Especiais
Campinas, cidade mimesis
23 de Julho de 2008 | por Revista Wave
Misto de artigo de opinião e ensaio, uma reflexão diferenciada sobre a maior cidade do interior paulista
por Gustavo Padovani
Um processo (quase) inconsciente
Realizar investigações sobre sua própria cidade natal é uma manobra de risco. Qualquer tentativa de esboçar um olhar aprofundado em uma região que diz respeito a milhares de pessoas, está passível a uma demonstração de bairrismo desmedido ou exposições que conduzem a reações revoltas dos conterrâneos alheios.
A busca pela compreensão de um território necessita de algumas prerrogativas. Um dos princípios do método selecionado está localizado na pesquisa sobre os Outsiders dos sociólogos Norbert Elias e John Scotson[1]. A tese propõe uma averiguação das relações microssociais entre um pequeno vilarejo estabelecido e um grupo de pessoas que se fixaram na região alguns anos depois (o que conceitualmente, os autores denominam como outsiders). Rumando para a psicossociologia, a simples premissa parte da coleta de dados do dia-a-dia, em vez de espelhar-se em preceitos generalistas de grandes precursores, como Freud, Marx e Engels.
As relações de adaptação, adequação lingüística, fonética (sotaques) e vivência com outra sociedade, levam um indivíduo a um desgaste natural dos vínculos emocionais trazidos diretamente da sua cidade natal. Ao inserir-se em outra organização social, esse mesmo indivíduo assume involuntariamente o papel de um outsider e inicia um processo de avaliação crítica sobre sua cidade natal. Essas indagações são desencadeadas primariamente por um posicionamento sobre a “identidade cultural”. Segundo o sociólogo Denys Cuche[2], a identidade cultural é “preexistente ao indivíduo que não teria alternativa senão aderir a ela, sob o risco de tornar-se um marginal, um desenraizado”. Utilizando-se dessa condição impositiva, a proposta é especular idéias sobre o espaço urbano, sobre a população e as relações históricas da cidade com a sua população vigente.
Mimetismo Campineiro
Além de seu próprio aniversário (234 anos completados em 14 de julho último), a fonte catalisadora para a incursão na cidade de Campinas, partiu de um evento assaz peculiar: o reality show exibido há 6 anos pela Globo, Big Brother. A relação aparentemente absurda torna-se palatável quando se atenta a um detalhe pouco notório. Das oito edições do programa que propõe a disputa por 1 milhão de reais, julgada pela exibição de interações microssociais aberta para o público brasileiro, dois vencedores são provenientes de Campinas. O que poderia ser mera coincidência, também pode ser uma avaliação incauta.
Tanto Rafinha (vencedor da última edição), quanto Bam Bam (vencedor da primeira edição) carregam determinadas semelhanças. Quando expostos a um grupo social simulado, compostos de outros outsiders, eles esboçaram características que traduzem linguagens comportamentais e psicológicas comuns à sociedade campineira.
Bam Bam era um dançarino de axé de origem supostamente humilde, mas beirava-se em suas roupas “descoladas” que enalteciam sua corpulência, fixando assim seu posicionamento perante o grupo. Sua imagem robusta era paradoxal à sua personalidade sensível, em que seus choros e lamentos eram acompanhados por milhões. Para driblar a solidão, criou a boneca “Eugênia”, fato que o ajudou a ganhar simpatia por parte da audiência.
Já Rafinha trazia um simulacro de um espírito “roqueiro” (que por associação momentânea, levou-o também a tribo dos emos) bem cuidado, mas também revestia-se na pele de um simplório entregador hortifrutigranjero. Assim como Bam Bam, criou um mecanismo que o aproximou do público: fazia cara, gestos e conversava com as câmeras. O rapaz possuía uma namorada fora do programa e se aproximava de outras garotas na casa, mas nunca rendeu-se ao prazeres da carne.
Em suas relações com os outros, ambos vencedores nunca entravam em grandes embates e discussões, mas sempre permeavam a ação central. Estavam sempre alertas as movimentações dos outros jogadores e os possíveis grupos que poderiam se formar. Estabeleciam relações harmoniosas com todos participantes para poder impelir qualquer simples iniciativa de prejudicá-los. Diante disso, suas ações refletiam em um código moral inabalável aos olhos dos outros. Tornaram-se campeões. Essas considerações não pretendem dizer que o povo campineiro é vencedor por excelência, mas que eles são dotados de uma particularidade condizente com a formação de sua própria sociedade.
