Literatura
O poeta Maiakóvski
6 de Agosto de 2008 | por Revista Wave
Lírica, urgente, vanguardista e revolucionária, a poesia de Maiakóvski entoou a Revolução Russa e era reflexo (ou extensão) de sua própria vida
por Cesar Augusto Rodrigues
“Sou poeta. É justamente por isso que sou interessante”. Dificilmente exista melhor introdução a Maiakóvski que as primeiras palavras de sua autobiografia, Eu Mesmo, publicada em 1928. Composta por fragmentos curtos de memórias, a biografia é um importante guia para a compreensão da obra desse poeta vanguardista e revolucionário, que combateu no front engajado da Grande Revolução de 1917 (que mudou os rumos do mundo) e nas trincheiras da arte, propondo e propagando formas vanguardistas [foi figura central do futurismo, formalismo e construtivismo russos). Homem de espírito inquieto, descrito por Boris Pasternak (um dos principais escritores de sua geração) como “uma espécie de combinação de herói mítico e toureador espanhol”[i], Maiakóvski era também um boêmio que se entregava às paixões avassaladoras. Mas acima de tudo, Maiakóvski era poeta.
Nascido em Bagdadi (Geórgia, a cidade teve o nome mudado para Maiakóvski alguns anos após a morte do poeta) em 19 de julho de 1893, tinha poucas lembranças da infância, a mais relevante e poética delas: a descoberta da eletricidade. “Depois da eletricidade, a natureza fica sem interesse para mim”[ii] diz, sobre o encontro da luz depois de ferir o rosto em espinhos de rosas numa cavalgada com o pai.
Lembrava-se também do exame de admissão no Liceu após a primeira mudança, para Kutaisi. Depois de um mal-entendido por uma palavra cujo significado em velho eslavo era diferente do geórgio, o poeta imagina estar aí a origem de seu futurismo, internacionalismo e ateísmo (por conta daquilo passara a odiar tudo que era velho, eslavo e de igreja).
Uma segunda mudança, essa determinante, ocorre após a morte do pai. Maiakóvski e a família mudam-se para Moscou e passam por dificuldades[iii]. Rapidamente o rapaz se encanta com a revolução e alinha-se às fileiras dos bolcheviques, sendo levado duas vezes à prisão, onde lê os clássicos e começa a escrever poesia.
Afasta-se um pouco do movimento revolucionário e inicia estudos na Escola de Belas Artes, onde conhece Burliuk, primeiro importante incentivador de sua poesia. “Foi Burliuk quem fez de mim um poeta. Lia-me franceses e alemães. Punha-me livros à frente dos olhos.(…) Dava-me, cada dia, 50 kopeques. Para eu poder escrever sem rebentar de fome”[iv].A partir daí, ele tornou-se um poeta marcado pelo sinete da rebeldia exacerbada e desmedida. Apoiou sua vida no tripé Poesia, Amor e Revolução – a revolução se fez poesia e o amor se converteu em revolução. Como diretriz artística, o poeta optou pela vanguarda, que se bifurcaria em vanguarda formal e vanguarda revolucionária.
Em sua poesia, vida e obra acabaram por se interpenetrar.[v]Maiakóvski e Burliuk são expulsos da Escola de Belas Artes por seu engajamento vanguardista e produzem, ao lado de Alexander Kruchênikh e Victor Khliébnikov o manifesto “A bofetada no gosto do público” (1912), no qual, com a urgência de manifesto, propõem uma ruptura com a literatura gloriosa do passado (“atirem Puchkin, Dostoievski, Tolstoi, etc., etc. para fora do Barco da Modernidade”[vi]) e uma nova abordagem para os poetas a partir dali. Viajam pelo país divulgando a vanguarda e a arte, numa época em que Maiakóvski começa a tornar-se célebre como orador e destaca-se como importante propagandista da Revolução, sendo responsável pela criação de muitos dos cartazes publicitários. Também nessa época fundam a revista esquerdista LEF com um grupo de “artistas que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social”[vii]. Também envolve-se com a criação de teatro satírico, destacando-se como dramaturgo em peças que criticavam a sociedade e principalmente a burocracia, sua inimiga mortal: “Comuna –/ lugar/ sem burocratas/ onde florescerão/ poemas/ e canções” (de “Bilhete ao Poeta Proletário”, de 1926).
