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Caymmi, joga a rede no mar
18 de Agosto de 2008 | por Revista Wave

A Revista Wave presta homenagem ao grande Dorival Caymmi, morto no último sábado (16/08), aos 94 anos, por insuficiência renal e falência múltipla de orgãos. A colunista Carol Bataier, fã da obra e vida de Caymmi, escreveu artigo especial ao último representante de um Brasil límpido e doce que não existe mais. Vá em paz, Caymmi.

É doce viver no mar

por Carol Bataier

Hoje minha tarde ficou mais triste.

Anos atrás, minhas tardes passaram a ser mais felizes. Foi quando descobri que havia mais alguém no mundo que partilhava do meu encanto por pequenas cidades, e que falava da vida como se ela fosse o que realmente é: brisa.

Eu alimento uma paixão sanguínea por pequenas praças ensolaradas onde a vida passa devagar, e foi numa tarde que uma voz me falou de um bom lugar pra se amar em Copacabana. O Rio de Janeiro é grande, mas a paixão pelos detalhes – seja da pracinha ou do bar a beira-mar – é a mesma.

Depois, ouvi falar de Itapoã. E eu aqui, no interior de São Paulo, longe do mar e do sol, senti toda a paz que é ver a morena de Itapoã caminhando na areia, com uma flor nas mãos.

Fiquei feliz por saber que a minha saudade é a saudade dele, a saudade de Itapoã.

E foi numa tarde, descobrindo Caymmi, que eu fiquei feliz, como fui feliz em muitas tardes de sol, eu que sempre fui do interior, e como foi feliz o Caymmi em sua Itapoã.

Dorival falava da doce tristeza do mar e da saia da morena, com o privilégio de quem viu de perto, mas com a paciência de quem sabe que essa paz é para poucos. E com a compreensão que aqueles que estão longe da paz merecem.

Falava do tabuleiro da baiana e da ingenuidade da Marina, como se qualquer um pudesse ver. Cantava o “quê” da baiana como se ela dançasse bem em nossa frente, rodando sua saia e sorrindo. Ele universalizava o seu mundo de forma única, fazendo com que sentíssemos nos cabelos a brisa do mar.

É, em música, o que é Jorge Amado na literatura. Bahia e seus encantos, seus detalhes, seus mistérios. Vida fluindo e acontecendo em todo canto: na areia da praia e na briga de rua. No sorriso do menino e ou no olhar da morena.

Um violão que, mais que toca, seduz. Som pra se ouvir em rede. Um pedaço de sua paz assim, de graça para quem a ouve. E quem ouve quase o sente ali, sentado ao lado, num banquinho, sorrindo e cantando.

Caymmi me acalentou por vezes. Fez-me entender um pouco da paz e da paciência que, dizem, só os baianos têm.

E na tarde de hoje, com sol amarelando as árvores e brisa morna, eu fiquei um pouco mais triste. A notícia me pegou de surpresa, porque há pessoas que a gente imagina serem eternas, pela simplicidade com que vêem a vida.

Foi-se o poeta do cotidiano. Hoje, tenho certeza, o dia amanheceu mais triste em Itapoã.

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Carol Bataier tem 22 anos, finge que estuda jornalismo, finge que trabalha e finge que escreve só pra fingir que gosta de fazer alguma coisa

E-mail: carolbataier@yahoo.com.br

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