Música
Pra inglês ver
8 de Agosto de 2008 | por Revista Wave

Trio inglês Muse empolga público paulista com apresentação digna de grandes estádios; showzaço de primeira em palco de segunda

por Gustavo Padovani

A enfadonha discussão sobre a derrocada da industria musical perante a Internet já se esgotou na tentativa de propor soluções para uma nova era de consumo. Discos com trava anti-cópias, venda de música virtual, CD’s em versões enxutas ou álbuns vendidos em banca: todas alternativas questionáveis em tempos que o mesmo produto está disponível “na faixa” em qualquer computador conectado a rede. Ironicamente, a única certeza de uma grande força lucrativa para o artista (e seus associados), retrocedeu para o lugar em que ele confirma sua razão de existir: o palco. Se depender dessa dinâmica, o Muse certamente não passará fome.

No ano passado, a banda conseguiu ser a primeira a lotar o novo estádio de Wembley na Inglaterra (com espaço para 120 mil pessoas) e ainda abocanhou o prêmio do semanário inglês NME (New Music Express) de melhor banda ao vivo em 2008. A receita para tanto sucesso no palco está localizada no gene de influências que, entre si, tem um ponto em comum: a eficácia nas apresentações ao vivo. Vejamos. Ao longo de sua obra, o Muse surrupia o clima grandioso (e os sintetizadores) cultivado pelo prog-rock nos 70, a teatralidade vocal do Queen, a força de melodias cativantes do U2 na década de 80 e dos anos 90, os riffs espessos e esbanjamentos guitarrísticos do Rage Against The Machine. Some isso a um talentoso guitarrista/pianista/vocalista com formação clássica (o diminuto Matthew Bellamy), um baixista criativo (Cristopher Wolstenholme) e um baterista habilidoso (Dominic Howard) e temos uma fórmula infalível de performance.

As expectativas para o show da banda em São Paulo (31 de julho no HSBC Brasil) eram altas. Não raro, ouvia-se um “não acredito que eu estou aqui” ou “isso tem começar logo”. O público formado por adolescentes bem-comportados, indies enjoados e velhos fãs de rock alternativo com vinte e poucos anos, receberam um infeliz convite de boas-vindas: Jay Vaquer. O artista solo de pop/rock se esforçou: correu de lá para cá, se empolgou, cantou direito e tem uma banda competente. Mas sua apresentação expôs o mal de 9 entre 10 artistas nacionais que insistem em fazer rock: falta carisma, autenticidade e, principalmente, criatividade.

No entanto, durante o show de abertura, algo me incomodou mais que a presença do indigesto cantor: a qualidade do som. Equipado apenas por duas caixas de aproximadamente cinco metros de altura nas laterais do palco, os instrumentos percorriam o espaço mediano do HSBC Brasil se tornando indefinível. Por um momento, quis acreditar no velho mito sobre bandas brasileiras que ficam com equipamento de som inferior aos dos gringos para favorecê-los. É óbvio que estaria tremendamente enganado, mas pulemos essa parte para ir diretamente ao show.

A marcha sinfônica “A Dança dos Cavaleiros” do russo Sergei Prokofiev (que, não à toa, parece uma trilha perfeita de um filme épico), tomou conta do palco lá pela 22:30. Meio cafona, mas funciona para criar uma certa ansiedade. Como esperado, já que a turnê baseia-se no disco ao vivo lançado em abril (H.A.A.R.P.), a banda entrou no palco e soltou “Knights of Cydonia”. Principalmente pelo final apoteótico - com um riff “emprestado” de Brian May -, sempre acreditei que seria a música perfeita para encerrar um show (como costuma acontecer, aliás). Mas com o corpo presente, percebi que o longo bordão inicial da música serve para colocar o público no grau certo de euforia. “Hysteria”, que servia para abrir os shows da banda na turnê anterior (do álbum Absolution), veio logo na seqüência para manter o clima de excitação.

Para quem já acompanhou os shows da banda via You Tube ou no DVD Absolution Tour, não havia dúvida de quais seriam os pontos altos da noite. “Starlight” causou a comoção esperada, a climática “Butterflies and Hurricanes” chamou atenção pela explosão de gases a cada martelada que Bellamy dava no piano (na parte em que fica solo para esmerilhar o instrumento) e o ousado solo de “Invencible” geraram gritos, por exemplo. Mas a noite contou com surpresas.

Uma delas foi a presença da maravilhosa “Citizen Erased” (do álbum Origin Of Simetry de 2001), música tocada pouca vezes nos novos sets da banda. Outra: o cover da Nina Simone, “Feeling Good”, encaixa-se bem dentro da dinâmica da banda - mesmo com imagens duvivosas de flores, abelhinhas e coisas bonitinhas no telão. Por último: um momento em que o baixista Christopher e o batera Dominic foram deixados sozinhos. Com uma habilidosa linha de baixo distorcida que lembrava uma versão acelerada da instrumental “(Anesthesia) Pulling Teeth” (Metallica), o batera ficou a vontade para improvisar e sentar a mão. E o fez. Para deixar tudo perfeito, podiam ter encerrado apenas com “Stockholm Syndrome” em vez de emendar a pomposa e chatinha, “Take a Bow”.

Nem tão invencível

Na edição passada da Wave, o ex-jogador e colunista Joaquim Veloso, encerrou sua coluna clamando para não envelhecermos antes do tempo. Durante o show do Muse, recordei desse pedido aliado ao meu incômodo com a péssima acústica do local. Seria minha insatisfação fruto de um apuro sonoro (curtido após assistir uma centena de shows nacionais e internacionais) ou essas seriam implicações ranzinzas da idade que deviam ser irrelevantes perante a energia pululante emanada pela banda? Acreditando na primeira opção, lembrei-me das expectativas que me levaram a desembolsar 70 reais (preço da meia -entrada) para ver a banda. Mas chegando lá, encontrei o Muse tocando com um som embolado, sem definição, sem graves e médios e uma bateria que parecia estar abafada. Com a altura do volume podia-se conversar claramente e não sair ensurdecido com as guitarras como espera-se de um bom show de rock.

Qualquer estabelecimento que se declare capaz de comportar shows desse calibre e que tenha peito para cobrar bem, tem que ter cuidado para oferecer, antes de tudo, um som de qualidade. Já que os organizadores aumentam os preços, temos que aumentar proporcionalmente as exigências, para não passar por eventos pavorosos como o Tim Festival do ano passado. São detalhes como esses que me fazem declarar que o Muse esteve excelente no palco, mas o show foi - no máximo - bom.

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Gustavo Padovani, 22, pensava em fazer cinema e entrou por acaso em jornalismo na Unesp. Um brasileiro viciado em música, mas é desajeitado no samba e não torce para time algum. Como castigo, é acometido por incidentes improváveis.
E-mail: guspado@gmail.com

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