Em uma crônica sobre os cariocas, Millôr Fernandes cita que os mesmos incorporam “as tendências básicas do discurso nacional: o humanismo mineiro, o pragmatismo paulista, a verborragia baiana”. Se Campinas - em um campo hipotético – se tornasse um estado, certamente o autor teria incluso o “mimetismo campineiro” como uma das qualidades benéficas de seus conterrâneos.
A biologia define o mimetismo como uma habilidade própria de ataque ou de defesa, em que uma espécie nasce com características que possibilitam a imitação de outro organismo vivo do qual possa tirar algum proveito, sendo este para alimentação ou para impedir o predatismo (diferentemente da camuflagem, para os biólogos de plantão). Essa denominação sincrética não é fruto de uma confabulação meramente contemporânea, mas é uma constatação retirada dos percursos históricos da cidade e de seus habitantes.
Do nascimento à consolidação
Campinas nasceu como um bairro ligado à vila Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí, distrito limítrofe da capitania de São Vicente. Antes de ser elevado à categoria de vila em 1774, o local era um ponto de encontro entre tropeiros, que rumavam para Goiás e Cuiabá em busca de minérios. Fugitivos de recrutamentos e desertores de empreitadas bandeirantes também habitavam a região. O grande êxito de Campinas sucedeu-se na troca de culturas do solo: desviou-se o cultivo de cana-de-açúcar para a cultura cafeeira.
Os minerais presentes no solo campineiro são responsáveis pela dominação “terra roxa”. A cor inconfundível era também presente em outras cidades prósperas do café como Ribeirão Preto e Itu. Com o esgotamento dos solos do Vale do Paraíba, a riqueza do futuro estado se voltou para o Oeste Paulista - canalizado principalmente em Campinas.
Em meados do século XIX, a motivação do café já tinha elevado o local à condição de cidade e alguns fazendeiros da região buscam colonos na Alemanha para iniciar o trabalho livre no município. Junto à imensa quantidade de café produzida, era necessária uma mão de obra escrava expressiva. Rastros históricos apontam a cidade como uma das maiores concentrações de escravos do Brasil no século XIX. Além da quantidade, os maus tratos eram a serventia da casa. Anunciar em qualquer canto do país que algum escravo ia para Campinas era motivo de pavor na senzala. Em uma das teses do historiador Celso Maria de Mello Pupo[3] sobre o nascimento da cidade, ele transcreve uma quadrinha conhecida na região: “O Rio de Janeiro é a Corte/ São Paulo é a Capitá/ Campinas é o purgatório/ Onde os negro vão pená”
Esse tipo de pensamento proveniente da oligarquia cafeeira regional demonstra algumas das relações sociais da região. Com a concentração de renda voltada para interior paulista, à burguesia exercia um papel diferenciado comparado à relação de “poder político indireto”, observada por Max Weber. Enquanto a burguesia européia usufruía-se do Estado para algumas manobras específicas, a brasileira convergia para unificação no plano político. Como reflexo desse posicionamento em Campinas, quase todas as melhorias da cidade, partiam de iniciativas privadas. As primeiras instalações de lampiões na cidade foram custeadas por um padre e por um músico, por exemplo. Quando visitou a cidade, o professor da Escola Politécnica da Corte, Louis Colty, declarou: “a iniciativa privada nem ao menos tenta abordar seriamente os problemas cuja solução se impõe”[4].

A malha ferroviária de Campinas em seus tempos auges da produção cafeeira
Terra Roxa, Febre Amarela
Com o cenário político e econômico do país voltado para o estado de São Paulo, Campinas destacava-se. Além da grande renda gerada pelo café, a cidade tinha nomes importantes dentro da movimentação Pró-Republicana, como o futuro presidente Campos Salles e o propagandista Francisco Glicério. No campo cultural, orgulhava-se de ser a terra natal de Carlos Gomes, o maior operista brasileiro, cujo destaque na Europa o levou direto para a Scalla de Milão. Em 1875, contava com o Teatro São Carlos e o Rink Campineiro, centro de atividades culturais que abrigava um das mais luxuosas pistas de patinação do país. Para a construção de catedrais, trazia artistas como Vitoriano dos Anjos para confeccionar seus interiores.
