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Batman, o Cavaleiro das Trevas
6 de Agosto de 2008 | por Revista Wave

Por que tão sério? O que há de insano e racional na brilhante atuação do ator Heath Ledger em Batman - O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan

por Daniel Faria

E que o ator Heath Ledger, morto na última terça-feira, mereça as devidas homenagens por representar, em vida e nos filmes, o lado tortuoso e desagradável, mínimo, mínimo, mínimo, do ser humano. Famoso por interpretar um caipira [mínimo] homossexual [mínimo] no filme O Segredo de Brokeback Mountain, Ledger era viciado [mínimo] em drogas, estava filmando o novo filme do Batman, Cavaleiro das Trevas, no papel do insano [mínimo] Coringa. A crise pós-separação [mínimo] de casamento com Michelle Williams teria sido outro dos agravantes que colaboraram com sua dependência à heroína. Que descanse em paz e que sua morte também simbolize o início da nova era. Repito: salve, salve o poder mínimo, o mínimo poder.

Escrevi o trecho acima em 26 de janeiro de 2008, quatro dias após a morte do ator Heath Ledger, no blog Matita Perê, sobre a então suposta candidatura do democrata Barack Obama ao cargo de presidente dos Estados Unidos. Muito antes, portanto, da estréia de Batman – O Cavaleiro das Trevas, esse fenômeno absoluto que bateu recordes de bilheteria e estabeleceu a atuação de Ledger no papel do insano Coringa como uma das mais antológicas já vistas na história do cinema, sem falsos e desvairados exageros.

Sou, antes que soe oportunista, admirador profundo de Ledger, e o leitor poderia me confundir com aquelas garotas obcecadas que colecionam recortes de jornais de seus ídolos – no tempo em que as garotas obcecadas colecionavam recortes de jornais -, mas minhas admirações nunca chegaram a esse nível de histeria. Confesso, porém, que mesmo uma bobagem adolescente como 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (1999) é superior a toda a média de bobagens adolescentes que a atual década e meados da década passada se esmeraram em produzir. Graças a Ledger, que também é o principal responsável – ainda mais que o também ótimo Jake “Donnie Darko” Gyllenhall - por comover um país conservador tal qual os Estados Unidos com a história de dois caubóis homossexuais no premiado O Segredo de Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee. Consigo enxergar valor até em sua atuação no enjoado O Patriota (2000) e no filme non-sense O Coração de Cavaleiro (2001), um Maria Antonieta (2007) sem grandes arroubos cool. E o ator australiano ainda não tinha completado 29 anos quando foi encontrado morto pela empregada em seu quarto, no bairro do Soho, em Nova York. Havia muito o que esperar.

Quando decidi ir ao cinema assistir à Batman – O Cavaleiro das Trevas, dirigido por Christopher Nolan, outro talentoso nome dessa década, minhas expectativas por uma atuação memorável de Ledger já vinha sendo alimentada pelas abusivas críticas favoráveis. “O filme é de Ledger”, diria um, “é muito melhor que o Coringa de Jack Nicholson”, exclamaria outro. Estive precavido. Mesmo porque decidi rever Batman Begins, do mesmo Nolan, algumas horas antes de adentrar a sala de cinema, e constatei estupefato que Christian Bale é um Batman assustador e instigante, além de ser um Bruce Wayne tão carismático e tão irritantemente arrogante que adquiriu novas concepções até mesmo para o personagem famoso dos quadrinhos, criado por Bob Kane no longínquo ano de 1939. Um playboy da pior estipe, um vigilante mascarado amedontrador, nunca o morcego fora tão bem realizado no cinema.

Ou seja, era necessário que sua contraparte anárquica e sarcástica seja tão corretamente reproduzida quanto. Porque, se em Batman Begins os vilões eram uma organização criminosa internacional e o Espantalho, em O Cavaleiro das Trevas, o Batman correria sério risco de ser envolvido e relegado pelo maior vilão das histórias em quadrinhos (quem mais poderia reivindicar tal título? Magneto, um Malcom X mutante? Lex Luthor, um Roberto Justus megalomaníaco?): o Coringa. E é a impressão que se tem durante a quase totalidade dos 142 minutos do filme, até o final -que obviamente não pretendo revelar ao leitor desfavorecido que ainda não conferiu o longa – quando se percebe a magnitude da performance de Bale e da própria intensidade do personagem Batman. Com cuidado para não fazer spoiler, ouso dizer que a sensação de impotência ao término é algo semelhante a Planeta dos Macacos, a Poderoso Chefão II, ao último capítulo da segunda temporada de Twin Peaks. A loucura, meus amigos, bate a porta de todos.