Essa é sua fase de maior engajamento, quando viajou por toda a Rússia e foi ovacionado por multidões. Foi também o período em que viajou ao ocidente[viii] e chocou pelo uso de sua famosa camisa amarela[ix]. Era o momento clímax da ligação entre ação e poesia.“Recitando em lugares públicos, fazendo leituras para camponeses e operários, intervindo na imprensa e viajando pelo país, Maiakóvski transforma em ação o trabalho do artista, o que deixa evidente sua concepção de arte como instrumento de intervenção e, falando nas manifestações artísticas de alto nível, enriquecimento cultural da população”[x].
Com o decorrer do processo revolucionário, Maiakóvski impôs-se ainda vivo como um dos grandes poetas da língua e entregou-se a infinitos amores, sendo mais conhecida a paixão por Lili Brik (mulher de Ossip Brik, de seus principais editores, que acolheu o poeta em importantes momentos), a quem dedicou “A nuvem de calças”, um de seus maiores poemas, que rendeu-lhe um lugar no panteão da poesia russa e mundial, segundo Emanuel Gelman[xi]
Mas é também nesse período que a obra de Maiakóvski é questionada, especialmente por ser de teor revolucionário e social. Consideravam que sua poesia era inacessível para as massas e o próprio poeta chega a discutir a questão em dois textos essenciais: “Incompreensível para as massas” (1927) e “Os operários e os camponeses não compreendem o que você diz” (1928).
Não se sabe se por amor não-correspondido, decepção com os rumos da arte e da Revolução ou qualquer motivo fútil, Maiakóvski suicidou-se no dia 14 de abril de 1930 com um tiro na cabeça. Sobre a morte, até hoje se suspeita de assassinato político, devido à capacidade do poeta de inflamar multidões e a seu recente desânimo com a política cultural do regime stalinista. Mas Stalin, em resposta a carta de Lili Brik, fez questão de homenagear Maiakóvski como “o grande poeta da Revolução”, o que foi considerado por muitos não uma honraria, mas uma segunda morte para o poeta.
Vanguarda e revolução
“Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas”
Maiakóvski
Derivado do francês avantgarde, e adaptado das colunas de guerra, o conceito de “vanguarda” é aplicado a “estar à frente”. Em arte, as primeiras décadas do século XX contextualizaram o momento de eclosão das vanguardas como futurismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo, formalismo, construtivismo e outros ismos genericamente agrupados como modernismo, que tinham intenção de revolucionar as artes de acordo com o novo mundo advindo com a modernidade. Se a idéia então é estar “à frente”, o novo[xii] passa a ser uma necessidade. A forma tem que ser experimentada. E é exatamente por isso que Maiakóvski é um dos grandes poetas do século XX. De uma de suas mais conhecidas frases, “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”, pode-se claramente perceber sua relação tanto com a vanguarda quanto com a Revolução. Para Maiakóvski, a arte e a Revolução deveriam caminhar juntas, influenciando-se.
As vanguardas trazem à arte a discussão sobre seu próprio processo de produção. Luiz Renato Martins[xiii] localiza na experiência da pintura-processo de Cézanne as origens do cubismo e especialmente das vanguardas russas, o formalismo e o construtivismo. É baseado dos exercícios de Cézanne em tentar transformar em arte o próprio método criativo que nasce a proposta cubo-futurista que daria corpo aos ismos que emergiam na Rússia revolucionária. E Maiakóvski é um dos principais teóricos dessa vanguarda, sendo um dos signatários do manifesto do cubo-futurismo russo, “A bofetada no gosto do público” (1912), e autor do volume “Como fazer versos?”. Essa busca por transformar a arte em seu próprio processo e inclusive a vida na própria arte seria uma das guias condutoras da breve existência do poeta.