As prospecções almejadas pela classe burguesa campineira foram consumidas por uma epidemia de febre amarela. Para ter dimensões do cenário devastador, em 1889 a cidade contava com 33 mil habitantes (10 mil na parte urbana, 23 mil nas fazendas). Em meados da década seguinte a população chegava a 3 mil cidadãos. As técnicas profiláticas não eram eficazes e por se tratar de uma doença comum aos países colonizados, haviam poucas pesquisas na área. Uma série de investidas insignificantes para drenar água de brejos, remanejar o saneamento básico e trazer água de outras regiões, deram um tempo maior para a propagação do mosquito Culex fasciatus (Aedes aegypti).
As famílias abastadas se removeram rapidamente, abandonaram plantações, fábricas e fazendas. Os dados sobre a população regional abordam de maneira muito leviana o destino dos escravos que trabalhavam na região. Mas vivendo em condições precárias e sem meios de se locomover com rapidez, o número de mortos provavelmente ultrapassa a margem de 3% a 5% que constam nos principais estudos sobre o surto na região.
Da Desestruturação
A descoberta do mosquito como agente vetor da febre -através dos estudos de uma comissão americana para combater seus soldados afetados em Cuba - chegou a Campinas para sanar a epidemia 10 anos após o início do surto. Mas o advento funcionou apenas na camada epidérmica.
Durante a última década do século, enquanto o país digeria os efeitos da Lei Áurea e da Proclamação da República, Campinas agonizava na estagnação. Quando o candidato local a presidência, Campos Salles, subiu ao poder em 1898, a política de favores entre o governo estadual e federal, de nada servia a uma cidade abandonada. O presidente também levou ao poder, uma filosofia aristocrática típica aos barões: um governo formatado para famílias tradicionais de dinheiro e posse, contra os trabalhadores e classes minoritárias. Ao utilizar o funding loan como acordo para sanar a dívida externa acabou por aumentá-la.
As drásticas mudanças alteraram a concepção do campineiro em relação a sua identidade. Grande parte da elite que almejava fixar-se na região foi obrigada a abandonar suas terras. Instaladas em outras cidades, elas permaneciam desarticuladas, longe dos círculos de poder outrora existente. O sentimento de fracasso perante as expectativas surgidas duas décadas antes da epidemia era incompatível com o levante de progresso identificável no grupo social burguês que dominava Campinas.
O conceito “subjetivista”[5]aplicado nos estudos acerca da identidade cultural podem ajustar-se ao modelo campineiro, pois constata-se uma entidade deficitária. A premissa subjetiva considera que a identidade etno-cultural é um sentimento de vinculação a uma coletividade imaginária em maior ou menor grau. São as representações que os indivíduos fazem dessa realidade social e suas divisões, que possuem real importância. Para o campineiro, esses simulacros sociais eram compostos de um sentimento bairrista mal-acabado, uma repulsa associada ao desmantelamento de uma sociedade em plena ascensão. O campineiro não somente sentiu-se impossibilitado de examinar sua história com olhos isentos, como tenta - até hoje - criar de si uma imagem que não corresponde à realidade. A maneira como a febre abateu Campinas, assemelha-se a um feitio da própria Modernidade identificável no período de transição entre os dois séculos: além da arte, todas as possibilidades sugeridas aos convívios humanísticos se tornaram volúveis.

Brasão de Campinas oficializado em 1899 com os dizeres “No trabalho e na virtude a cidade floresce”
Signos, Simulacros e um cinema desconhecido
Um ano antes do século XIX encerrar, o brasão de Campinas foi oficializado. A figura mitológica da Fênix saindo das cinzas, entre os dois carros-chefes de sua economia (uma haste de cana-de-açúcar e outra de café), esboçavam o desejo campineiro de renascimento. Mas diferente da mitologia grega, na qual a fênix prepara uma pira de ramos para poder dissipar-se e renascer, ninguém na região estava preparado.
Durante as primeiras décadas do século XX, Campinas procurou se restabelecer como a potência de outrora. Para isso, projetou-se capturando elementos da capital do estado que tanto almejara ser, mas sem deixar a produção agrícola de lado. Essa dualidade permitia que a cidade conseguisse ter 93 centros fabris[6] e ao mesmo tempo exportava uma safra de café de 585,000 arrobas por ano. Essa postura gerou inúmeros reflexos na região, que se tornariam identificáveis a partir de uma década crucial para a cidade: os anos 20.
