Música
Tão sozinho
6 de Setembro de 2008 | por Revista Wave

Entre o desleixo solitário e a alegria ingênua, ex-Los Hermanos Marcelo Camelo lança Sou, aguardado disco solo

por Daniel Faria

Após os dias 7, 8 e 9 de junho de 2007, datas dos três últimos shows do Los Hermanos, iniciou-se a imediata especulação dos fãs para com o futuro dos membros da banda carioca. Era o fim (ou “recesso por tempo indeterminado”, conforme anunciado oficialmente) do mais importante grupo da década, capaz de angariar fervorosos fãs com a mesma capacidade de desagradar inúmeros detratores.

Para os órfãos de Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba, ficaram as lembranças de memoráveis shows - numa comunhão quase religiosa entre público e artista e que só encontra paralelos na outra última grande banda de rock nacional, a Legião Urbana – e a esperança (e confiança) nos posteriores projetos de seus integrantes.

O tecladista Bruno foi o primeiro a encontrar nova ocupação. Assumiu o blog Instante Posterior no G1, o portal da Globo, onde escreve contos e crônicas sobre vários assuntos, inclusive música. Barba, o baterista, tocou com a banda de hardcore Jason, com os mineiros do Latuya e substituiu Marcelo Callado – atual músico da Banda Cê, de Caetano Veloso – no Canastra. Óbvio, porém, que as atenções estavam todas voltadas para os dois principais compositores, Amarante e Camelo.

O primeiro se aproveitou do bom momento pré-separação – tanto “Condicional” quanto “O Vento”, as duas músicas de trabalho de 4, canto de cisne da banda, são de sua autoria – e se uniu a tropa da Orquestra Imperial, que lançou um dos melhores discos do ano passado, Carnaval Só Ano Que Vem (Som Livre). Lançou músicas inéditas com o guitarrista Lanny Gordin e com o americano Devendra Banhart e anunciou projeto com o baterista brasileiro dos Strokes, Fabrízio Moretti.

Os fãs de Amarante – que não são poucos; sua comunidade no Orkut supera a de Camelo em membros – provavelmente discordarão, mas é inegável a maior ansiedade para a estréia solo de Camelo. Afinal, ele é o autor dos principais sucessos do grupo (“O Vencedor”, “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, “Cara Estranho” e claro, “Anna Júlia”), é o compositor preferido de Maria Rita, já compôs para Roberta Sá, Fernanda Porto e Virgínia Rosa e não raro, é ovacionado por medalhões da MPB como uma espécie de herói moderno da música brasileira.

Sou/Nós
No release de Sou (nós ao contrário, em exercício concretista, capa assinada por Rodrigo Linares), seu primeiro disco solo, que chega às lojas dia 8, lançado pelo selo do cantor, Zé Pereira, e distribuído pela Sony BMG, Marcelo é descrito pelo irmão Thiago da mesma maneira semi-mítica com a que seus fãs o percebem. “Não que ele não seja isolado, tímido e estranho. Às vezes, alcançar o universo dele é difícil e, por trás da alegria com a qual estou habituado, enxergo uma pessoa profundamente só. Quase sempre só”.

Em tempos de Caetano e seus entraves com a imprensa paulistana (leia aqui e aqui), a imagem humildemente desleixada de Camelo e sua aversão a entrevistas contribui para a criação de um personagem quase santo, algo entre Jesus e João Gilberto, deleite de sobra para o messianismo propagado por seus adoradores mais fiéis. Não que Camelo se poupe de polêmicas. Envolveu-se em notória pancadaria com o pantagruel Chorão, do Charlie Brown e desbancou repórteres deslumbrados que o chamaram de Marcelo Campelo em conhecido vídeo do Youtube. Ainda assim, eram confusões contra os “inimigos certos”: Chorão seria sua contraparte maligna e vendida ao sistema, enquanto jornalistas não gozam de boa reputação nem entre seus pares.

