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Corintianos palhaços?
8 de Agosto de 2008 | por Joaquim Veloso

Torcida corintiana; o maior fenômeno do humor auto-depreciativo no Bananão

por Joaquim Veloso

Tenho um amigo corintiano, o Roberval - amigo de nome que pode soar aos ouvidos dos meus incautos leitores uma brincadeira ou um absurdo criado apenas para ilustrar outro tópico de insanidade desse colunista - cujo humor auto-depreciativo é compartilhado comigo quando o assunto é futebol. Ao nos esbarrarmos, o que acontece com vistosa freqüência, visto que Roberval é um onipresente entregador de galões d’água, sempre referimo-nos um ao outro com o nome de algum jogador pouco afortunado do Corinthians. Ultimamente, Roberval grita um sonoro “como está, Perdigão?”, ao passo que respondo “vou bem, Saci” ou “andando, Fábio Ferreira”, dependendo de quem protagonizou o lance mais bizarro no último jogo da exótica segunda divisão.

Em outros tempos, os cumprimentos eram tão ou menos elogiosos. Já passaram esdrúxulos esportistas nesses últimos anos como Edson Canhão, Gilmar Fubá, Jameli, Santiago “El Tanque” Silva e tantas outras gozadas personalidades, que a modalidade humorística “rir de si próprio” era quase inevitável para os corintianos. Claro que, paralelamente, na presença de torcedores rivais, tanto eu quanto Roberval somos capazes de pronunciar as maiores atrocidades, tal qual “ão ão ão, Betão é seleção” ou “Herrera é o melhor atacante em atividade no futebol brasileiro”. Mas é mesmo, não é?

Nas minhas incursões pela estética da graça, descobri que na verdade, o humor auto-depreciativo só funciona na presença de semelhantes. Aliás, digite “humor auto-depreciativo” nessa maravilha da pesquisa chamada Google, que deixa até a Barsa a ver navios, e tenha certeza que o nome Woody Allen por ali aparecerá. Não fiz o teste, mas arrisco a masculinidade do amigável editor Daniel Faria nisso.

Porque é impossível que um desses seres desprovidos de cérebros que freqüentam micaretas (o nome micareta, segundo singela amiga, é tão vulgar que parece algo associado a filme pornô; tendo a concordar) ou qualquer uma dessas aglomerações humanas que lembre seres baianos se espremendo suados e grudentos ao som de onomatopéias inteligíveis, seja capaz de rir ou apreciar algo vindo desse hilário e culto judeu nova-iorquino que é Woody Allen. Ou seja, é necessário o reconhecimento.

Claro que, em nossa singela vida de relações sociais, o reconhecimento é necessário para todas nossas interações. Estou a divagar e a ramificar assuntos tal qual um episódio dos Simpsons, mas caro amigo, recorde-se de quantas conversas iniciaram e terminaram no mesmo assunto e então saberá que nosso nível de concentração para qualquer coisa não dura o suficiente para ler-se um livro da Clarah Averbuck. Ou uma música dos Ramones. Ou uma partida de truco com meu amigo Umberto, famoso pela urucubaca que o persegue.

Tentarei concluir em apenas um período. Em tempos de Olimpíada em Pequim, com atletas da estirpe de Giba, Ronaldinho Gaúcho e Daiane dos Santos disputando medalhas de ouro para o país e televisionados no mundo inteiro, com os rivais São Paulo e Palmeiras no topo da tabela do Brasileirão da Série A, e como motivo de piada do Internacional ao Sport de Recife, o corintiano se dedicar alguma atenção, lotar estádios no campeonato nacional da segunda divisão, e ainda se regozijar disso cantando a plenos pulmões incentivos como “todo-poderoso Timão” ou “salve o Corinthians, o campeão dos campeões”, é o maior fenômeno de humor auto-depreciativo da população bananesca. Nem os flamenguistas fariam melhor.

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Joaquim Veloso, 40, ex-jogador de futebol e escritor nas horas vagas, prefere não revelar detalhes da vida pessoal, por temer represálias de colegas e/ou atentados a saúde de sua nobílissima família.

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