Literatura
Sobre Haicai
6 de Setembro de 2008 | por Revista Wave

Introdução ao haicai; seis cápsulas instantâneas e um prólogo sobre a tradicional e objetiva forma de poesia japonesa

por Cesare Rodrigues

Das propriedades da poesia que a faz mais sublime e indispensável é a capacidade de se não parar o tempo, ao menos subvertê-lo. De atirar o leitor numa dimensão irreal de deleite que chega a transpor o tempo e fazer crer que o mundo parou por um instante para contemplar uma linda construção lírica, uma idéia revolucionária ou uma imagem acalentadora. É por conta desta última que me apaixonei por haicais.

Haicais são tradicionais poemas japoneses compostos por três versos de respectivamente 5, 7 e 5 sílabas métricas (a sílaba japonesa – on – tem medida diferente da ocidental, tornando possível representar mais que no ocidente). O poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (prêmio Nobel de 1990 e um dos meus heróis) em seu texto “Tres momentos de la literatura japonesa” diz que “o haicai se converte na anotação rápida, verdadeira recreação, de um momento; exclamação poética, caligrafia, pintura e escola de meditação, tudo junto”. Basicamente a representação poética das mais importantes características culturais japonesas, e, portanto, é quase um símbolo dela.

O haicai é a poesia vivida, a aventura de perder-se no cotidiano para encontrar o maravilhoso, é entregar-se à procura das coisas belas do mundo e expressá-las com a maior concisão possível. Para tanto, a construção normalmente parte da junção de uma idéia a uma imagem, dividindo o haicai em duas partes: uma descritiva e outra enunciativa. A percepção poética surge então do choque entre sua parte temporal e espacial (a imagem) e o elemento ativo (a idéia).

Contemplação x exaltação: poesia da imagem
A principal diferença entre a poesia oriental e a ocidental vem da divergência na noção básica de lírico: enquanto o lirismo ocidental é baseado na exaltação, o oriental, de raiz budista, debruça-se sobre a contemplação, a imagem, uma necessidade extrema de registrar um instante.

Esse instante, apesar de propor-se eterno, está sempre preso a algum momento no tempo e espaço, e normalmente essa representação temporal é explicitada pela representação direta de alguma estação do ano ou da chegada do ano novo e de elementos da natureza, sendo essas importantes marcas estéticas e temáticas dos haicais.

Dentre os aspectos textuais, os mais expressivos são o uso de um humor seco, nada sentimental, jogos de palavras, onomatopéias e aliterações. Na apropriação ocidental foi ainda acrescentada em alguns casos a rima, o principal dos recursos poéticos ocidentais, mas que é inexistente na poesia japonesa que, novamente citando Paz, “não conhece a rima nem a versificação acentual e seu recurso principal, como ocorre com a francesa, é a métrica silábica”.

De renga a haicai
Originalmente um jogo de rimas em cadeia chamado renga, no qual os poetas eram jogadores e os versos eram seus lances, o haicai começou a tomar sua forma clássica com o aparecimento do poeta que melhor dominou sua arte e ajudou a definir suas características, sendo endeusado por isso, Matsuo Bashô (1644-1694). Bashô pega um jogo de palavras e transforma em sublime poesia, sendo seus vários dos haicais mais belos e conhecidos. Sua fama e o fascínio por sua biografia de viajante resultou em estudos de sua obra por Octavio Paz e biografia por Paulo Leminski, por exemplo.

Seguindo a trilha aberta por Bashô (valendo-me aqui da ambigüidade do desbravador e do viajante), Yosa Buson e Kobayashi Issa foram os que conseguiram tocar o mais sublime e desenvolveram o gênero no século XVIII. Mas o haicai caiu então em declínio até o aparecimento de Masaoka Shiki (1867-1902), poeta e intelectual que revisou-o na transição do século XIX para o XX.

Shiki diferenciava-se dos primeiros grandes gênios especialmente por viver numa era em que a cultura japonesa começava a flertar com o ocidente (sendo essa a principal crise para o modernismo no Japão, aparecendo refletida na obra dos principais autores do período como Natsume Sôseski – discípulo de Shiki – e Junichiro Tanizaki). Essa aproximação se reflete nos haicais de Shiki, que chegam a perder a natureza como temática e o budismo como raiz filosófica, já que ele era agnóstico.

Com as inovações formais de Shiki e a influência lírica de Bashô, o haicai chega ao ocidente no século XX e tem em poetas como Octavio Paz, Allen Ginsberg, e.e. cummings e Paulo Leminski alguns de seus maiores entusiastas.

Meus haicais gozam de certa liberdade formal. Não procuro me prender a metrificação dos versos (e isso é tendência na criação ocidental) e sequer à necessidade das estações para a marcação do tempo, sempre parado para dar a eternidade da fotografia à imagem. Sempre buscando o ichi-go ichi-e, o elogio da unicidade do instante, quase uma aura que circunda aquele momento perdido num tempo inexistente que é real apenas naqueles três versos, que sendo talhados por um poeta de formação ocidental, apresentam características poéticas e temáticas para além das clássicas do haicai, colorindo algumas vezes a forma com rimas ou abstrações e irrealidades.

Haicais

bolhas de sabão
e dentes-de-leão:
faltou fôlego às crianças

como uma folha na corredeira
o amor passa
iluminando estrelas

dádiva da estrela:
a eternidade da noite
recostado no colo dela

nem o cheiro do florir
inebria e encanta
como contemplá-la chorar

passa o inverno
e musas-mútuas declaram
amor eterno

rendida a lua,
a aurora ilumina
o colhedor de orvalho

********************

Cesare Rodrigues, 24, nasceu em São João da Boa Vista com quase um século de atraso. Pretenso poeta, corinthiano, fã de cinema, literatura, vanguarda, rock n’ roll e biografias trágicas, arrisca escrever poesia, ensaiozinho e até alguma ficção das que intentam vencer por nocaute.

E-mail: cesarasrodrigues@gmail.com

********************

Leia também:

. Lírica, urgente, vanguardista e revolucionária, a poesia de Maiakóvski entoou a Revolução Russa e era reflexo (ou extensão) de sua própria vida, por Cesare Rodrigues.

. Pai e criador do movimento Surrealista, André Breton teve a trajetória ofuscada pelo sucesso de Dalí, por Daniell Marafon.

. Depois da experiência formal dos concretismos, o poeta mineiro Cacaso recupera o amor como tema central da poesia, por Cesare Rodrigues.

3 comentários

  1. cesare diz:

    para quem se interessar, a revista caqui tem traduções em português pra haicais muito bacanas:
    http://kakinet.com/caqui/antojap.shtml

  2. Leticia Bergallo diz:

    Oi, Cesare, adorei esta matéria! Seus haicais são lindos! Também gosto de tentar escrevê-los.

    Um abraço,
    Leticia Bergallo

  3. Henrique diz:

    Gostei da sua matéria, só não gostei dos seus hai-kais

Deixe um comentário