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O moço velho
21 de Julho de 2008 | por Contos, Crônicas e Poesias

Jovens, não envelheçam antes do tempo. Velhos são mau-humorados, e o mau-humor é, definitivamente, uma praga

por Joaquim Veloso

Mais de dois meses sem colaborar em tal benevolente e auto-suficiente espaço virtual, que é a Revista Wave, tornam-me um colunista irresponsável e prestes a despontar para o anonimato, como gostava de frisar Paulo Francis, aquele velho ranzinza. Que comentarista futebolístico é esse que deixa passar em branco momentos tão memoráveis quanto a vergonhosa final da Copa do Brasil, ou a esdrúxula eliminação do Fluminense na final da Libertadores e a avalanche de surpresas da Eurocopa, além desse insólito absurdo que é a liderança do Flamengo no nosso campeonato nacional de pontos corridos?

Pois a resposta está na própria pergunta. Ainda aturdido com a derrota do ex-todo-poderoso Sport Clube Corinthians Paulista para o time do intrépido e abençoado Carlinhos Bala, o Sport de Recife, decidi por conta própria tirar minhas merecidas e devidas férias desse martírio que é acompanhar diariamente as idas e vindas do futebol brasileiro. Porque nem só de futebol vive o homem, e quando seu time disputa campeonatos a par de seus rivais, a sensação é a mesma do personagem de Tom Cruise em De Olhos Bem Fechados, daquele diretor fabuloso chamado Stanley Kubrick: é observar a orgia todo pimpão, desejar tomar parte e ir embora pelas portas dos fundos. Triste, mas merecido.

Mas nada de queixas exageradas e intermináveis. Devemos nos prevenir da tristeza, haja visto que tal é um vício, já diria Flaubert, ao passo que Séneca contava, Sêneca afirmava, que os tristes que de tudo reclamam devem ser evitados. Porventura tal que, caso passem a evitar meus melodramas, não terei utilidade como condutor de informações para os poucos caríssimos leitores que se atrevem a conferir o que minha antiquada e deveras prejudicada mente possa ter a explanar.

Sejam pacientes comigo, leitorado. Logo estarei percorrendo jornais e programas televisivos, atento a todas as tramitações do mundo do futebol e enchendo de orgulho o restante dos jovens colaboradores dessa altiva equipe da Revista Wave. Que me caiba, porém, o momento de desabafo, frente a toda a juventude tão ardilosa que freqüenta o mundo virtual.

Confesso que não me faltam lágrimas nos olhos nesse momento em que, ao som de “Moço Velho”, na voz lamuriosa de Roberto Carlos, percebo que muito vivi, que muito sofri e que morri cedo demais. Aos quarenta anos de idade, sinto-me como um ancião, repleto de “memoribilias”, como costuma dizer amigo meu, que nada interessa a essa nova geração, tão objetiva e tão ríspida. “Essas recordações me matam”, canta agora o mesmo Roberto Carlos, na magnífica “O Divã”, e eu consigo compreendê-lo perfeitamente.

Nesse imensurável e digno espaço, fui escolhido, como sempre gosto de afirmar e reafirmar, para debater e gastar meus parcos conhecimentos sobre o secular futebol, esse esporte de origem bretã e de alma brasileira. Mas o editor nobilíssimo Daniel Faria sempre me confere suporte para ultrapassar a linha tênue entre o esporte e a vida, entre a competição pura e a determinação que costuma carregar aqueles que de fato, encaram nossa estada nesse mundo como vitórias a serem vencidas não com fatos, razões ou representações, mas sim com coragem, coração e exposição. Porque sentimentos existem para serem sentidos, e por mais que os clichês se multipliquem, acreditem-me, nada me é mais valioso após minhas quatro décadas de vida do que encarar demonstrações reais de sinceridade. Não ter medo de se expor, deixar por alguns instantes o cinismo e a ironia de lado, essas características tão típicas desse novo século, e deixar-nos embebedar pela pulsão da vida.

Eu gostaria de prolongar-me, mas temo a repetição, e a repetição já é um defeito diagnosticado em minhas divagações. Além disso, torno-me a alongar-me em temas não-referentes àquele ao qual fora convidado a tecer comentários sobre. Hão de perdoar tais rasuras sentimentais, porque todos que prezam um dia pela sua juventude, tal como comigo aconteceu, sentirão sentimentos como os que me inundam em tais dias. O romantismo é histriônico demais para você, meu caríssimo jovem leitor? Pois encare a verdade, acontecerá para todos nós. Peço apenas, para encerrar e não estender-me nesse texto de caráter quase messiânico: não envelheçam antes do tempo. Velhos são mau-humorados, e o mau-humor é, definitivamente, uma praga.

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Joaquim Veloso, 40, ex-jogador de futebol e escritor nas horas vagas, prefere não revelar detalhes da vida pessoal, por temer represálias de colegas e/ou atentados a saúde de sua nobílissima família.

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