Preocupados em valorizar a identidade campineira e a cidade, os jornais da região tentavam exaltar o progresso da região com adjetivos que pudessem nutrir na população um sentimento passional. “Commercio, Industria, Bellas Artes, tudo se une para a ascensão grandiosa e divina: ad infinitum.” publica um editorial da Gazeta de Campinas, no dia 18 de janeiro de 1923. Outra idéia das mídias regionais era propagar a seus leitores um grande centro urbano que não ficasse em desvantagem com a capital ou qualquer outra cidade do estado. Um artigo publicado para câmera de comercio Brazilian American, realça a cidade como “o maior centro depois da Capital , em riqueza, população e cultura.” O texto também expunha uma das principais preocupações da elite motivadora por trás do desenvolvimento da cidade: a sua imagem perante aqueles que a visitam. “Carece de certo modo de boas informações, e isso se perdoa ao visitante que passou por aqui rapidamente, mas que gravou nitidamente os caracteres gerais que consubstanciam o lugar que ocupamos na civilização brasileira[7]”. No entanto, como é possível conclamar esse espaço na civilização brasileira, de uma cidade que acaba de se organizar a menos de duas décadas? É justamente na trajetória do campo artístico da cidade na década de 20, que é possível encontrar os reflexos de uma sociedade em reformulação.
Sob influência direta da Semana de Arte Moderna de 22, ocorrida na capital, alguns poucos artistas campineiros, sentiram-se seguros para trilhar por novos caminhos estéticos e explorar novas linguagens. “Campinas atravessa a phase mais gloriosa de sua história da sua história artística. Do começo de 1922 aos presentes dias de 1923, uma avalanche de artistas tem procurado a terra campineira(…)”[8], declarava outro editorial da Gazeta de Campinas em maio de 1923. No entanto, a “avalanche” descrita pelo jornal, se desfaz pela falta de nomes que são realmente significativos. Excetuando o poeta e ensaísta Guilherme de Almeida (um dos pioneiros na introdução do haikai no país), foi apenas na produção cinematográfica que Campinas encontrou uma linguagem genuína que para projetar-se como movimento notório, repercutindo no Brasil. Filmes como João da Matta (Amilar Alves, 1923) e A Carne (Felipe Ricci, 1925), tiveram críticas positivas de pioneiros críticos no país, como os cariocas Pedro Lima (da revista Selecta) e Adhemar Gonzaga (crítico da Para Todos… e fundador da produtora Cinédia). Com o número crescente de filmes e produtoras na região, Campinas levava inúmeras vezes o título de “Hollywood Brasileira”.
Avessa a popularidade exercida pelo cinema no início do século, a parcela mais abastada de Campinas se opunha à prática cinematográfica, devido ao caráter popular exercido pelo cinema. “Pode-se dizer que Campinas nocturna resume-se apenas aos cinemas, onde assiste a gente corridas do Tontolini, ao lado dos dramas da Pathé e Cines e das tragédias da Nordisk. (…) E para mal dos nossos pecados, até o Casino tombou para a valla comum dos cinemas, suprimindo as variedades! Até quando irá essa pasmaceira?” escreve um leitor para o Diário do Povo em 1912[9], antes mesmo de Campinas produzir seus filmes.
No início, a exibição e produção cinematográfica foi amplamente criticada por grande parte da elite campineira, para depois tornar-se financiada pela própria (assim que a primeira película João da Matta, ganhou notoriedade nacional) e ser abandonada por desinteresses de seus investidores, a partir de uma pequena queda na produção. A trajetória do cinema campineiro na década de 20 expõe os traços de uma cidade cuja população sempre foi medida por uma classe burguesa dominante que se posiciona de acordo os próprios interesses, mas tenta, forjar uma coletividade e um espírito bairrista inexistente. Se houvesse de fato uma preocupação em preservar algo tão valioso, que remete a identidade cultural da cidade, não veríamos o descaso que se repetiu, inclusive, com outro levante de produções na década de 50. Muito além da ampla problemática que abrange o cinema nacional e a memória, o ciclo regional de cinema campineiro é, ainda, desconhecido para uma esmagadora maioria dos habitantes da cidade.