No texto “Um toque de balalaica para Maiakóvski”, a professora Edilene Dias Matos diferencia o futurismo russo de sua principal influência, o italiano de Marinetti. Pelo valor elucidativo, segue uma longa citação:“É bem provável que as inspirações primeiras tenham advindo da Itália, e não há como negar a difusão dos mais diversos ecos da vanguarda italiana entre a intelectualidade moscovita dos primeiros anos do século XX, mas o movimento liderado por Marinetti teve suas especificidades na Rússia, onde se deu a cisão entre ego-futurismo e cubo-futurismo. Sob o rótulo de ego-futuristas concentrava-se um grupo de intelectuais que via nas idéias estéticas vindas da Itália um meio fácil de chamar a atenção, sem, no entanto, contrariar o gosto da burguesia. Por outro lado, o grupo que aderiu ao cubo-futurismo objetivava levar às últimas conseqüências as idéias do polêmico artista italiano.
Pode-se afirmar que os adeptos do cubo-futurismo na Rússia traçaram rumos próprios e distanciaram-se de Marinetti, tendo inclusive negado veementemente seus propósitos, sobretudo aquele que toca num problema de base: o emprego de uma linguagem emotiva e não-poética.”[xiv]Guiado pelo manifesto e fortemente ligado à esquerda revolucionária, Maiakóvski desenvolve uma poesia espacial, que ocupa a página e chama a atenção do leitor como os cartazes publicitários que então produzia para a Revolução. Por conta dessa aproximação poesia-publicidade, os recursos tipográficos e espaciais tornam-se tão importantes quanto a própria sonoridade dos versos, que fizeram do poeta um famosíssimo orador.
Vanguarda e Revolução são também os principais temas da poesia de Maiakóvski, que chegaram da quase questão de ordem como nos poemas “Ordem aos Exércitos da Arte”, nos quais conclama os “Camaradas, às barricadas! Eu digo:/ Barricadas da alma e do coração!”[xv], à lírica ora desesperançosa de “À Sierguéi Iessiênin” (“Melhor/ morrer de vodca/ que de tédio!”[xvi]), ora sublime e metafórica de versos como “A noite/ impôs ao céu/ a servidão de tantas/ tantas estrelas”[xvii], de seus últimos fragmentos.
Por uma forma revolucionária
Para falar sobre a forma na poesia de um esteta como Maiakóvski, podemos inicialmente lançar mão de uma frase sua que explica quão importante é esse elemento em sua obra: “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. Tendo claras as idéias de Maiakóvski quanto à questão da forma e sabendo de sua aproximação ao futurismo e ao marxismo, caímos então noutra questão central da obra do poeta: a visão da poesia como produção – “dificílima, complexíssima, porém produção”. É sob esse aspecto que Haroldo de Campos analisa o fazer poético de Maiakóvski no ensaio “O texto como produção (Maiakóvski)”[xviii], no qual explica pormenorizadamente o processo de tradução do poema “A Sierguéi Iessiênin”.
Para a árdua tarefa de traduzir Maiakóvski (ele próprio afirmava que sua poesia era intraduzível já que inseria nos versos a linguagem cotidiana, jogos de palavras…), Campos tinha à mão o texto “Como fazer versos?”[xix], no qual Maiakóvski discorre sobre a arte poética e fala especialmente sobre o seu processo criativo. No texto, defende a economia como “a lei fundamental de toda produção estética” e considera a rima “apenas um dos inúmeros meios de amarrar entre si as linhas, e a bem dizer, o mais singelo e grosseiro”[xx].
Sobre o processo produtivo (sendo a poesia produção), Campos diz que “Maiakovski rompia as leis da poética tradicional e considerava cada poema um jogo de xadrez (…) não pode mais haver repetição de lances, por geniais que sejam”, ou seja, na construção do poema deveriam ser observadas cuidadosamente as escolhas formais, como que na escolha dos lances de xadrez. Haroldo ainda apontava na poesia de Maiakóvski a recusa da “melifluência” simbolista em favor da dissonância, como observável nos futuristas russos. É construir por meio de um complicado sistema de rimas um efeito que foge da melodia da repetição de sons, mas que cria certo descompasso no ritmo e encadeia os versos.
