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8.3
21 de Julho de 2008 | por Carol Bataier

Tão sem graça, ela pensava. Loira aguada! Por que não eu? Tanta gente me olha, por que ele não?

por Carol Bataier

Antes de dar um suspiro de decepção e de desligar o computador, ela ainda olhou para a mesa ao lado mais uma vez e teve tempo de vê-lo falar ao telefone. E ele sorria!

Foi a gota d’água. Ele desceu, e ela foi em seguida. Do fim da escada, pode vê-lo abrir a porta do carro. Apertou o passo e avistou a mulher, ao volante. Tão sem graça, ela pensava. Loira aguada! Por que não eu? Tanta gente me olha, por que ele não?

E saiu. Passou pelo bar da esquina e percebeu que, ao seu passar, a conversa dos três homens da mesa da calçada cessou, e só retornaram a falar quando ela já estava uns sete passos à frente. Olha só! Por que não eu?

Cruzou com um homem que a olhou nos olhos e depois no decote. E que, com certeza, virou a cabeça três passos depois de se cruzarem. E por que ela, e não eu, então?

Entrou na farmácia e seguiu direto para a prateleira do meio. As unhas vermelhas tamborilavam na caixa de tintura enquanto lia sobre vitaminas e proteção dos fios. Depois, arranhou a caixa. Por último, olhou pra frente como quem pensa em duas coisas opostas ao mesmo tempo e seguiu reto, mirando o balcão. Pagou e foi embora.

Já em casa, se media de alto a baixo. Era uma bela mulher, sem dúvidas. E por que não, então, meu deus? Tinha um belo sorriso, era compreensiva, gostava de conversar, tinha belos olhos, bela boca, belo corpo. Por que não? Por quê?

Em frente ao espelho, despiu-se como se estivesse dando início a um ritual. Cada peça tirada merecia um momento de contemplação. Olhava a peça que caía, levantava o olhar, olhava a parte de corpo agora despida. Meditava.

Quando estava já nua enrolou-se numa toalha velha, pegou a sacola sobre a penteadeira e foi para o banheiro.

O banho foi rápido e atormentado de pensamentos. Segurava as lágrimas e, algumas vezes, as continha utilizando pensamentos de ódio. Molhada, em frente ao espelho da pia do banheiro, abriu a primeira gaveta e tirou de dentro um pente de madeira.

Abriu a segunda gaveta e, depois de vasculhá-la, encontrou uma tesoura prata, quase enferrujada. Deixou-a sobre o mármore da pia. No espelho, via-se embaçada por causa do calor do chuveiro.

Com o pente, puxou para a frente do rosto uma longa mecha de cabelos negros. Penteou-a com cuidado. Acariciou-a com as duas mãos. Pegou a tesoura e viu longos fios caindo na pia. As lágrimas vieram e ficaram seguras nos olho. Puxou outra mecha e repetiu o movimento. O espelho desembaçara e ela via nitidamente as lágrimas escorrerem pela face. Via o nariz vermelho, e as mãos trêmulas que buscavam mais mechas, a pia coberta de fios negros. Ao cortar a última mecha, soluçava. Limpou o nariz com as costas da mão que segurava a tesoura. Largou-a na pia. Agora não tem mais volta.

Abriu a caixa de papelão com rapidez, rasgando-a com a unha, com uma pressa que nada tinha a ver com relógio. Tinha, na verdade, receio de que um lado seu pudesse convencê-la a mudar de idéia. Melhor fazer logo. Jogou o papelão rasgado no chão, abriu o potinho plástico e sentiu um cheiro que lhe causou náuseas e saudade da mãe. Não era tempo de pensar. Vestiu as luvas plásticas, fazendo cara de nojo. Abriu, desajeitadamente, o papel dobrado em quatro. Buscou com o olhar a informação de que precisava. Misturou os líquidos. Pegou na sacola um pincel de cabo longo. Com as lágrimas secando, começou a última parte do ritual.

De novo em frente ao espelho do quarto, puxava o zíper de um vestido vermelho-sangue. Olhou-se de cima a baixo e não se reconheceu. Passou a mão pelos cabelos, querendo acreditar que eram seus. Eram loiros! Já não sentia mais vontade de chorar, só precisava acreditar que aquilo tudo era verdade, que aquela mulher era ela, que a decisão fora dela, que…

Pegou uma bolsa preta de dentro do guarda-roupa. Sentou na cama e calçou as sandálias de salto alto. Deu a última olhada no espelho, suspirou profundamente. Pensou mais uma vez no comercial de tinturas, onde a modelo dizia que “com esses cabelos você terá o homem que quiser”. Vamos ver. Vamos ver.

Antes de sair de casa, ainda passou pelo banheiro e apanhou de cima da pia a tesoura prateada. Apertou-a contra o peito, com as duas mãos. Vamos ver.Guardou-a na bolsa e saiu.

No dia seguinte deu nos jornais: mulher mata homem à tesouradas.

E o que mais surpreendia era o sorriso sublime da acusada e sua declaração: “ele me matou primeiro”.

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Carol Bataier tem 22 anos, finge que estuda jornalismo, finge que trabalha e finge que escreve só pra fingir que gosta de fazer alguma coisa

E-mail: carolbataier@yahoo.com.br

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Leia também:

. Até onde amor?, por Carol Bataier.

. Ressaca vindoura, por Carol Bataier.

. Coração Materno, por Carol Bataier.

1 comentário

  1. Kenji diz:

    Oi! Adorei seu texto! Muito bom! Tbm gost muito de escrever… Tenho um conto que acho que vc ia gostar. :) Bjo!

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