Aliás, se esse texto pretende ater-se a um tema, esse tema é a insanidade. A trama de O Cavaleiro das Trevas é a própria paranóia entre a justiça social e o anarquismo absoluto, entre a responsabilidade para com o próximo e o mais inconseqüente livre-arbítrio. Embora em uma elogiosa performance de Aaron Eckhart, o personagem do promotor Harvey Dent, o Duas Caras, nada mais é que a marionete entre as idéias conflituosas de Batman e Coringa.

De um lado, o playboy Bruce Wayne, um bilionário que por conta de uma tragédia familiar na tenra idade, se traveste de morcego gigante na noite de Gotham City, algo como uma Nova York sombria onde todos, desde mendigos até os detentores dos maiores cargos públicos, podem estar corrompidos por uma espécie de máfia que fabrica o crime em todos os cantos da cidade. Usando o medo para caçar os foras-da-lei, o Batman torna-se uma espécie de ícone do terror no combate ao crime.

Do lado oposto, surge o vilão interpretado por Ledger. Sem passado, sem identidade, sem qualquer vestígio de vida humana pré-Coringa – ainda que pelo menos duas histórias sobre sua suposta origem sejam contadas pelo próprio no filme -, o personagem é a personificação de desilusão com a humanidade, com as hierarquias públicas, com a manutenção do bem-estar social. Para ele, nada importa, nem mesmo o dinheiro almejado pelos seus capangas. É pura anarquia, ímpeto incontrolável de destruição, em contraste ao desejo quase ingênuo do Batman de tentar reparar a situação catastrófica de sua cidade. Em determinados momentos, a situação se inverte, e é quase possível para o público pender para o lado do vilão.

Estarei caindo em clichês, mas é um risco assumido. O que encanta e emociona em O Cavaleiro das Trevas é a loucura intrínseca aos personagens principais. O absurdo que é um riquíssimo, jovem e atraente empresário se empenhar no combate ao crime parece ser posto em xeque a todo o tempo, ao contrário dos filmes anteriores de Batman, onde tudo parecia alegoria de carnaval com seus heróis e vilões coloridos e patéticos. Já o Coringa, em sua insanidade, em sua teatralidade, em seu uso da ultraviolência a causar inveja a um Alex deLarge, parece estar mais próximo da racionalidade para um mundo que perdeu – ou nunca teve – a caridade como fator de escolha. Em comum a ambos, e talvez eu esteja sendo irresponsável ao confundir atores e ficção, há uma tristeza mórbida, um descontentamento, uma depressão causada pela desilusão, o que coloca tanto Batman quanto o Coringa numa roda-viva até chegar ao ponto em que se complementam, em um mundo que naturalmente, pouco se importa com eles.

Poucos antes de sua morte por intoxicação de calmantes e soníferos, Ledger afirmava que a preparação para o papel do Coringa lhe causava insônia, e que não raro, passava dias dormindo duas horas ou menos por noite. A separação recente da atriz Michelle Williams, com quem tinha uma filha, somado ao vício em heroína, ajudaram a torná-lo ainda mais deprimido. Em todo o momento durante o filme, foi impossível me desvencilhar dessa imagem de Ledger/Coringa já impregnada na minha mente. Relacionamento amoroso mal resolvido, drogado, insônia, maltrapilho, depressão. O leitor desse artigo, por mais controlado e auto-suficiente que seja, provavelmente já se encontrou em tal situação, ou estarei subestimando-os. Ou superestimando, tudo depende do ponto de vista.

Repito que estarei sendo irresponsável ao misturar personagens e atores. Porém, independente da situação pessoal do australiano, é inegável a carga dramática e deveras perigosa do Coringa. Penso em como problemas de caráter sociais, de relações pessoais, de caráter sexuais – como o Ennis del Mar de O Segredo de Brokeback Mountain, interpretado pelo próprio Ledger – podem acarretar em seres desajustados e desorientados, em párias, em cidadãos perigosos para o bom andar da sociedade. Erráticos, temidos, perseguidos.