Essa forma revolucionária levou o cineasta e importante teórico do cinema Sergei Eisenstein a comparar a estrutura da poesia de Maiakóvski ao cinema, dizendo que “o poeta não escrevia em linhas, mas em ‘shots’”. O próprio Maiakóvski encantou-se com o cinema vanguardista[xxi] que se agitava na Rússia e tinha em Eisenstein (autor de O Encouraçado Potemkin, de 1925) o seu grande nome. Certamente cinema e poesia estavam juntos, como vanguardas, revolucionando a arte para a nascente sociedade no pós-Revolução na Rússia.
[i] In KARPEL, Dalia. “The ‘raging bull’ of Russian poetry”. Disponível em http://www.haaretz.com/hasen/spages/878845.html.
[ii] MAIAKÓVSKI, Vladimir. Eu Mesmo. [na realidade a edição que possuo é uma portuguesa chamada “Autobiografia e poemas”. Lisboa: Editorial Presença, 1977. Tradução de Carlos Grifo, que diferencia-se da edição brasileira já na segunda frase. Embora na edição portuguesa o início seja “Sou poeta. Esse é o fulcro dos meus interesses”, optei por utilizar a versão que aparece no texto de Lísias e em inglês no de Karpel, cuja tradução creio aproximar-se mais da que utilizei. As demais referências à autobiografia do poeta serão retiradas literalmente da edição portuguesa, então.]
[iii] Desse período Maiakóvski conta em Eu Mesmo sobre uma vez que lhe voltaram o troco errado e que apenas após conferir que o erro fora do patrão e não do empregado é que se divertiu com o dinheiro.
[iv] MAIAKÓVSKI, op cit.
[v] MATOS, Edilene Dias. “Um toque de balalaica para Maiakóvski”, disponível em http://www.apropucsp.org.br/revista/rcc01_r11.htm.
[vi] In “A slap in the face of public taste”, disponível em http://www.unknown.nu/futurism/slap.html. A tradução é literal.
[vii] SCHNAIDERMAN, Boris. Poesia Russa Moderna. São Paulo: Brasiliense, 1985.
[viii] São belíssimos seus versos de despedida de Paris: “Da lama/ e dos adeuses/ ficam-me os olhos tristes./ Meu coração/ sentimental/ com pancadas me abala./ Como eu teria desejado/ viver/ e morrer em Paris,/ se não houvesse/ neste mundo –/ Moscou!”.
[ix] A camisa amarela é citada destacadamente em Eu Mesmo e aparece nos versos “Do veludo da minha voz/ Vou mandar fazer minhas calças pretas./ De três metros de meio-dia, uma blusa amarela”.
[x] LÍSIAS, Ricardo. “Maiakóvski – O poeta da revolução”. In Cadernos Entrelivros 2 – Literatura Russa. São Paulo, 2007.
[xi] GELMAN, Emanuel. The Flute of the Gutters, the Early Mayakovsky: Poetry and Prose 1912-1918.
[xii] “a novidade, novidade do material e do procedimento, é indispensável pra toda obra poética”
[xiii] MARTINS, Luiz Renato. “Teoria da arte – teoria da montagem: poéticas do choque, de Cézanne a Outubro”. Prefácio de ALBERA, François. Eisenstein e o construtivismo russo. São Paulo: Cosac & Naïfy, 2002.
[xiv] MATOS, op cit.
[xv] Tradução de E. Carreira Guerra.
[xvi] Tradução de Haroldo de Campos.
[xvii] Tradução de Carlos Grifo.
[xviii] in CAMPOS, Haroldo de. A operação do texto. São Paulo: Perspectiva, 1976.
[xix] MAIAKÓVSKI, Vladimir. “Como fazer versos?” in SCHNAIDERMAN, Boris. A poética de Maiakóvski. São Paulo: Perspectiva, 1971.
[xx] MAIAKÓVSKI in SCHNAIDERMAN, op cit.
[xxi] Disse Maiakóvski sobre cinema: “quase uma concepção do universo”, expressão do movimento, veículo inovador da literatura e destruidor de estéticas obsoletas, além de difusor de idéias revolucionárias e vanguardistas.
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Cesar Augusto Rodrigues, quase 25, quer ser poeta, gosta de cinema e se encantou recentemente com literatura japonesa. De repente, aí ele encontrou seu caminho. Afora afetações, nasceu em São João da Boa Vista e é corintiano.
E-mail: cesarasrodrigues@gmail.com
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