Equipe de produção cinematográfica campineira na década de 20
Atualmente
Com a crise da economia cafeeira na década de 30 e a derrocada dos barões do café, a cidade ampliou ainda mais seus parques industriais. A oferta de emprego atraiu migrações e imigrações, dobrando o número da população local e a mão-de-obra para o seu desenvolvimento. Em pleno desenvolvimento, a cidade obteve investimentos para criar universidades de renomes, tornar-se o terceiro maior centro de nacional de pesquisa e tecnologia, e a construção do aeroporto de internacional de Viracopos. O título de “Princesa d´Oeste” é a epítome de uma cidade que exaltava e assistia o seu progresso, e ao mesmo tempo tenta posicionava-se com os caracteres de uma cidade do interior.
Campinas é a cidade atualmente responsável por quase 1% do PIB do país. Nas últimas décadas o setor comercial e de pesquisa ganhou maior importância - mesmo que o setor industrial concentre quase um terço do é produzido no estado de São Paulo. Segundo uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 2006, Campinas é a melhor cidade do interior para se trabalhar (baseada em requisitos como capacidade de geração de riquezas, qualidade na educação e vigor econômico). Através destes dados, pode-se constatar que é uma região de acúmulo de riquezas, mas mal distribuída.
As regiões metropolitanas ao redor da cidade são pólos extremos: ou apresentam índices de alta renda ou são aglomerados de pessoas que mal atingem dois salários mínimos. Mas é interessante notar que mesmo nas áreas mais deficitárias, aproveita-se dos impostos baixos para realizar investimentos que podem aumentar a produtividade da região. Hortolândia, por exemplo, é uma região metropolitana que concentra um dos maiores parques tecnológicos do país e ao mesmo tempo, avulta o maior índice de pobreza e violência da região[10].
Em suas áreas limítrofes com outros distritos e municípios, Campinas substituí o espaço de grandes áreas e campos, por condomínios e agrupamentos residenciais na qual parcela mais abastada da cidade aloja-se. Curiosamente, essa mesma área abriga amigáveis muros invisíveis, espaços de convivência neutra para o consumo: shoppings centers. Mesmo aqueles que passam pelas rodovias Dom Pedro e Anhanguera, sem entrar no município, podem avistar quatro grandes centros de compras estrategicamente posicionados.
Os dois dos maiores estabelecimentos do tipo na região, aglutinam lojas destinadas a um público de classe alta com lojas populares, criando assim um espaço para que o campineiro possa ocupar e, principalmente, ser visto. Todas as tentativas de criar um shopping destinado a um público específico, acabam resultando em fracassos comerciais ou estabelecimentos que são obrigados a efetivar mil manobras para não fechar. A organização comercial da região torna-se quase um organismo vivo que reflete os impulsos comportamentais do campineiro.
A mesma rapidez existente para a abertura dos estabelecimentos comerciais é diretamente proprocional ao tempo que esses levam para fechar suas portas, sem conseguir criar vínculos fixos, tradições. A novidade sempre atrai um campineiro e sabendo dessa informação, os investidores miram quase sempre no público mais refinado que puder. A partir do momento que o local deixa de ser novidade, ou ele oferece um serviço imprescindível (que outrora era inexistente), ou o ponto começa a se descaracterizar, recebe poucos freqüentadores e baixa seus preços até se tornar insustentável. Nesse momento, é o começo do fim para a investida: seja uma casa de show, uma boate, uma pizzaria ou uma loja de roupas. Essa política acaba levando os cidadãos campineiros os mesmos lugares de sempre e, conseqüentemente, em um ato de comodidade, para o shopping center. Não é de se estranhar que quem mora na cidade, tem plena ciência que a probabilidade de encontrar pessoas conhecidas ao sair é muito grande - mesmo que a região e seus distritos contem com mais de 1 milhão de habitantes.
Independente do juízo criado acerca de suas características, é esta formatação mutante e guiada por complexos de grandeza, que garantiu a imponência dessa grande cidade interiorana. Como herança para a população, Campinas deixou uma postura comportamental mimética, projetada em modelos múltiplos, cuja temporalidade, é medida pela relevância dos objetivos alcançados. É uma tarefa árdua executada com uma sutileza magistral e invisível aos olhos nus, que fazem encantar-se pela região, aqueles a admiram de fora. E é essa sutileza desenvolta em vários tipos, que fizeram Rafinha e Bam Bam, figuras cativantes e vencedoras do Big Brother.
