Resenhas
Beck - Modern Guilty
21 de Julho de 2008 | por Revista Wave
Em novo disco, o artista americano de 38 anos demonstra um conformismo apático tão agudo quanto convincente
por Tiago Lopes
Havia feito uma já deletada resenha do Modern Guilt - lançado no aniversário de 38 anos do dono da brincadeira, Beck - e, lá pelo fim do segundo parágrafo, notei que ainda não tinha falado absolutamente nada do disco novo. Até então, só havia tentado construir uma justificativa para toda a estranheza inicial que as primeiras 10 audições do disco me causaram. Essa justificativa se basearia num resumo de toda a carreira do Beck, pra que eu pudesse entender como alguém, depois de 10 lançamentos oficiais e não-oficiais, todos repletos de músicas enormes, samplers diversos de estilos musicais díspares, às vezes com até oito instrumentos diferentes sendo executados por minuto, conseguiu fazer um disco que não ultrapassa a marca dos 35 minutos e não vai além de 10 músicas, todas elas limitadas por uma barreira que parece imposta por um vizinho incomodado com o barulho do som.
Mas é porque a qualidade única do Modern Guilt fica ainda mais evidente quando o disco é posto ao lado das outras crias do Beck, que se dividiam em, basicamente, discos pro-PARTY ON! e discos low-profile absurdamente bem produzidos. Só que o Modern Guilt não cabe em nenhuma das classificações e, dependendo do ponto de vista, é o que melhor representa ambas. “Gamma Ray” até faz com que as menininhas se ponham a levantar seus vestidos de bolinha fácil fácil, mas faz isso sem muito alarde, sustendando umas notas de baixo repetitivas, não indo além do basicão. A diversão é a mesma que se tem ouvindo “Nausea” ou “E-Pro”, só que sem a característica esquizofrenia de ambas.
Que existe em alguns momentos do Modern Guilt, só que não onde se costumava achar sempre, nos up-beats. Agora, vem para dar um valor extra ao lado instrospectivo do Beck. “Chemtrails” é realmente estranha às primeiras audições, é uma das mais barulhentas do disco e é difícil se acostumar com a desorganização da bateria non-stop e os uivos dos vocais. Até que tome alguma forma, você já conseguiu prestar atenção nas imagens assustadoras que o Beck criou no refrão (”you and me/watching the sea/full of people/try not to drown”), dando um sentido finalmente apreciável ao clima soturno da música. “Replica” é outra que possui uma batida desconexa, servindo de base para que você se deixe guiar unicamente pelo piano e vocal, que juntos até lembram uma melodia, mas uma um tanto desinteressante.
Mas as faixas meio-termo é que são as melhores coisas do disco e toda uma novidade na já longa carreira do Beck. O equilíbrio entre quase todas as suas variações que ele conseguiu em “Orphans”, “Modern Guilt”, “Walls” e “Volcano” é tão admirável como se assistíssimos ao lançamento de um novo Odelay. Primeiro, porque o Beck conseguiu ser suave sem violão nem gaita, e ser agitado sem esbravejar demais. Depois, porque ele ainda te deixa salivando por mais, impedindo essas preciosidades todas de irem além de três minutos, escondendo o vocal da Chan Marshall (que mal pode ser ouvido em “Orphans” e “Walls”) e mudando totalmente a direção de suas letras.
O Beck, desde Mellow Gold, sempre foi um otimista mais próximo do bobo alegre do que do loser com o qual ele tentou enganar todo mundo. À exceção de Sea Change, todos os seus disco pré-Information cantavam as graças da adultescência (alguns dizem que o Nick Hornby é mestre em abordar essas coisas; algumas pessoas estão erradas) com uma felicidade tão massa e não-cafona quanto as melodias que continham essas composições todas (Odelay é o disco mais feliz já criado sob o abrigo da música pop).
Com Information, ele até tentou demonstrar que não estava tão velho assim. “Think I’m in Love” foi um bom disfarce, mas posto abaixo por outras 14 músicas que insistiam num discurso pró-cientologia e contra-consumo cheio de observações incômodas sobre o estado das coisas. No disco novo, a poda também atingiu esse exagero de indignação, mas o que sobrou foi um conformismo apático tão agudo quanto convincente na maneira como é mostrado: é preciso só um pouco mais de atenção ao Modern Guilt para o seu happy-day se tornar num miserable one.
Beck. Modern Guilty
Interscope Records. 1. Orphans / 2. Gamma Ray / 3. Chemtrails / 4. Modern Guilty / 5. Youthless / 6. Walls / 7. Replica / 8. Soul of a Man / 9. Profanity Prayers / 10. Volcano.
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27 de Julho de 2008 às 6:32
Concordo quando diz que o Modern Guilt é um repasse pela carreira do Beck, assim como ele já fez no The Information, passando pelo subjetivismo introspectivo, até as baladinhas à Beck. Parece que ele deixou um pouco de lado o suas misturas musicais, como ocorreu no Odelay, que nada mais é do que uma alegoria da pós-modernidade, e optou por uma revisita a um pouco de tudo que ele criou desde Mellow Gold. Mas por que não gostou de uma das melhores, para não dizer a melhor música do álbum, Chemistrail? Não acho que causa qualquer estranhamento, pelo contrário, sua sequência melódica é muito bem construída, hipnotizante num primeiro contato sonoro.