Claro que o filme será visto como entretenimento puro e simples pela maioria do seu público. Não faltam mirabolantes cenas de ação, perseguições policiais, explosões e efeitos especiais. Aconteceu com Tropa de Elite, que era ainda mais ambíguo, para citar um exemplo nacional. Mas me parece tão óbvia a presença de uma ambiência perturbadora, a eminência da loucura social, do discurso anarquista do Coringa, da implacável vigilância de Batman levada às últimas conseqüências, que me incomodaria que o filme não alcançasse e suscitasse também esse debate, para além dos simplórios elogios a fotografia e a técnica de filmagem quase perfeita do filme (ainda que haja furos quase imperdoáveis no roteiro, como o sumiço do Coringa e do Batman no meio do público sem que ninguém perceba em várias cenas).

Acredito que o leitor mais atento que assistir a Batman – O Cavaleiro das Trevas também será capaz de atentar para aspectos da mentalidade humana discutidas no longa de Christopher Nolan. Em tempos de hedonismo, da suposta morte da psicanálise e da falência das analíses sociais marxistas, hegelianas ou que seja, toda atividade que procure desvendar a individualidade e as particularidades que a nova ordem social propõe a seus contemporâneos, acredito que seja de total valia. Ainda que venha travestida de blockbuster de proporções gigantescas sobre um bilionário usando uma fantasia de morcego e um palhaço criminoso.

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Daniel Faria, 21 anos. Pisciano, assim como Bertolucci, Glauber Rocha, Villa-Lobos, Gabriel Garcia Márquez e Elis Regina são piscianos. Editor-chefe e idealizador da Revista Wave, já escreveu na Revista Paradoxo e na extinta Revista Bizz.

E-mail: daniel.faria.7@hotmail.com

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Leia também:

. Campinas, cidade Mimesis; misto de artigo de opinião e ensaio, uma reflexão diferenciada sobre a maior cidade do interior paulista.

. Literatura-roteiro-de-cinema: primeiro capítulo de Pra Lembrar, protótipo de romance do editor Daniel Faria.

. “O Brasil é na verdade um país sério demais”; Revista Wave entrevista o cartunista Arnaldo Branco.

6 comentários

  1. AUREA GONTIJO diz:

    Batmam- o cavalheiro das trevas é um filme que comove, incomoda, arrebata,dá vontade de ver e rever até anestesiar.Deixa uma sensação amarga,um desconforto,pois,faz pensar sobre fatos reais como inpunidades,insanidades,terror,horror,máscaras que usamos no dia-a-dia para nos defender,máfias.É um filme sério,uma reflexão sobre ética e valores morais.Nolam arriscou fazer uma adaptação de BD diferente, com personagens quase reais e deu certo,poderia ser um fiasco, mas, deu certo.Porque? começando pelo elenco formidável,atores de peso,Nolam conseguiu arrancar o melhor dos atores, roteiro esplendido, trilha sonora perfeita,e um “joker”interpretado magistralmente.Ledger nos ofereceu um coringa insano,louco lúcido,inteligente ,maquiavélico,porém, fascinante, que dá medo e atrai.O Coringa é o protótipo do “louco varrido”, até queimou dinheiro, só faltou comer fezes,entretanto, tem atitudes que provam racíocinio e esperteza, deixando o espectador tonto com esta personalidade dúbia.Ledger deve ter buscado seus mais sombrios demonios para compor este papél.O Coringa não tem passado,futuro,amantes, amigos, esposa,muito menos uma identidade.A única ambição do “joker” além de espalhar o terror e a morte é ser o complemento do Batmam, por causa disso aceita um espancamento do “outro” com gozo,pois,assim tem a ilusão de existir. O Coringa é infeliz e sólitário, ele e o Batmam controem uma interdependencia doentia, um sado-masoquismo. Nolam e Ledger foram fundo na psiqué humana.

  2. luciano diz:

    “O Coração de Cavaleiro (2001), um Maria Antonieta (2007) sem grandes arroubos cool”
    Ah, não; pelamor, né!? Quase desisti de ler o resto. Quase.