Como reflexo dessa postura, a memória dos cidadãos sobre sua história é das mais desgastadas. A síndrome da novidade, toma o lugar de um passado rico e interessante, resultando em preservações cadavéricas que se arrastam sustentadas por alguns poucos entusiastas. O charme de suas praças, instalações, ferrovias e prédios históricos ficam perdidos no caminho de algum shopping center. Grandes nomes só existem mesmo para nomear ruas, avenidas e colégios.
Seus cidadãos não podem esperar também uma salvação da cultura. Não é um poema haikaísta de Guilherme de Almeida ou uma opereta de Carlos Gomes que conseguem definir em algumas linhas ou alguns minutos, o que é ser campineiro. O mérito está nas palavras de um cronista nascido em Campo Alegre (MG):
“A cidade posava de capital agrícola da província e dizem que a febre veio por pura mandinga paulistana. Nossos concidadãos eram tão altivos e orgulhosos que na rua se comportavam como desconhecidos só para se darem a impressão de habitar uma cidade grande. No estrangeiro, quando interrogados, respondiam em primeiro lugar que eram campineiros, só depois condescendendo em declarar que eram paulistas, e a muito custo admitindo que eram brasileiros.”
O trecho acima foi extraído do romance de Eustáquio Gomes, A Febre Amarela (Editora Geração, 1984). Mais do que seu próprio significado, a condição da citação é das mais campineiras possíveis. Embora o livro seja considerado um “clássico do underground” e dificilmente localizado nas livrarias, esse mesmo excerto figura em um mecanismo tão popular quanto o Wikipedia.
[1] ELIAS, Norbert e SCOTSON, John L.:Os estabelecidos e os Outsiders. Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade, Rio de Janeiro, Zahar 2000
[2]CUCHE, DENYS: A Noção de Cultura em Ciências Sociais, Bauru, EDUSC, 1999
[3]DE MELO PUPO, Celso Maria : Campinas, seu berço e juventude, Publicação nº20,1969
[4] HOLLANDA, SÉRGIO BUARQUE - História Geral da Civilização Brasileira, Difel
[5] CUCHE, DENYS: A Noção de Cultura em Ciências Sociais, Bauru, EDUSC, 1999 O conceito divide-se em outra corrente chamada “primordialista”. Mas essa define a identidade etno-cultural como a primeira e mais fundamental de todas as vinculações sociais
[6] Dados da “A Industria em Campinas”, uma monografia histórica
[7] Parte do artigo foi publicado também na Gazeta de Campinas, 19/12/1923
[8] Editorial da Gazeta de Campinas, 26/05/1923
[9] Diário do Povo, 08/03/1912
[10] Núcleo de Estudos da População NEPO - Unicamp Relação entre índices de desigualdades sociais e a violência urbana:o caso de Campinas e Região Metropolitana
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Gustavo Padovani, 22, pensava em fazer cinema e entrou por acaso em jornalismo na Unesp. Um brasileiro viciado em música, mas é desajeitado no samba e não torce para time algum. Como castigo, é acometido por incidentes improváveis.
E-mail: guspado@gmail.com
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Leia também:
. “O Brasil é na verdade um país sério demais”; Revista Wave entrevista o cartunista Arnaldo Branco.


29 de Julho de 2008 às 12:24
Ele conseguiu ser melhor do que texto anterior !!! A-do-rei !!!
5 de Agosto de 2008 às 17:47
Grande Padovani, ler esse texto agora foi como beber todos aqueles litros de cerveja novamente, recordando assim cada palavra da nossa proveitosa conversa sobre Campinas… Devo salientar que você escreveu maestralmente, e que a pauta em si daria para ser explorada em 100 Mestrados… mas Campinas cadece da pior doença metafísica: esquecimento. E quando digo Campinas, me refiro a Verdadeira Campinas, aquela que eu vejo pela varanda de meu apartamento no Centro da cidade, edificada em uma arquitetura velha e desprovida de pudores, enterrada debaixo de um mar de pessoas que vagam por elas desapercebidas de toda história que suas paredes carregam… Campineiros, em sua maioria, são estúpidos e visualmente iletrados quando se trata de sua cidade… ainda digo mais, já testemunhei dezenas de vezes a vergonha em admitirem que são campineiros em outro municípios… eu? eu não sou campineiro… sou um paulistano apaixonado pela face que ninguem vê… ou, quem sabe, depois de 13 anos em Campinas me tornei um campineiro envergonhada de quem sou? Dane-se, vamos beber…
24 de Setembro de 2008 às 23:17
Amigo, muito legal a materia. Tá de Parabéns!!