Todo esse aparente desleixo é refletido em Sou. O disco todo é permeado por um clima que em determinados momentos lembra a preguiça e o mar de Caymmi e em outros lembra a benevolência e paciência de um Francisco de Assis. Os temas são leves, as letras são contemplativas, a produção é simplória. “Copacabana”, uma recriação estilizada de “A Banda”, de Chico Buarque, chega às raias da ingenuidade pura e versos como “segura que minha alegria não quer parar” só não causam vergonha alheia porque soam sinceros, infantilmente sinceros.

“Doce solidão”, a segunda música do novo disco disponibilizada para download no myspace do artista, em abril desse ano, não é apenas a melhor do disco como também é a que mais justificaria as comparações com Caymmi pela ambiência marítima, mas o uso de falsetes sugere algo próximo do Coldplay. É a letra, porém o grande atrativo. “Posso estar só, mas sou de todo mundo” e “solidão, foge que eu te encontro”, tendem a confirmar as palavras de seu irmão Thiago. Camelo está só, e essa singularidade serve tanto para sua consagração como artista quanto para o marketing dessa sua nova faceta solo.

Não tão só
Toda essa solidão declamada não evitou que em Sou, Camelo acertasse nas participações especiais. Das 10 faixas disponibilizadas para download no Sonora (o disco terá 14 faixas), canal de música do portal Terra, quatro foram gravadas com a banda paulistana Hurtmold. E estão entre as melhores do álbum. Em “Téo e a gaivota”, há um belo duelo entre a guitarra rítmica simulando o samba branco, típica de Camelo, e as guitarras inventivas de Fernando Cappi e Marinho, do Hurtmold. Duelo que se repete em “Tudo Passa”, quando a interpretação econômica da voz do carioca valoriza sua aproximação com a bossa nova, ainda que sem os cuidados com a sofisticação típica do estilo.

A sanfona do mestre pernambucano Dominguinhos é parceira da voz e do violão de Camelo em “Liberdade”, de letra desconexamente sonhadora. “Eu vivo a vida na ilusão entre o chão e os ares, vou sonhando em outros ares, vou fingindo ser o que eu já sou”, canta, com a tal da humildade desleixada marcante em quase todas as faixas. Ainda mais especial é a participação da garota-prodígio-fenômeno-da-internet Mallu Magalhães, na faixa “Janta”, mezzo português, mezzo inglês.

E é nessa faixa que se percebe talvez o grande paradoxo do álbum. Se a fofura e a ingenuidade de Mallu são suas principais virtudes (haja visto tratar-se de uma menina de recém-completados 16 anos), aliadas ao excesso de descompromisso proposto por Camelo em todo o álbum, formatam um clima de descuido calculado que incomoda a partir de algumas audições. O paradoxo reside no fato de que esse mesmo desleixo já citado diversas vezes no texto é o grande charme do álbum. E em tempos de produções pasteurizadas e homogêneas da música nacional, especialmente no rock viciado gerenciado por Rick Bonadio, passa como qualidade.

É, enfim, uma bela estréia, com composições superiores às mostradas por Camelo no último disco do Los Hermanos, o metódico 4. Há de se chamar a atenção para o fato de que esse texto foi escrito antes da liberação integral das músicas do disco e que é tanto possível que essas novas canções seqüenciem a estética descompromissada da maioria das faixas quanto surpreendam em energia e motivação. Mas acredito no prevalecimento da primeiro suposição. Livre da exigência roqueira inerente ao Los Hermanos, Marcelo Camelo desenvolveu brilhante persona apática (sim, a contradição é proposital) para o cenário musical brasileiro.

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Daniel Faria, 21 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz.

E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com

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1 comentário

  1. fabrício diz:

    Ainda assim, eram confusões contra os “inimigos certos”: Chorão seria sua contraparte maligna e vendida ao sistema, enquanto jornalistas não gozam de boa reputação nem entre seus pares.

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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