  3. Moita diz:

    Acho que este elogio travestido de artigo tem todo seu valor, porque realmente a atuação de Ledger em O Cavaleiro das Trevas é sensacional. É engraçado o autor citar o Coringa de Burton, reconhecido como o melhor de sua obscura (e ruim, para quem aprecia as HQs do Batman) passagem pela história do Morcego com os dois filmes que dirigiu (pra que fique claro, eu respeito o Coringa de Burton apenas pela atuação de Nicholson, não pelo roteiro ou direção do cineasta); tenho a mais absoluta certeza que Nolan foi quem realmente compreendeu o espírito do Homem-Morcego, com todos seus conflitos existenciais (e olhem que são MUITOS). Porém acho importante fazer duas ressalvas quanto ao seu texto: Lex Luthor NÃO pode ser reduzido a uma metáfora pobre como “Roberto Justus megalomaníaco” - ele é rico? Sim. Mas tudo o que ele faz ele o faz também por insanidade (uma paixão exacerbada pela humanidade, e como todo exagero nunca é benéfico, sabemos os resultados disto)e por egoísmo de toda a fama recair nos ombros do alienígena Kal-El, o famoso Superman. E algo que eu realmente não posso deixar passar é a sua impressão que “o personagem do promotor Harvey Dent, o Duas Caras, nada mais é que a marionete entre as idéias conflituosas de Batman e Coringa” - bem, é VITAL lembrarmos das origens do personagem nas HQs, e de toda a sua psique e personalidade neste meio; em outras palavras, a divisão entre Harvey Dent é característica PRÓPRIA dele, não influência de Coringa ou Batman (claro, existe a cena do revólver no hospital, mas fosse o Coringa, ou qualquer outro vilão escolhido pelo roteirista, ia ser coerente com a história do Duas-Caras)… reduzir o Duas-Caras a uma simples marionete é desdenhar todas as referências de HQs que o roteirista leu e utilizou para montá-lo com tal maestria no cinema.

  4. admin diz:

    Moita, a ‘metáfora pobre’ com o Luthor foi uma brincadeira, até óbvia. Se eu duvidasse da sua posição como um dos grandes vilões, não o teria colocado ao lado do Magneto e do Coringa. E você tem que convir que no filme, o Duas Caras teve um tratamento e desenvolvimento bem diferente do seu correspondente nas HQs. A influência que o Coringa exerce sobre ele é deveras importante para a preparação da trama final. O roteirista realmente utilizou algumas referências das HQs (difícil saber quais; há várias versões diferentes da origem do Duas Caras nas revistas do Batman durante todos esses anos) mas, como frequentemente acontece em adaptações de quadrinhos no cinema, novas concepções e situações foram criadas para criar o personagem visto nas telas. Ainda assim, Harvey Dent é, no filme, um personagem-ambiente, coadjuvante notório para a atuação do par principal, no caso o Batman e o Coringa. Na minha interpretação, uma espécie de marionete - que se transmuta durante todo o filme, mas ainda assim uma marionete - no embate “ideológico” entre os personagens principais.

  5. Moita diz:

    Só fiz a ressalva quanto à metáfora do Luthor porque a do Magneto ficou engraçada e a do Luthor nem tanto, hehehe. E quanto ao status de coadjuvante do Duas-Caras, realmente não há como negar que Harvey perde espaço para Batman e Coringa, o que é na verdade uma pena, devido à riqueza do personagem, cuja psique sempre dividida abre um mundo de possibilidades tão grande quanto o criado pela loucura do Coringa, por exemplo. Só que mesmo assim ainda vejo mais características próprias do personagem do que uma manipulação do Coringa (é claro que ela existe, não adianta ser cego e não notá-la) sobre ele. Pra mim o maior exemplo ainda é a cena do hospital, onde consigo muito bem imaginar o Charada perguntando se Harvey não merece vingança, ou Ra’s Al Ghul oferecendo algo que seduzisse Harvey para que este deixasse seu lado “mau” aflorar. Enfim, visões diferentes apenas né!

  6. admin diz:

    Ah, mas o Magneto tem mesmo a ver com o Malcom X. Sério que cê não viu graça na minha comparação entre o Luthor e o Justus? Hehe.

    Então, eu já não consigo imaginar o Charada ou o Ra’s Al Ghul seduzindo o Harvey com a mesma eficácia, loucura e carisma estético do Coringa. Plasticamente, não teria o mesmo efeito sobre a platéia. Mas enfim. :)

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