de 2008 | por Joaquim Veloso
Duas vitórias seguidas da seleção brasileira seriam a vingança perfeita de Dunga para seus detratores. Graças a Deus, podemos continuar a repetir: “burro, burro, burro!”
por Joaquim Veloso
“A vingança é prato servido frio”, diz o ditado popular. “O amor da justiça nada mais é, muitas vezes, do que um ardiloso pretexto de espírito de vingança”, avisam os cristãos. “Dizem que a vingança é doce; a abelha custa lhe a vida”, escreveu a galada (como dizem meus amigos daquela suntuosa e benevolente terra que é Natal, no Rio Grande do Norte) Carmen Sylva. Mas a provável citação a que o ignóbil técnico do selecionado brasileiro, o arredio Dunga, deveria querer expor visceralmente aos seus implacáveis vigilantes jornalistas é a velha máxima de Zagalo, o velho Matusalém do futebol brasileiro: “Vocês vão ter que me engolir!”
Ó, decepção! Como brasileiro nato que sou, na condição de ex-boleiro dessas terras de meu Deus, torci abusadamente contra o escrete chileno nesse domingo. Um resultado adverso colocaria todo o peso do mundo nas costas de Dunga, peso tal que nem mesmo o gigante Atlas, coleguinha de Hércules, resistiria em suas largas costas. Sua remoção do mais comentado e almejado cargo do país seria inevitável como a soma de dois mais dois – ainda que Caetano insista que dois mais dois são cinco, mas quem sou para me meter a besta com mestre dos mestres, o crítico dos críticos, o homem que só errou uma vez (quando achou que tinha errado)?
E, mais uma vez, começo a divagar e a fugir do assunto principal. O editor Daniel Faria, que guarda em sua cabeça descomunal descomunal sabedoria para sua insípida idade, vem freqüentemente chamando minha atenção. “Você anda dispersivo demais em seus textos, Joaquim”, “concentre-se mais no enfoque do artigo”, “economize tantos adjetivos, seja mais sucinto e objetivo” e outras singelas, porém firmes recomendações. Pois bem, sábio Daniel. Tentarei repassar minhas opiniões submissas à estética jornalística que você tanto preza. Tentarei.
Como dizia anteriormente, juntei-me a grande extensão da população contrária a presença do gaúcho Dunga no comando dos bananinhas da seleção. A vitória por três tentos a zero sobre o fraco Chile aplacou a fúria e o desejo de remoção de alguém?, pergunto-me. Fez alguém acreditar que um técnico inexperiente e obviamente regionalista como Dunga é a persona necessária para um cargo que reflete no humor de toda uma nação? Sim, exagero, mas costumo relativizar os fatos enfim da tese, que é o que todo bom articulista costuma fazer.
Pois não é que o próprio Dunga acreditou piamente em ser o escolhido, tal qual um Neo matrixiano do futebol brasileiro? Dizem que nas preleções para o jogo contra o Chile, o gaúcho viu-se no direito de chamar o caríssimo presidente Lula de “filha da puta” a fim de motivar os atletas. Nosso sapão barbudo predileto afirmara que os jogadores não tinham a raça e a vontade do argentino Messi e que o técnico ideal para a seleção seria o Vanderlei Luxemburgo. O óbvio ululante, ora, pois. Mas só os profetas enxergam o óbvio ululante.
E então, nessa quarta-feira, o que seria a desforra completa do vingativo Dunga revelou-se uma decepção tediosa digna de um Antonioni. Um mísero e dantesco empate com a Bolívia, do famigerado atacante Pablo Escobar, em um vazio Engenhão, colocou por fim seus planos getulescos de ascender sobre essa desmiolada e ingrata imprensa, Rede Globo incluída. Globo essa que, aliás, foi mais partidária que um Genoino da vida na transmissão do jogo: quando os corajosos torcedores canarinhos que se atreveram a assistir a tal partida iniciaram as vaias e merecidos impropérios ao comandante da seleção, os técnicos de som da emissora aumentavam consideravelmente o volume, para que todos, em suas confortáveis poltronas, ouvissem e se gratificassem com tal pressão. “Burro”, “adeus, Dunga!” e vaias, vaias e vaias.
Afinal, qual é o pecado da nossa seleção? Onde erram? O que é necessário mudar? A culpa é única e exclusivamente do técnico? Amigos e amigas, como canta o caótico poeta Jorge Mautner, está “todo errado”. Insistência em jogadores limitadíssimos, como Josué, Gilberto Silva e Maicon, a eterna esperança em estrelas que duram, no máximo, duas temporadas européias, como Robinho e Ronaldinho Gaúcho, e o desprezo pelos talentos atuantes em gramados bananescos. Sim, por que razão, motivo e circunstância, jumento Dunga, hás de rejeitar os elencos do São Paulo, do Palmeiras, do Internacional ou do líder Grêmio, e mesmo do valente Corinthians, ainda que na segunda divisão; ou Douglas, André Santos, Chicão ou Elias parecem realmente tão inferiores a qualquer titular do selecionado de Dunga?
Essa reivindicação – optar por jogadores atuando no território nacional – é mais antiga que a perseguição aos judeus, mas tal abordagem envolve interesses escusos de multinacionais e todo um aparato econômico formulado com a Confederação Brasileira de Futebol que chega a ser irritante insistir no assunto. Para permanecemos apenas no âmbito futebolístico, ali, nas quatro linhas, encerro afirmando que a seleção terá sinceras melhorias com a volta de Kaká ao time. Kaká é o jogador mais completo no mundo hoje. Vigor físico, excelência tática, visão de jogo, preparo físico exuberante, habilidade e liderança. Que faça o papel do herói frente aos obstáculos impostos pela fragilidade técnica de seus companheiros e da inerente burrice de seu comandante.
(N.E.: O artigo do Joaquim foi escrito em duas etapas: a primeira, após o primeiro jogo da seleção contra o Chile, no domingo, e a segunda parte após o empate com a Bolívia, nessa quarta-feira. E ele exagerou nas cobranças que supostamente lhe fiz. É um dramático, esse Joaquim.)
*********************
Joaquim Veloso, 40, ex-jogador de futebol e escritor nas horas vagas, prefere não revelar detalhes da vida pessoal, por temer represálias de colegas e/ou atentados a saúde de sua nobílissima família.
*********************
Leia também:


