Personagem
I’m not dog no
6 de Setembro de 2008 | por Revista Wave
Vítima do cancêr de próstrata, o cantor baiano Waldick Soriano mantinha rara ligação sentimental com seu público
por Daniel Faria
A seção Personagem é, rigorosamente, a de maior cuidado jornalístico da Revista Wave. Há todo um trabalho de pesquisa apurada, convergência de fontes e preocupação com datas, números e coerência de informações. Não à toa, é das seções mais elogiadas e comentadas. Nosso primeiro texto, por exemplo, um perfil do fotográfo Kevin Carter, ainda é dos mais acessados do site.
Porém, até o atual momento, vivíamos na confortável posição de sempre estampar personagens mortos ou fora de atividade (como o caso da atriz e cantora Vanja Orico), o que facilita a confecção da matéria. Por isso, quando optei por substituir o personagem da edição da semana por um artigo sobre o cantor Waldick Soriano, morto na madrugada dessa última quinta-feira (04/09), achei por bem alertar ao leitor que tal opção para a seção Personagem - quando o mais previsível seria um texto na editoria de Música - deve-se não a qualidade musical de Waldick, mas sim ao maior interesse pela figura e história de vida dessa singular e renegada figura do meio musical brasileiro.
Porque esse Eurípides Waldick Soriano, nascido na cidade de Caetité, no interior da Bahia, em 13 de maio de 1933, é, em primeiro lugar, um personagem contrastante com a da chamada MPB, a ponto de não merecer tal alcunha, mesmo tendo vendido mais discos que a maioria dos medalhões da elite musical do país. Não se trata de reivindicar méritos para a dita música brega, cujas composições são substancialmente pobres, tanto poética quanto musicalmente, marcadas por um exagerado sentimentalismo.
Também não se trata de dignificar a suposta condição de censurado pelos militares nos anos 70 – como fez o historiador Paulo César Araújo (o biógrafo censurado de Roberto Carlos) no livro que toma emprestado o título da mais famosa canção de Waldick, Eu não sou cachorro, não - Música popular cafona e ditadura militar (Rio de Janeiro, Record, 2005). Pelo contrário, o que realmente importa em Waldick é sua intrínseca ligação emocional com um público brasileiro tão sentimental quanto os versos de suas canções. Desprezado pela crítica, o folclórico cantor – que não dispensava ternos e óculos escuros, tal qual um Roy Orbison baiano – viveu até os últimos momentos de vida com platéia suficiente para lotar shows por onde quer que passasse.
Quem és tu
Aos cinco anos de idade, sua mãe (que viria a falecer quando o cantor completasse 10 anos) se separaria do pai, o fazendeiro e comerciante de pedras preciosas Manuel Sebastião Soriano. Abandonou a escola após completar o quarto ano do primário e trabalhou como lavrador. Também foi peão, engraxate, motorista de caminhão e o que pudesse ser necessário para melhorar sua precária situação financeira. Na adolescência, entretinha-se do trabalho freqüentando clubes noturnos, onde começaria, de forma amadora, a cantar e a escrever suas primeiras composições.
Inicia-se então na trajetória de Waldick a típica história do sertanejo que, em busca de novas e melhores condições de vida, abandona a vida rural e parte para São Paulo. É na capital paulista que encontra as primeiras oportunidades artísticas, inicialmente como cantor de boate. Em 1960, aos 27 anos, assina seu primeiro contrato profissional com o selo Chantecler e lança um disco 78 rpm com as músicas “Quem És Tu” e “Só Você”, dois boleros. A primeira viria a se tornar grande sucesso no Nordeste. Em 1962, o compacto com “Tortura de Amor” e “Fujo de Ti” (essa, uma dramática expressão de dor-de-cotovelo, beirando a paródia) seriam seus principais sucessos na década.
No começo dos anos 70, beneficiada com o crescimento econômico, a indústria fonográfica resolve apostar em nomes de puro apelo popular. É a explosão da música brega – surgida no final dos anos 50, utilizando-se do bolero como matriz e tendo como principais expoentes Anísio Silva, Altemar Dutra, Orlando Dias e Nelson Gonçalves -, que ampliando limites e incorporando novos ritmos, assume forma mais kitsch que cairia no gosto popular e seria desprezada pela então elite musical do país.
Dessa época, surgem inúmeros sucessos dos cantores-compositores Odair José, Agnaldo Timóteo, Cláudia Barroso e finalmente, Waldick Soriano. Seu primeiro sucesso de alcance nacional é “Paixão de Um Homem”, de 1970. Mas é com “Eu Não Sou Cachorro Não”, de 1972, que o artista se tornaria nome reconhecido em qualquer canto do país. Dos desiludidos versos (“a pior coisa do mundo é amar sendo enganado”) ao inacreditável refrão (“eu não sou cachorro, não, pra viver tão humilhado”), toda a síntese da obra de Waldick – o romantismo barato, o vozeirão trágico, os arranjos simplórios - estava ali, que serviu de munição para a crítica musical da época.
Há de se atentar para esse fato. A música romântica, em plena ditadura militar, era vista pela intelectuália da época como fenômeno colaboracionista e direitista, ou no mínimo, reacionária. Além de, supostamente, entrar em contramão com a evolução da MPB, em um riquíssimo período– são inúmeros os clássicos do começo da década de 70: Construção, de Chico Buarque, Transa, de Caetano Veloso, Pérola Negra de Luiz Melodia, dentre muitos outros. Ainda assim, eram esses artistas ditos “cafonas” os grandes vendedores de discos da época, o que colabora para a hipótese de que o brasileiro é o povo sentimental por excelência (o fenômeno sertanejo da década de 90 e que perdura até hoje é talvez a prova inconteste dessa característica nacional).
Durante toda a década de 70, Waldick estrelaria programas populares de televisão, como o Cassino do Chacrinha e o Programa Silvio Santos (quando protagonizaria insólita cena, caindo abraçado com o apresentador após forte abraço). Tais fatos reforçavam sua identificação direta com a população, no momento em que a MPB se tornava mais inventiva e talvez por isso mesmo, mais distante do cidadão comum. “Música popular brasileira é música romântica, samba, forró. Essa chamada MPB é coisa de elite. O estilo que eles acham o melhor não tem nada a ver com música popular brasileira. É a menos tocada em todos os lugares. Elite já acabou, hoje o povo vive de realidade”, diria, anos depois.
[Quisera eu ter mais tempo e espaço para desenvolver tal tema. Há, em parcela marxista da crítica musical – e da crítica cultural, como um todo -, a necessidade de exigir reconhecimento artístico para expressões notadamente populares, como se tudo feito para ou por classes sociais menos abastadas devesse ser legitimada como a verdadeira música nacional. Penso que certas formas musicais trabalham para o aprimoramento estético de linguagens poético-musicais rudes e simplórias, enquanto outras apenas parecem sugerir o fácil reconhecimento vulgar e popular, sem sutileza ou sofisticação alguma, o que de certa forma estagna ou mesmo atrasa a natural evolução da música brasileira, que seria o caso da música dita brega. Mas isso é assunto – inevitável - para outro momento.]

Waldick e a atriz Patrícia Pillar, diretora de documentário sobre o cantor [foto: Márcio Nunes]
Eu também sou gente
A vida pessoal de Waldick, como não poderia deixar de ser, era extensão de sua própria obra. Antecipando o tema do principal sucesso de Odair José, “Vou Tirar Você Desse Lugar”, outro ilustre brega do período, casou-se com Maria José, sua primeira mulher e ex-prostituta. Maria morreria vítima de leucemia, dois meses após o casamento. Waldick teve inúmeros casos com socialites cariocas e paulistas em seu auge, que durou até o ano de 1978, com o seu último sucesso, “Quero Ser Teu Escravo”.
Ainda na década de 70, duas músicas de sua autoria foram censuradas: as regravações de “Tortura de Amor” (pelo singelo motivo do uso do substantivo “tortura” no título da música) e “Fujo de Ti”. Outra polêmica: um funcionário estatal o diagnosticou “portador de formações psicológicas” após dizer, bêbado, em um bar de Porto Alegre, que Maria Madalena teria sido amante de Jesus Cristo. “Estava um pessoal, todos bebendo numa churrascaria. Um cara começou a falar em Cristo pra lá, Cristo pra cá. Aí eu falei: ‘Esse Cristo, ele foi malandro que nem eu, foi briguento’. Aí o jornal estava lá”, explicou, em entrevista inédita publicada pelo G1.
A persona machista e polêmica do cantor – responsável pela frase: “A mulher é como a música. A música serve para limpar a alma, a mulher para limpar a casa” – não corresponderia a realidade, dizem pessoas próximas. A atriz Patrícia Pillar, diretora do documentário Waldick Soriano – Sempre No Meu Coração (estreado no Festival É Tudo Verdade, em abril desse ano), é sua mais ilustre fã e defensora. Em declaração oficial a imprensa após a morte do cantor, Patrícia reafirmou a conexão entre o cantor e o público brasileiro e seu caráter amoroso.
“Me aproximei de Waldick como fã e, hoje, posso dizer que me sinto parte da família. Percorrendo o Brasil, vi o quanto ele era querido e derretia o coração das fãs. Waldick, além de ser um grande artista popular, era um homem amoroso e sempre tinha um olhar inteligente sobre as coisas. Com seu jeito divertido, conseguia falar direto ao coração. Waldick fará falta porque era um invasor de corações e a cara do Brasil”, elogiou. Patrícia dirigiu ainda o último lançamento comercial do cantor, um DVD ao vivo lançado pela Som Livre no ano passado.
Waldick foi diagnosticado com câncer de próstata em 2006. O cantor estava internado no Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, quando morreu às 5h45 na madrugada dessa quinta-feira. Ele vinha recebendo atendimento domiciliar desde maio e foi internado em razão do agravamento da doença. O cantor deixou a esposa com quem vivia há 38 anos, Walda Soriano, oito filhos registrados e milhares de saudosistas (e sentimentais) fãs por todo o país.
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Daniel Faria, 21 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz.
E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com
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15 de Outubro de 2008 às 2:03
Não entendo qual a sua intenção em publicar um artigo sobre a “figura” de Waldick Soriano. Pelo seu texto pode-se notar que não tem qualquer empatia com a obra musical e apenas com o rótulo de “renegado da música brasileira”, como se seu artigo fosse um tratado antropológico, ou um estudo etnográfico de um outsider da música brasileira. Se você mesmo reconhece que Waldick não tem importância alguma no cenario músical brasileiro, qual sua intenção em publicar tal artigo? Dar enfâse ao estigma do cantor, a sua vida desgraçada e polêmica, só faz reforçar a posição que parece defender, de que a música brasileira, ou a MPB, só tem algum valor se apresentar algum “aprimoramento estético de linguagens poético-musicais”. Do mesmo modo você abre um imenso parentêse em seu artigo, tentando justificar que há uma parcela da crítica cultural brasileira, de orientação marxista, que prima pela valorização de quelquer forma de música provinda das classes sociais menos abastadas, o que não é o caso de Waldick, que tanto por esta dita parcela crítica “marxista” não teve reconhecimento algum. O único reconhecimento que Waldick teve foi de seus fãs, que em botecos imundos e puteiros pelo Brasil ouviram sua música, esta sim muito mais de acordo com suas realidades do que todos os hinos entoados por jovens “marxistas” revolucionários, estudantes universitários e filhos da burguesia, e extrema minoria no país, que contestavam o tal regime enquanto a grande maioria dos brasileiros, analfabetos e ignorantes curtiam Waldick Soriano nos mais distantes cantos do Brasil.
Posso entender seu gosto em não aprovar a música de Waldick, porém não aprovo um texto que tenta apresentar um nome da música como mero “figura” ou personagem de uma história underground e que não desperta outro interesse senão apenas o de ridicularizar alguém ou apenas desfrutar do status de “bizarro” que lhe foi conferido por toda uma vida.
16 de Outubro de 2008 às 6:22
“Se você mesmo reconhece que Waldick não tem importância alguma no cenario músical brasileiro, qual sua intenção em publicar tal artigo?”
A resposta está no próprio artigo, no trecho “o que realmente importa em Waldick é sua intrínseca ligação emocional com um público brasileiro tão sentimental quanto os versos de suas canções”. A construção da sua biografia, em paralelo a comentários sobre a sua estética musical, serviriam para tentar criar uma espécie de resposta para essa tal ligação, que seria, enfim, o “motivo de existência do texto”.
Acredito sim, na existência de certa parcela crítica-cultural de tendências “marxistas”. Talvez não seja ético citar nomes, mas o Pedro Alexandre Sanches, da Carta Capital e o próprio Paulo César de Araújo talvez sejam os mais notórios.
Agora, isso de “ridicularizar” ou categorizar como “bizarro” são palavras suas. Não acredito que o texto tente criar ou sugerir esse “status” ao Waldick. Explicitei algumas das características musicais do artista, substancialmente pobres e simplórios.
Em relação a minoria burguesa marxista em contraste a grande maioria dos brasileiros analfabetos e ignorantes nos tempos do regime militar… Bem, talvez isso explique porque o Brasil foi o país de mais fácil instauração da ditadura e o que ofereceu menor resistência em toda a América Latina.
Talvez a opção por publicar o texto em uma seção informativa como é a seção “Personagem” em vez da seção “Música”, mais analítica e opinativa, tenha sido duvidosa. De qualquer maneira, em qualquer que seja a seção, a Revista Wave defende teses/teorias/tratados/ou-o-que-você-quiser-chamar.
Abraços